Modelo Lusitano Veja 29/04/1998 A hist�ria de Fern�o Lopes, o portugu�s que inspirou Robinson Cruso�
A aventura de Robinson Cruso�, escrita por Daniel Defoe, � um dos livros mais populares do mundo. Lan�ado em 1719, � considerado o primeiro romance ingl�s moderno e continua inspirando roteiros de cinema ou televis�o. Em virtude de um incidente bem documentado � Defoe foi acusado em vida de ter plagiado o relato de um certo Alexander Selkirk, um escoc�s abandonado numa ilha deserta da costa chilena �, sempre se deu como certa a origem brit�nica da id�ia original. Uma pesquisadora portuguesa, Fernanda Dur�o Ferreira, encontrou pistas que levam noutra dire��o. "Cruso� � uma colcha de retalhos montada com hist�rias de navegantes portugueses dos s�culos XV e XVI, muito populares na Inglaterra naquele tempo", afirmou a VEJA. A saga do n�ufrago solit�rio coincide em muitos aspectos com a hist�ria fabulosa de Fern�o Lopes, um portugu�s que viveu em Santa Helena, ent�o uma ilha deserta na costa meridional da �frica, e morreu em 1546.
Fern�o Lopes foi condenado por trai��o na col�nia portuguesa de Goa, na �ndia, e sentenciado a uma pena crudel�ssima, de acordo com os costumes da �poca: teve amputados a m�o direita, o polegar esquerdo, o nariz e as orelhas. Ele e outros condenados foram ent�o entregues �s turbas, que os "depenaram e arrancaram quantas barbas tinham, at� as sobrancelhas". Estropiado e humilhado, Lopes pegou um navio de volta para Portugal, mas desceu em Santa Helena, onde o barco parou para se abastecer de �gua. Com o tempo, o maneta tornou-se uma figura popular, quase um mascote das naus de passagem. Os marujos lhe deixavam biscoitos, roupas, queijos, sal, cabras e porcos. Sua hist�ria rendeu v�rios livros e ele pr�prio foi perdoado e recebeu uma renda vital�cia do rei dom Manuel I. A pesquisadora sustenta em livro, lan�ado em Portugal no ano passado, que Defoe leu esses relatos e os costurou em seu romance. As semelhan�as s�o realmente espantosas. Fern�o Lopes criava animais e plantava hortali�as. Robinson Cruso� tamb�m. O portugu�s tinha por companhia um homem negro e um galo, que fazia as vezes de animal de estima��o. Cruso� tinha o criado Sexta-Feira e um papagaio.
Publicada pela primeira vez em 1719, a saga do n�ufrago Robinson Cruso�, escrita pelo ingl�s Daniel Defoe, � uma das obras liter�rias mais conhecidas, traduzidas e populares da Hist�ria H� tamb�m similaridades entre o livro de Defoe e uma lista de autores lusitanos. "� medida que ia relendo o Cruso�, ia trope�ando em epis�dios que conhecia", disse Fernanda Ferreira a VEJA. "Eram relatos de viagem portugueses, por muito tempo a melhor fonte de informa��es sobre as terras descobertas na Am�rica, �frica e �sia." Era natural que esses textos inspirassem outros escritores europeus. No caso de Defoe, contudo, a inspira��o beira o pl�gio. A ilha imagin�ria onde Cruso� viveu, no Caribe, � c�pia da Ilha de Gor�ia, na costa do Senegal, descrita pelos cronistas Jo�o de Barros, Valentim Fernandes e Gomes de Azurara, at� hoje not�veis fontes dos historiadores. Cruso� repete "ai, pobre de mim", a mesma lam�ria de um portugu�s no livro A Peregrina��o, de Fern�o Mendes Pinto. At� Os Lus�adas, de Lu�s de Cam�es, entrou na receita de Defoe: o pai de Cruso� se op�e � sua viagem como o anci�o que protesta pela partida de Vasco da Gama.
Ao longo do romance, Defoe deixou pistas de sua inspira��o, como a profus�o de refer�ncias que faz a Portugal. Robinson Cruso� � salvo por uma nau lusitana, passa um tempo em Lisboa, percorre a costa do Brasil-Col�nia e n�o poupa elogios ao navegante portugu�s, "homem am�vel, de envergadura f�sica e moral, conhecedor de terras e mares long�nquos". O pr�prio Cruso� parece dar dica das fontes de Daniel Defoe quando conta que encontrou na carca�a do barco afundado "tr�s B�blias muito boas que me tinham enviado da Inglaterra (...) e alguns livros portugueses". |