Odiss�ia Viking                                 Veja 10/05/2000
Menos brutais do que se diz, os navegantes n�rdicos colonizaram a Am�rica h� mil anos

B�rbaros sanguin�rios, saqueadores impiedosos e pag�os, os vikings pilharam com tal ferocidade a Europa medieval que ainda hoje ocupam lugar destacado entre os vil�es da Hist�ria. Av�s dos civilizad�ssimos escandinavos atuais, eles realmente fizeram por merecer a fama de brutos cru�is. Contudo, essa � s� uma faceta da onda n�rdica que varreu os mares h� mais de dez s�culos. Eles atacavam mosteiros, queimavam cidades, escravizavam e faziam sacrif�cios humanos. Mas tamb�m possu�am apurado senso est�tico e viviam num peculiar regime democr�tico regido por assembl�ias populares, enquanto todo o resto do continente estava atolado no feudalismo. Foram comerciantes, ourives, agricultores e navegantes ousados que exploraram cada canto do Atl�ntico Norte, chegaram a Bagd�, criaram um reino na Ucr�nia e estabeleceram uma col�nia na Am�rica, 500 anos antes de Crist�v�o Colombo.

As linhas principais dos feitos e da cultura viking s� eram bem conhecidas pelos especialistas. Com a inaugura��o de uma megaexposi��o (programada para coincidir com os 1.000 anos da chegada dos vikings � Am�rica) no Museu Nacional de Hist�ria Natural do Instituto Smithsonian, em Washington, na semana passada, ganha visibilidade uma id�ia menos estereotipada dessa gente com chifres nos capacetes. Essa �, por sinal, a primeira imagem a ser esquecida. Os elmos chifrudos nunca foram usados pelos guerreiros do norte, mas inventados pelos cen�grafos das �peras do s�culo XIX. A impetuosa expans�o n�rdica, chamada de Era Viking, durou por volta de tr�s s�culos, a partir do saque do mosteiro de Lindisfarne, na Inglaterra, em 793. Com seus barcos r�pidos, os guerreiros n�rdicos pilharam sistematicamente as ilhas brit�nicas e a costa atl�ntica da Europa. Uma esquadra de 700 barcos e 30.000 homens avan�ou pelo Rio Sena e cercou Paris, no s�culo IX. Reinos vikings foram criados na Esc�cia, na Inglaterra e na Fran�a. Ironicamente, foi a conquista da Inglaterra por seus descendentes franceses, os normandos, no s�culo XI, que p�s fim �s incurs�es guerreiras.

A Era viking n�o se resume aos assaltos de machado na m�o. Eles formaram uma das mais extensas redes de com�rcio da �poca e se converteram ao cristianismo. O grande trunfo recebia o nome de knorr, um barco raso com cerca de 20 metros de comprimento por 5 de largura. Eram embarca��es movidas a vela e remos, de pequeno calado, capazes de enfrentar tanto os oceanos como navegar por �guas rasas. Carregavam a soldadesca, vacas, marfim de le�o-marinho, seda, j�ias, cabras e tudo mais que valesse a pena comercializar ou roubar. Com esse prod�gio n�utico, os vikings costearam toda a Europa, desceram os rios Dnieper e Volga e chegaram aos mares Mediterr�neo, Negro e C�spio. Os barcos eram t�o importantes na cultura n�rdica que serviam de urna funer�ria para os grandes chefes. Gra�as a esse costume, que ajudou a preservar v�rias embarca��es enterradas no solo fofo da Escandin�via, hoje se conhece bastante bem as t�cnicas de constru��o desses barcos.

A passagem pela Am�rica, identificada como uma terra chamada Vinland, foi durante muito tempo considerada um cap�tulo fantasioso na atribulada narrativa da coloniza��o da Isl�ndia e Groenl�ndia. A saga conta que Erik, o Vermelho, banido temporariamente da Isl�ndia como puni��o por um assassinato, encontrou a Groenl�ndia e l� estabeleceu uma col�nia em 985. Dali enviou seu filho Leif Eriksson para criar uma base em Vinland, do outro lado do mar. S� nos anos 60 pesquisadores encontraram provas arqueol�gicas de que europeus realmente estiveram h� 1.000 anos no que hoje � o Canad�. Os vest�gios de oito casas, constru�das de forma id�ntica a outros abrigos islandeses da mesma �poca, est�o na regi�o de Terra Nova. A principal base mar�tima ficava perto da atual cidade de L'Anse aux Meadows. Existem evid�ncias de que os escandinavos mantiveram contato comercial com os esquim�s e com os �ndios canadenses (descritos na saga como feios e b�rbaros). A col�nia sobreviveu por apenas dez anos. "Era muito dif�cil uma pequena comunidade de apenas 500 pessoas, que mal conseguia sustentar-se, pensar em colonizar uma �rea t�o vasta", avaliou o curador da exposi��o americana, William Fitzhugh, em entrevista � revista Time. "Os vikings haviam acabado de chegar � Groenl�ndia quando decidiram partir em dire��o � Am�rica. N�o era nada pr�tico manter duas col�nias."

As viagens tamb�m s� tinham sido poss�veis porque se vivia um per�odo de temperaturas amenas. Uma mudan�a brusca do tempo, em 1350, conhecida como Pequena Era Glacial, p�s fim �s col�nias na Groenl�ndia e reduziu a popula��o da Isl�ndia a uns poucos milhares. A exposi��o que reconta a hist�ria dos n�rdicos custou 3 milh�es de d�lares e re�ne 200 pe�as arqueol�gicas da Escandin�via e de escava��es em todos os lugares por onde andaram os vikings. As pe�as, dispersas em v�rios museus europeus, canadenses e americanos, nunca haviam sido exibidas juntas antes. Os organizadores ainda tomaram o cuidado de montar uma sala apenas com objetos e obras de car�ter popular produzidos a partir do s�culo XIX, que contribu�am para os equ�vocos em torno dos vikings. Muito do que se imagina sobre esse povo foi forjado a partir de poemas, romances e quadros produzidos sem nenhum compromisso com o que de fato aconteceu na Idade M�dia. Vem da� a id�ia oper�stica do capacete com chifres ou com asas. � uma �tima oportunidade para descobrir que os vikings de verdade n�o t�m tanto em comum com o Hagar, o Horr�vel, personagem de hist�ria em quadrinhos, exceto a ineg�vel mania de saquear a Inglaterra.
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