Mem�rias do C�rcere                            Veja 07/02/2001
Correspond�ncia in�dita de Lu�s Carlos Prestes e Olga Benario tem um grande valor hist�rico e humano
 

Lu�s Carlos Prestes: depois de
comandar uma tentativa de
insurrei��o em 1935, ficou
preso e incomunic�vel
durante nove anos 













Um dos cap�tulos mais dram�ticos da Hist�ria do Brasil dever� vir � luz, na �ntegra, no pr�ximo m�s de junho, quando ser� lan�ado o terceiro volume da correspond�ncia completa do l�der comunista Lu�s Carlos Prestes. O primeiro j� est� � venda. O livro, que est� sendo editado pela soci�loga Maria Augusta Carneiro Ribeiro, do Arquivo P�blico do Rio de Janeiro, trar� as cerca de cinq�enta cartas trocadas entre Prestes e sua mulher, a militante alem� Olga Benario, na �poca em que ambos estiveram presos. O casal foi detido pela pol�cia de Get�lio Vargas em mar�o de 1936, por ter comandado uma tentativa de insurrei��o no Rio de Janeiro, no ano anterior. O l�der do Partido Comunista Brasileiro permaneceu praticamente incomunic�vel durante nove anos, at� se beneficiar de uma anistia em 1945, quando o Estado Novo de Get�lio Vargas caiu e o pa�s voltou a ser uma democracia. Olga teve um destino pior. Em setembro de 1936, foi deportada para a Alemanha nazista. Esteve presa em Berlim e acabou transferida para o campo de concentra��o de Ravensbr�ck, de onde seria levada a uma c�mara de g�s e executada em abril de 1942. Na manga do uniforme de presidi�ria, Olga ostentava a Estrela de Davi amarela e preta que a discriminava como "judia anti-social".

A correspond�ncia entre Olga e Prestes era censurada nas duas pontas. Olga era obrigada a escrever em alem�o, para que a Gestapo, a pol�cia pol�tica nazista, pudesse ter acesso ao conte�do. As cartas seguiam para Paris, onde a m�e de Prestes, Leoc�dia, providenciava vers�es para o franc�s e as enviava ao filho, no Rio. Prestes, por sua vez, escrevia suas cartas em franc�s. Elas eram lidas por censores do Estado Novo e s� ent�o remetidas a Paris. Na capital francesa, Leoc�dia mandava traduzi-las para o alem�o e as endere�ava a Olga � que as recebia depois de terem passado pelo crivo da Gestapo. Um dos aspectos mais interessantes das cartas � a maneira como o casal consegue falar dos horrores do c�rcere, apesar da censura a que ambos estavam submetidos. Um dos temas prediletos de Prestes � a solid�o, ele que estava incomunic�vel. Num dos trechos, diz que n�o ag�entava mais ler e reler cl�ssicos da literatura. � uma maneira velada de reclamar do confisco de seus jornais, que ocorria de tempos em tempos, deixando-o sem nenhuma informa��o sobre o que acontecia no mundo. Olga encontrava maneiras ainda mais obl�quas de exprimir-se. Numa das cartas, recorda com saudade o per�odo em que esteve presa no Rio de Janeiro, em meio a colegas de milit�ncia, dando a entender que as condi��es da pris�o em Berlim eram muito piores. Em outra, j� no campo de concentra��o de Ravensbr�ck, escreve que n�o tinha tempo para pensar na morte, porque passava o dia inteiro muito ocupada e, quando ia dormir � noite, estava cansada demais para ter id�ias pessimistas. Nas entrelinhas, l�-se que estava extenuada pelo trabalho escravo a que os prisioneiros do nazismo eram submetidos. O cotejo das correspond�ncias mostra que ambos entendiam bem as mensagens cifradas.

Quando foi deportada para a Alemanha, Olga estava gr�vida de sete meses. A filha do casal, Anita Leoc�dia, nasceu na pris�o, em Berlim. Prestes s� viria a conhec�-la depois de ser libertado, quando ela j� estava com 9 anos. Anita, obviamente, � o assunto principal de grande parte da correspond�ncia. Olga descreve cada novo passo do desenvolvimento do beb� e recebe conselhos sobre educa��o infantil de um pai embevecido. "A imagem p�blica de meu pai � a de um sujeito rude, mas as cartas mostram que ele era acima de tudo um homem amoroso", diz Anita Leoc�dia, guardi� da correspond�ncia, juntamente com a irm� de Prestes, Lygia. O grande temor de Olga era que a filha fosse parar em outra pris�o nazista. Isso n�o ocorreu gra�as � atua��o do advogado Her�clito Sobral Pinto. Representante de Prestes, ele conseguiu vencer as dificuldades impostas pelo regime de Vargas e homologar documentos que provavam que o l�der comunista era pai de Anita. De posse dos pap�is, defendeu a tese de que a crian�a tinha cidadania brasileira e, assim, deveria ser libertada e entregue � av�. Sua luta � fortalecida por v�rias manifesta��es de protesto organizadas por Leoc�dia na Europa � foi vitoriosa.

� tamb�m comovente o esfor�o de Prestes e Olga para manter a sanidade em ambientes t�o desumanos. No campo de concentra��o de Ravensbr�ck, Olga era l�der de um pavilh�o e cuidava para que todas as presas fizessem gin�stica e mantivessem o asseio poss�vel. J� Prestes estudava compulsivamente. Aprendeu alem�o s� para poder escrever diretamente � mulher, sem a necessidade de tradu��o. Um epis�dio curioso, envolvendo livros, tem Sobral Pinto como protagonista. Quando este se prontificou a defend�-lo, Prestes recha�ou a id�ia, porque ele era um not�rio "burgu�s, cat�lico e liberal". Influenciado pela m�e, resolveu aceitar o advogado. Religioso at� a medula, Sobral Pinto tentava incluir obras cat�licas no card�pio intelectual de Prestes. Tanto fez que o comunista e ateu militante acabou gostando de Santo Tom�s de Aquino, em quem via, acima de tudo, "um pol�tico de talento, capaz de harmonizar em sua �poca as descobertas cient�ficas com o dogma religioso", segundo escreveu numa carta � mulher.

O epis�dio da entrega de Olga Benario aos nazistas � de uma crueldade monstruosa, mas n�o �mpar. O ditador sovi�tico Stalin, reverenciado por Prestes, fez algo parecido, ao jogar nas m�os da Gestapo l�deres comunistas alem�es que haviam ca�do em desgra�a no partido e estavam presos na Uni�o Sovi�tica. Isso ocorreu durante a vig�ncia do pacto de n�o agress�o Hitler-Stalin, no come�o da II Guerra. No caso de Olga, � especialmente chocante o fato de sua deporta��o ter sido cuidadosamente planejada. Na biografia da militante lan�ada em 1985, o jornalista Fernando Morais lembra que ela foi embarcada num navio alem�o fretado, que faria uma viagem sem escalas, para evitar o risco de que a prisioneira fosse libertada em algum porto franc�s ou espanhol. Quando foi informado de que a gravidez de Olga estava adiantada, o capit�o do navio invocou as leis internacionais de navega��o, que n�o permitiam a viagem de uma mulher naquele estado. Ainda assim, viu-se obrigado a lev�-la. A deporta��o de Olga foi um ato de vingan�a pessoal de Vargas e de seu chefe de pol�cia, Filinto M�ller, contra um advers�rio pol�tico. Por essa raz�o, o fato de Prestes ter apoiado Vargas posteriormente causou um grande constrangimento. Prestes era reconhecidamente pragm�tico. N�o h�, no entanto, pragmatismo pol�tico que justifique que um homem se coloque ao lado do algoz de sua fam�lia.

Rio de Janeiro, 22 de junho de 1937
"Agrade�o-te muito as belas descri��es que me fazes das cenas da vida de nossa pequenina. Cada uma de tuas frases � um pequeno e belo quadro. Quanto � minha situa��o, nossa M�e, certamente, te manda as informa��es poss�veis. � sempre a mesma coisa: dormir, comer e andar no meu cub�culo... Atualmente j� tenho alguns livros e com um l�pis passo horas a fazer c�lculos, a inventar problemas etc. Minha biblioteca ainda � bem pobre, mas o mais triste � que, quando encontro nos livros alguma coisa digna de nota, tu n�o estejas aqui para participar do meu prazer, e o prazer se perde. Tu me acostumaste bastante mal, minha querida. Mas tudo isso mudar�. � necess�rio apenas fazer o poss�vel para suportar a situa��o atual, � espera do dia feliz em que novamente estejamos juntos."
Karli

Berlim, 15 de maio de 1937
"Meu querido, quero falar-te da pequenina (...) Gostaria que tu visses como sua carinha se ilumina quando a gente se aproxima dela. O mais alegre s�o seus olhos azuis, t�o brilhantes e t�o claros, e verdadeiramente "p�caros", como sempre chamavas os meus. (...) Agora estamos na primavera em Berlim. A primeira ap�s tanto tempo! Somente eu a percebo muito pouco. Passeamos todos os dias uma meia hora no p�tio da pris�o. No p�tio h� uma �rvore e l� no alto uma fam�lia de passarinhos. Eu os olho e, ent�o, penso sempre em n�s. Por que os homens chegam a separar assim uma fam�lia como o fizeram conosco?"
Olga
 
Rio de Janeiro, 12/10/1937
"Atualmente, minha querida, leio um livro muito interessante sobre a Idade M�dia. Imagina que o meu advogado, que � um cat�lico praticante, � al�m disso filosoficamente um tomista convicto e me deu para ler um livro magn�fico sobre Santo Tom�s de Aquino. Mas nesse livro o mais interessante � a parte hist�rica sobre a sociedade ocidental no s�culo XIII. Admiro tamb�m de verdade o esfor�o intelectual de Tom�s de Aquino para harmonizar em sua �poca as descobertas cient�ficas com o dogma religioso. Parece-me que ele agia, ent�o, mais como um pol�tico de talento do que como um fil�sofo ou homem de ci�ncia."
Karli
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