Imagens do Nascimento de uma Na��o
Veja 06/12/2000
Reunidas em livro fotos raras de paisagens e tipos humanos do Brasil do s�culo XIX

Em janeiro de 1840, apenas cinco meses depois do an�ncio de sua inven��o na Fran�a, a fotografia chegou ao Brasil. O pioneiro foi dom Pedro II, que se interessou de imediato pela nova t�cnica, adquiriu um daguerre�tipo e lan�ou-se a fazer imagens. Para promover a fotografia, o imperador patrocinou a vinda de profissionais estrangeiros e se disp�s a ser retratado diversas vezes, sozinho ou ao lado de sua fam�lia. Desse modo, deu um empurr�o e tanto para que a novidade se tornasse popular por aqui j� na d�cada de 1860. A produ��o dessa �poca acabaria cumprindo um papel que a pintura brasileira do mesmo per�odo raramente soube ter: fornecer � posteridade um magn�fico registro n�o somente das paisagens da terra, mas tamb�m dos diferentes tipos humanos que viviam nela. Nesta semana, uma obra preciosa chega �s livrarias trazendo 200 dessas imagens. � O S�culo XIX na Fotografia Brasileira (Francisco Alves; 191 p�ginas; 60 reais), organizado pelos pesquisadores Rubens Fernandes Junior e Pedro Corr�a do Lago. Este �ltimo � o maior colecionador de fotos do Brasil oitocentista e foi com base em seu acervo que se montou o livro.
 
Fotos abaixo � esquerda: Escrava retratada em 1865: sinais no rosto indicam sua tribo de origem. Outra foto de 1865: a encomenda foi de um cientista estrangeiro


O S�culo XIX na Fotografia Brasileira divide-se justamente em dois cap�tulos, retratos e paisagens. O primeiro, como n�o poderia deixar de ser, traz diversas fotos da fam�lia imperial, com especial destaque para um in�dito daguerre�tipo da imperatriz Tereza Cristina, datado de 1855, assinado pelos artistas Buvelot e Prat e delicadamente colorido a m�o. O retrato, ao que tudo indica, foi enviado de presente a algum parente europeu da imperatriz. Ele s� voltou ao Brasil recentemente, depois de ter sido comprado por Pedro Corr�a do Lago num leil�o internacional. Outro rico fil�o � composto de imagens de �ndios e negros. Suas fotografias eram muito populares entre viajantes estrangeiros, que, ao voltar para casa, gostavam de carregar registros desses "ex�ticos" habitantes do Brasil. Impressionam, por exemplo, as feitas pelo alem�o August Stahl, entre elas a de uma jovem e bela escrava negra, de turbante na cabe�a, express�o melanc�lica no rosto e face marcada por cicatrizes (n�o eram marcas de castigo, mas sinais distintivos de sua tribo de origem, na �frica). Stahl fez o trabalho a pedido do cientista su��o-americano Louis Agassiz, que visitou o Brasil na d�cada de 1860 e, em 1867, publicou um livro sobre a aventura. Ao contr�rio dos viajantes, a elite brasileira raramente cogitava de documentar seus escravos. Uma exce��o est� na maravilhosa foto reproduzida na capa do livro, na qual uma senhora aparece sentada em sua liteira, tendo a seu lado dois escravos de fraque, cartola e p�s descal�os. Na maioria das vezes, os ricos preferiam reunir a parentela em fotos posadas, nas quais emulavam a aristocracia europ�ia. O dado ir�nico � que muitas dessas imagens revelam aquilo que o preconceito a todo custo quis esconder: o car�ter miscigenado da popula��o brasileira, mesmo aquela que se encontrava no topo da pir�mide social. Basta observar atentamente um retrato como o da importante fam�lia paulista Prado, realizado em 1895 por um an�nimo, para constatar esse fato.

Por raz�es �bvias, o Rio de Janeiro, capital do pa�s, foi o maior centro da atividade fotogr�fica no Brasil. Mas havia um grande n�mero de profissionais instalados em cidades do Sul, Norte e Nordeste. � de Bel�m, por exemplo, a imagem surpreendente do vel�rio do compositor Carlos Gomes, o renomado autor da �pera O Guarani. Foi feita por Ant�nio de Oliveira, que durante muitos anos manteve na capital do Par� um est�dio cuja produ��o se caracterizou pela criatividade. Tamb�m havia aqueles que viviam se deslocando pelos quatro cantos do pa�s. Assim como os estrangeiros levavam para casa imagens de "tipos curiosos", tamb�m adoravam fotos da paisagem local. Mas seria incorreto dizer que a produ��o paisag�stica dependia desse est�mulo financeiro. Registrar imagens da natureza virgem de um pa�s como o Brasil era irresist�vel. E as fotos nas quais a mata exuberante aparece ao lado de constru��es de arquitetura europ�ia causam, ainda hoje, um not�vel efeito de estranhamento. Como observam os organizadores do livro, "a obra dos paisagistas, muito menos numerosa do que a dos retratistas, � considerada a nata da produ��o fotogr�fica no Brasil do s�culo XIX". Com sua c�mara, Marc Ferrez, o melhor fot�grafo brasileiro de seu tempo, mapeou as principais localidades da jovem na��o. Al�m do Rio, onde nasceu, esteve em Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Paran� e S�o Paulo. Desta �ltima, que no futuro seria a maior cidade do Brasil, o livro traz outros registros curiosos, como os realizados em 1862 pelo carioca Milit�o Augusto de Azevedo. S�o Paulo se revela uma cidade de casas toscas em ruelas sem cal�amento � uma desola��o s�. Em 1887, Milit�o fotografou toda a cidade novamente e publicou seu �lbum Comparativo 1862-1887, uma empreitada elogiada na �poca. Deve-se observar que, ao contr�rio de Milit�o e Ferrez, muitos fot�grafos n�o se preocuparam em registrar seu nome nos trabalhos que faziam. Algumas das melhores imagens de O S�culo XIX na Fotografia Brasileira devem-se a an�nimos que, sem se preocupar com "arte", "fama" e "autoria", legaram ao pa�s um maravilhoso painel de sua hist�ria.
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