Galileu sem Aura                                Veja 09/08/2000
Ele n�o era exatamente um her�i, nem um her�tico. � o que afirma uma autora americana

Galileu: sacrificado
pelo papa por
quest�es pol�ticas 














A vida do italiano Galileu Galilei � o cientista que foi obrigado a renegar as pr�prias id�ias diante de um Tribunal do Santo Of�cio � apaixona o Ocidente h� s�culos. Sua hist�ria foi recontada diversas vezes em forma de par�bola, para ilustrar a luta do livre pensamento contra a intoler�ncia, do indiv�duo inovador contra a institui��o fossilizada, da raz�o contra o obscurantismo. O poeta ingl�s John Milton o citou em sua Aeropag�tica (1643) como um exemplo do mal que a censura pode fazer � cultura de um povo. Trezentos anos mais tarde, o alem�o Bertolt Brecht fez do italiano protagonista de uma pe�a que conclamava os intelectuais ao engajamento pol�tico. Obras como essas ajudaram a transformar Galileu num s�mbolo. J� o outro Galileu, o de carne e osso, � bem menos conhecido. H� muitos ensaios sobre ele e poucas biografias. A Filha de Galileu, da americana Dava Sobel (tradu��o de Eduardo Brand�o; Companhia das Letras; 371 p�ginas; 31,50 reais), deixa o mito de lado para se debru�ar sobre o homem. Esta � uma das raz�es do sucesso da obra, que j� � best-seller nos Estados Unidos.

Como o t�tulo sugere, somos apresentados � intimidade de Galileu pela m�o de uma de suas filhas. O f�sico manteve um relacionamento informal de doze anos com uma veneziana, Marina da Gamba. Tiveram tr�s filhos: Virginia, Livia e Vincenzio. Galileu nunca quis se casar com Marina, provavelmente porque ela era de uma classe inferior � dele. O cientista era um patr�cio florentino. Na �poca, era comum que bastardas de bem-nascidos fossem encerradas em conventos. Galileu seguiu o costume. A mais jovem, Livia, aparentemente ficou magoada. Nem sequer tomava conhecimento do pai. A mais velha, Virginia, que adotou o nome de s�ror Maria Celeste, tornou-se, ao contr�rio, uma filha devotada. Trocou uma correspond�ncia intensa com Galileu. Das cartas que enviou ao pai, 124 chegaram at� os nossos dias. � com elas que Dava Sobel ilustra sua biografia, que tem como atrativo adicional a excelente reconstitui��o da Floren�a do s�culo XVII.

Bode expiat�rio � Pelas cartas, escritas num tom afetuoso, fica-se sabendo que o homem que enfrentou o Santo Of�cio era cat�lico praticante. Participava, inclusive, de prociss�es. S�ror Maria Celeste faz refer�ncia a esse fato, ao dizer ao pai que mobilizara todo o convento para rezar por ele durante a realiza��o do julgamento inquisit�rio, em Roma. O "caso Galileu" n�o era, assim, a luta de um c�tico contra uma religi�o dogm�tica. A pr�pria c�pula eclesi�stica estava dividida em rela��o � teoria do polon�s Nicolau Cop�rnico, segundo a qual a Terra girava em torno do Sol � piv� da querela com Galileu, que desejava prov�-la. Prudentemente, o f�sico moderou suas pesquisas sobre o assunto at� que o cardeal Maffeo Barberini fosse sagrado papa, em 1623, com o nome de Urbano VIII. Barberini era de Floren�a, como Galileu � que, apesar de ter nascido em Pisa, havia sido criado na cidade de Dante. Era tamb�m versado em ci�ncias. Isso animou o f�sico a publicar seu Di�logo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo, uma defesa do heliocentrismo copernicano. Urbano VIII, no entanto, estava desgastado com os cardeais e precisava mostrar servi�o. Elegeu Galileu como bode expiat�rio. O resultado todo mundo conhece. Diante do Santo Of�cio, o f�sico teve de abjurar suas id�ias.

Al�m de escritora, Dava Sobel � jornalista especializada em ci�ncia. Seu primeiro livro, Longitude, lan�ado em 1996, tornou-se best-seller pela maneira did�tica e empolgante com que ela narrava a saga de John Harrison, o inventor do cron�metro. Em A Filha de Galileu, Dava se vale do mesmo traquejo com assuntos cient�ficos para descrever a epop�ia intelectual do italiano. Gra�as ao uso do telesc�pio, instrumento que aperfei�oou, ele fez grandes descobertas na �rea da astronomia. Mas, ao contr�rio do que se pensa, Galileu n�o entrou para a Hist�ria apenas por avan�ar na demonstra��o das id�ias de Cop�rnico. Nesse t�pico, por sinal, seu trabalho tem falhas. Por exemplo: ele arrolara como principal prova da rota��o da Terra a exist�ncia das mar�s. Mais tarde, ficou provado que o que movimenta a �gua dos mares � a gravidade lunar. Para azar de Galileu, o conceito de gravidade ainda n�o existia naquela �poca. Sua obra-prima seria escrita nos �ltimos anos de vida, em Siena, cidade para onde foi desterrado ap�s a condena��o do Santo Of�cio. Foi nessa ocasi�o que ele colocou no papel Duas Novas Ci�ncias, em que juntava matem�tica e f�sica, tornando esta �ltima disciplina mais operacional. "Ao refutar Arist�teles com essa obra, ele se tornou o pai de toda a f�sica moderna". Quem disse isso foi Albert Einstein, no s�culo XX. � ir�nico que o veto � pesquisa sobre Cop�rnico tenha compelido Galileu a se concentrar no trabalho que realmente lhe renderia prest�gio entre os cientistas. Se n�o houvesse sido censurado, talvez n�o tivesse escrito seu tratado definitivo nem se tornado her�i da liberdade de pensamento. O Santo Of�cio, involuntariamente, garantiu a posteridade de Galileu pelas duas raz�es.
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