| Marcha de Horrores Veja 09/06/1999 Arquivos de Juarez T�vora, o segundo em comando, revelam atrocidades da soldadesca da Coluna Prestes T�vora com Lu�s Carlos Prestes (indicados pelas setas) em tempos revolucion�rios Os jovens revolucion�rios reunidos na lend�ria Coluna Prestes, que durante tr�s anos percorreu 24 000 quil�metros pelo interior do pa�s, em defesa de reformas sociais e pol�ticas, eram recebidos como her�is pelas popula��es dos onze Estados por onde passaram. Pelo menos, � isso que os livros de Hist�ria ensinam h� mais de meio s�culo. At� agora, os registros hist�ricos indicavam que esse ex�rcito revolucion�rio, que entre 1924 e 1927 chegou a reunir 2 000 homens comandados pelo futuro l�der comunista Lu�s Carlos Prestes, era saudado com fogos de artif�cio e bandas de m�sica por onde passava. E recebia todo o apoio dos moradores para continuar sua marcha contra o governo do presidente Arthur Bernardes. Parte desse relato de hero�smos ter� de ser revista. Os arquivos do general e ex-ministro Juarez T�vora, o segundo homem na hierarquia da Coluna, abertos recentemente ao p�blico pelo Centro de Pesquisa e Documenta��o, Cpdoc, da Funda��o Get�lio Vargas, revelaram uma face vergonhosa de muitos dos bravos cavaleiros da Coluna. Em v�rios lugares por onde passaram, os soldados da Coluna espalharam terror entre a popula��o praticando saques e viol�ncias dignos de um bando de salteadores. Com 28.000 cartas, manuscritos, mapas e fotos, os arquivos abrangem mais de sessenta anos da vida de T�vora, que morreu em 1975, aos 77 anos. "� o conjunto de documentos que retrata o cotidiano da Coluna Prestes com maior riqueza de detalhes", afirma a antrop�loga Luciana Heymann, coordenadora do setor de documenta��o do Cpdoc. A import�ncia dos pap�is est� em seu ineditismo. � a primeira vez que documentos comprovam algo que antes havia sido atestado somente pela mem�ria oral dos habitantes das cidades percorridas pela Coluna. Os relatos das atrocidades cometidas por parte da tropa est�o em diversas cartas enviadas ao comando do movimento, sobretudo por moradores, padres e autoridades dos lugares por onde marcharam. At� mesmo integrantes do ex�rcito revolucion�rio denunciaram por escrito os abusos � incluindo-se a� estupro de "senhoras indefesas". Por meio dessas cartas descobre-se, por exemplo, que, em vez de aguardar em festa a Coluna, moradores de v�rios lugarejos fugiam apavorados com a proximidade das tropas. Uma carta enviada pelo coronel Jo�o Ayres Joca, habitante de Porto Nacional, no norte de Goi�s, aos principais homens do comando � o general Miguel Costa, Prestes e T�vora � revela o p�nico da popula��o com a chegada dos combatentes. "A delicada missiva com que nos honrastes veio aliviar a nossa cidade da natural apreens�o com a aproxima��o da Coluna", diz o militar. "N�o se p�de, por�m, impedir o esvaziamento quase completo da cidade", acrescenta. No dia 14 de outubro de 1925, uma correspond�ncia remetida ao general Miguel Costa pelo padre dominicano Jos� Maria Amorim, diretor do Convento de Santa Rosa, tamb�m de Porto Nacional, confirma a impossibilidade de evitar o �xodo dos moradores da cidade. "Apesar dos esfor�os, retira-se grande parte da popula��o", relata o padre, que em seguida faz um apelo dram�tico ao general. "Pedimos, suplicamos em nome deste povo portuense para que a passagem das tropas de vossa excel�ncia n�o venha importunar e aumentar as dificuldades com que lutam nossos sertanejos." O pedido, contudo, parece n�o ter surtido efeito. Numa nova carta, escrita ao general sete dias depois, o mesmo padre protesta. "A passagem da Coluna revolucion�ria atrav�s de nossos sert�es e por nossa cidade tem sido um lament�vel desastre que ficar� por alguns anos irrepar�vel. Em poucos dias, nosso povo, na maioria pobre, viu-se reduzido � quase completa mis�ria", denuncia. De alguma forma, o comando da Coluna admitia os excessos. Numa resposta ao padre, Prestes, Costa e T�vora tentaram justificar os abusos. "Afian�amos-lhe que s� temos retirado do patrim�nio do povo aquilo que � indispens�vel �s necessidades imprescind�veis da tropa", escreveram os chefes da Coluna. Em outra correspond�ncia, contudo, o general Costa revelava-se vexado com a viol�ncia dos soldados comandados por ele. "(...) Envergonha n�o s� a nossa causa como o Brasil. Al�m do roubo e da tentativa de inc�ndio, ficou provado o excesso nas liba��es alco�licas", narrou o general, numa correspond�ncia dirigida ao major Virg�lio dos Santos, comandante de um dos destacamentos do movimento. Mais dram�ticos ainda s�o os relatos de um certo capit�o Ant�nio Teodoro, tamb�m integrante da Coluna, ao pr�prio general Costa. Numa carta indignada, ele protesta contra as viol�ncias cometidas pelos soldados revolucion�rios, que, para ele, s�o motivo de "dolorosa decep��o". "Na retirada de Catanduvas (no Paran�), os habitantes da Vila Benjamim j� falavam contra os saques cometidos pelos soldados revolucion�rios. At� mesmo no Paraguai se pratica saque. No Mato Grosso, os saques e os inc�ndios eram freq�entes, sem motivos que os justificassem. Tropa que diz bater-se pela liberdade dum povo n�o pratica inc�ndios, saques e n�o viola senhoras indefesas, como at� aqui se tem praticado." E faz uma cr�tica direta ao comando: "Os culpados foram punidos? N�o! N�o se encontraram respons�veis. Por qu�?" Os fatos que agora v�m � tona pelos arquivos de T�vora s�o, de acordo com o historiador Edgard Carone, autor de A Rep�blica Velha II Evolu��o Pol�tica e um dos maiores especialistas no assunto, os documentos mais concretos sobre as atrocidades cometidas pela Coluna. "T�nhamos alguma desconfian�a de que foram praticados alguns atos violentos contra a popula��o", afirma Carone. "Mas essas s�o as primeiras provas de que isso realmente aconteceu." Em sua opini�o, contudo, esses epis�dios em nada diminuem a import�ncia e a bravura da Coluna Prestes. "� preciso que se entenda que muitos desses homens n�o estavam acostumados � disciplina militar, pois foram se agregando ao grupo ao longo de sua marcha", justifica. Ainda que o valor hist�rico do movimento n�o se altere, os arquivos agora revelados mostram uma nova face da Coluna Prestes. Uma face cruel e desumana. |
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