Salvos pelo Feij�o                               Veja 28/07/1999
Na virada do ano 1000, um novo arado e o cultivo de leguminosas livraram a Europa da fome

Reprodu��o de um manual
de medicina do s�culo XI:
os antigos tinham ervas
como a agrim�nia, o Viagra
da era medieval














Em um artigo recente publicado pelo jornal The New York Times, o escritor italiano Umberto Eco, autor do best-seller O Nome da Rosa, conta como o cultivo de leguminosas � feij�o, ervilha e lentilha � salvou a Europa de morrer de desnutri��o na virada do primeiro mil�nio da era crist�. Eram tempos duros, em que as pessoas morriam de fome ou viviam doentes por causa da alimenta��o prec�ria. O desenvolvimento do cultivo das leguminosas mudou tudo. Fontes de prote�na, elas substitu�am a carne escassa. A pecu�ria praticamente n�o existia e ca�ar era um privil�gio dos nobres. Com a nova dieta, os camponeses ornaram-se mais robustos e resistentes a doen�as. A expectativa de vida aumentou significativamente e a mortalidade infantil decaiu. Os avan�os na agricultura descritos por Eco n�o param por a�. Novas ferramentas agr�colas tamb�m come�aram a ser usadas, entre elas um tipo de arreio que aumentava a efici�ncia dos cavalos ao puxar o arado. Em vez de ser presa no pesco�o do animal, a arma��o de couro ficava sobre os m�sculos do peito, permitindo maior impuls�o. Resultado: em apenas dois s�culos, a partir do ano 1000, a produ��o agr�cola multiplicou-se por cinco. Na Fran�a, a popula��o triplicou. A circula��o de pessoas e mercadorias acelerou-se, e as cidades, que n�o passavam de pequenos centros de artes�os, transformaram-se em grandes n�cleos populacionais.

A curiosidade a respeito de como a humanidade vivia e enfrentou a virada do primeiro mil�nio nunca foi t�o grande como agora. �s v�speras do ano 2000, dezenas de artigos, ensaios e livros est�o sendo publicadas sobre o assunto. Uma dessas novidades � o livro O Ano 1000, escrito pelos jornalistas ingleses Robert Lacey e Danny Danziger, lan�ado no Brasil pela Editora Campus. A popula��o mundial na virada do mil�nio era de 300 milh�es de pessoas. A maioria delas habitava lugares desconhecidos dos europeus, como a China, a �frica e a �ndia. Noventa por cento dos europeus viviam no campo, subordinados aos senhores feudais. Na Inglaterra, as 100 palavras mais usadas na l�ngua inglesa atual j� faziam parte do vocabul�rio da popula��o, que, no entanto, era completamente analfabeta. Lia-se e escrevia-se apenas nos mosteiros, deposit�rios dos pergaminhos gregos e latinos que sobreviveram �s invas�es b�rbaras. Nesses conventos, as regras previam cinco banhos para cada monge � por ano. Em toda a Europa, s� na Dinamarca havia o h�bito de tomar banho aos s�bados e escovar os cabelos. No fim do s�culo X, a civiliza��o medieval j� tinha seu pr�prio Viagra. Era uma planta chamada agrim�nia, cujas flores fervidas no leite combatiam a impot�ncia. Se fossem fervidas na cerveja, o efeito era contr�rio.

Sobreviver nos anos finais do primeiro mil�nio n�o era tarefa f�cil. Nos s�culos anteriores, invas�es de b�rbaros, saques, epidemias, fome e mis�ria destru�ram tudo o que os romanos haviam constru�do no maior imp�rio at� ent�o visto pela humanidade. Estradas, aquedutos e cidades viraram ru�nas e foram tomados pelo mato, da mesma forma que boa parte dos campos destinados ao cultivo voltou a ser floresta fechada. Vikings, h�ngaros, normandos e sarracenos invadiam de tempo a tempo a Europa Ocidental, a cavalo, a p� e at� mesmo de barco pelos rios. Ningu�m estava a salvo dos saques que atingiam indiscriminadamente castelos, mosteiros e cidades. Quando n�o eram os b�rbaros, os senhores feudais e os membros do clero se encarregavam de explorar a imensa maioria da popula��o. O povo vivia sob constante terror. Ningu�m duvidava, naquela �poca, de que os mortos continuassem a viver em um mundo al�m-t�mulo. Todos os povos, em especial na Europa, eram dominados pelas mesmas ang�stias. A c�lera divina pesava sobre a humanidade e podia manifestar-se por este ou aquele flagelo. Era fundamental, portanto, garantir a gra�a de Deus, o que dava � Igreja um poder total sobre ricos e pobres.

A popula��o acreditava piamente que o fim dos tempos estava pr�ximo. O Livro do Apocalipse dizia que o dem�nio ficaria aprisionado por 1.000 anos no abismo ao qual fora atirado pelo anjo de Deus e os padres medievais apregoavam essas escrituras pelos quatro ventos, associando o n�mero da B�blia � data m�tica do novo mil�nio. Em 989, uma estrela dotada de uma imensa cauda assombrou os 38 milh�es de pessoas que ent�o habitavam a Europa. Aparecia no crep�sculo e sumia com os primeiros raios de sol. Em um dos rar�ssimos relatos da �poca que chegaram a nossos dias, o monge Radulphus Glaber, da Borgonha, conta que por tr�s meses esse estranho corpo celeste ficou ali, no c�u. Era apenas o cometa de Halley, aquele que a cada 76 anos circula nas vizinhan�as da Terra. Para a popula��o medieval, por�m, pareceu o sinal inequ�voco de que o fim dos tempos havia chegado. Glaber conta que, logo depois, inc�ndios devastaram cidades inteiras da It�lia e da Fran�a atual, levando as pessoas a um pavor sem precedentes. Na pr�tica, ocorreu o oposto do que muita gente temia. J� em 1003, segundo o cronista borgonh�s, "parecia que a pr�pria Terra, renovando a si mesma e atirando fora os tempos antigos, se vestia com um manto branco pontilhado de igrejas". As cidades floresceram, enfeitadas por belos pr�dios, como pal�cios e catedrais.

As condi��es sanit�rias nas cidades continuavam terr�veis. Os esgotos a c�u aberto tornavam o ar insuport�vel, principalmente no ver�o. Os ratos pululavam em meio ao lixo e era comum sentar � mesa de refei��es acompanhado de um enxame de moscas. No s�culo XIV, mais de 300 anos depois da passagem do cometa, chegou a verdadeira hecatombe que os europeus temiam. Uma epidemia de peste bub�nica vinda do Oriente se instalou nos portos mercantis da It�lia e dali se espalhou pelo resto do continente, ceifando um ter�o de toda a popula��o. Pelo menos 25 milh�es de mortos apenas no ver�o de 1348. A peste se propagava pelas pulgas e parasitas que viviam no p�lo dos ratos. Entre os relatos dessa �poca macabra, os cronistas registram que no convento de Montpellier, um daqueles onde os banhos eram escassos, n�o restou um �nico monge dos 45 que l� viviam.
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