| A Epop�ia do Retorno Veja 07/07/1999 Romance narra a aventura de escravos que voltaram � �frica e enriqueceram no com�rcio, na constru��o e at� no tr�fico negreiro Um romance muito especial retorna �s livrarias � A Casa da �gua, do diplomata Antonio Olinto. Escrito em 1969, relan�ado h� pouco, o livro mereceu do cr�tico Wilson Martins a classifica��o de obra-prima. A Casa da �gua � uma obra feliz tamb�m por fazer hist�ria pela literatura. Apresenta, no reino da fic��o, uma epop�ia que permanece desconhecida pela maioria dos brasileiros � a aventura dos escravos que deixaram o pa�s para retornar � �frica, no s�culo passado. No romance, a trama se concentra em tr�s mulheres negras que embarcam num veleiro em Salvador para se estabelecer em Lagos, a ent�o capital da Nig�ria. Ali, constituem fam�lia, enriquecem, seus descendentes at� participam das lutas pela independ�ncia. Tudo isso aconteceu na vida real. A diferen�a � de escala. No decorrer do s�culo passado, milhares de negros brasileiros atravessaram o Atl�ntico para residir no Continente Negro. Em Lagos eles formaram um bairro, o Brazilian Quarter. Em Porto Novo, no Benin, institu�ram o Carnaval e o costume de comer bacalhau na Semana Santa, al�m de comemorar a festa do Nosso Senhor do Bonfim. Ainda foram para o Gab�o e Gana. Muitos brasileiros enriqueceram a ponto de construir as grandes fortunas de seu tempo. O comerciante Domingos Jos� Martins tornou-se um dos homens mais ricos da Nig�ria no s�culo XIX. Vivia em uma casa imensa, com quadros nas paredes, p�tio com �rvores de laranjeira e sala de visitas com caixas de m�sica, a pr�-vitrola da �poca. No Togo, que proclamou a independ�ncia em 1960, o primeiro presidente da Rep�blica, Sylvanus Olympio, era descendente em linha direta desses imigrantes. O Benin teve um ministro das Rela��es Exteriores, chamado Lu�s Inacio Pinto, que era neto de baianos. Um dos figur�es atuais desse pa�s paup�rrimo se chama Karim da Silva. Comerciante, Karim � um senhor de bengala e chapeuzinho, que cultiva modos elegantes e autom�veis de luxo, com uma frota de Rolls-Royce e Mercedes em sua garagem. Outro nome ilustre vem de uma �rvore geneal�gica fundada por um mulato que se dedicava ao tr�fico negreiro, Francisco de Souza, o "Xax�" (veja quadro). Uma primeira leva de retornados tomou o rumo da �frica depois de 1835, quando a Revolta dos Mal�s, em Salvador, produziu o temor de que no Brasil pudessse ocorrer uma rebeli�o como a dos negros no Haiti. Setecentos rebeldes foram deportados. Depois, outros negros partiram por conta pr�pria. Nenhum propriet�rio mandava escravo embora, pois era um investimento caro. Mas o cativo que conseguia a alforria, seja pela compra da liberdade, seja como recompensa ap�s d�cadas de bons e duros servi�os, era pressionado a deixar o pa�s. No mundo do s�culo XIX, em que as id�ias racistas ocupavam lugar central na organiza��o das sociedades, nenhum governo considerava conveniente manter os negros dentro de suas fronteiras com o fim do cativeiro. Os Estados Unidos estimularam o retorno dos escravos a um pa�s improvisado, a Lib�ria. No Brasil de Pedro II foram elaboradas leis que for�avam a sa�da dos negros. Os cativos podiam juntar dinheiro � mas eram proibidos de comprar bens de raiz, mesmo que fosse uma terra para trabalhar. Todo alforriado era convocado a se registrar na pol�cia, vivia sob vigil�ncia e era obrigado a pagar um imposto exorbitante, n�o cobrado dos brancos. Convencido de que o retorno seria uma solu��o razo�vel num pa�s que importava imigrantes europeus em grande escala, depois da proclama��o da Rep�blica o governo financiou a volta de milhares de negros. Boa parte dos retornados n�o era a ral� da senzala, mas uma esp�cie de elite negra, que havia aprendido um of�cio no Brasil. Artes�os que sabiam ganhar a vida, mesmo se obrigados a entregar seus rendimentos a um senhor. Chegaram � �frica como os primeiros sapateiros, ourives, mestres-de-obras e carpinteiros. Boas costureiras, as brasileiras levaram a moda europ�ia para o continente. As cozinheiras conquistaram freguesia como banqueteiras. Mas o principal papel que os ex-escravos desempenharam foi no grande com�rcio. Num artigo dedicado ao assunto, Gilberto Freyre diz que eles foram os pioneiros do capitalismo na �frica. Sua presen�a, diz o professor, "marca significativo come�o de burguesia capitalista africana em terras at� ent�o virgens de burguesismo e de capitalismo ind�gena". Uma atividade a que os negros se dedicavam sem dor na consci�ncia era o com�rcio de escravos, o que n�o espanta pelos olhares da �poca e do lugar. Grande mercadoria de exporta��o africana por tr�s s�culos, a captura e revenda de cativos em a��es de guerra produziu milion�rios sem conta, brancos e negros. Na segunda metade do s�culo XIX, quando o tr�fico negreiro come�ou a declinar no com�rcio internacional, os comerciantes brasileiros mudaram de ramo, mas seguiram enriquecendo, levando produtos brasileiros para l�, trazendo produtos africanos para c�. Volumosa, a compra e venda com o Brasil era menor que a dos ingleses, mas maior que a dos franceses e s� um pouco inferior � dos alem�es. De bolso cheio, os antigos escravos investiam at� em atividades culturais. Em Lagos formou-se uma companhia teatral chamada Brazilian Dramatic Company. Quando a not�cia do 13 de maio de 1888 chegou � �frica, os brasileiros organizaram festejos que duraram uma semana. Guardou-se uma foto da comiss�o respons�vel pelo evento. S�o elegantes homens de fraque, negro como sua pele. Os brasileiros levavam uma vantagem sobre os nativos. Eram os �nicos cidad�os ocidentalizados num continente que come�ava a ser conquistado por Inglaterra, B�lgica, Alemanha e Fran�a. Eles acabaram recrutados, em boa quantidade, para os melhores empregos na administra��o colonial e para grandes casas comerciais europ�ias. Outra diferen�a era a religi�o. Uma parcela dos que retornaram era formada por mu�ulmanos, mas a maioria chegou convertida ao catolicismo, e isso marcava. A identifica��o com essa religi�o era t�o grande que, na l�ngua ioruba, um mesmo termo, agud�, serve para designar brasileiro e cat�lico. Agora que o Brasil � uma lembran�a dos av�s que j� morreram, o sinal permanente da presen�a brasileira na �frica se encontra na arquitetura. O sobrado criado pelo colonizador portugu�s na Am�rica saiu do Brasil e foi de navio para o Continente Negro, onde ficou de p� gra�as ao talento e � compet�ncia de construtores, mestres-de-obras e pedreiros brasileiros. Esses casar�es de dois andares, de tijolo e cimento, eram novidade em um lugar onde a maioria das moradias era de barro ou de palha. Foram erguidos em toda parte. A mesma t�cnica de constru��o serviu para levantar edif�cios p�blicos, catedrais e mesquitas. Como os brasileiros se tornaram s�mbolo de gente com dinheiro e prest�gio, seus casar�es viraram sinal autom�tico de riqueza. Hoje, suas obras alimentam trabalhos acad�micos. O arquiteto brasileiro Marianno Carneiro da Cunha e sua mulher, a antrop�loga Manuela Carneiro da Cunha, escreveram Da Senzala ao Sobrado � Arquitetura Brasileira na Nig�ria e na Rep�blica Popular do Benin, obra b�sica sobre o tema. O italiano Massimo Marafatto tamb�m fez um livro, in�dito em l�ngua portuguesa, intitulado Casas Nigerianas-Brasileiras. O primeiro a estudar os afro-brasileiros foi Pierre Verger, antrop�logo franc�s que adotou o Brasil como p�tria e o candombl� como religi�o. Verger entrevistou e fotografou brasileiros na Nig�ria, ainda nos anos 40. Diplomata com posto em Lagos, al�m de escrever A Casa da �gua Antonio Olinto produziu uma obra de pesquisa hist�rica, chamada Brasileiros na �frica, em que faz um apanhado do assunto. No ano passado, o professor Victor Leonardi e o cineasta Renato Barbieri realizaram o document�rio Atl�ntico Negro na Rota dos Orix�s, estabelecendo la�os entre imigra��o e religi�o. H� trinta anos, o embaixador Alberto Costa e Silva produziu um ensaio sobre o tema, chamado V�cios da �frica. "At� hoje esse epis�dio permanece na semiclandestinidade", diz. Acompanhar a trajet�ria desses brasileiros capazes de dar a volta por cima na mais dolorosa condi��o humana, que � a escravid�o, � partilhar uma surpreendente aventura. Nenhum traficante de escravos foi t�o rico e famoso quanto Francisco F�lix de Souza, o primeiro "Xax�". Mulato, aparecido na �frica no final do s�culo XVIII, Xax� fundou uma dinastia familiar riqu�ssima, que sobrevive h� 200 anos. O atual patrim�nio da fam�lia, um dos maiores do Benin, � administrado pelo empres�rio Honor� Feliciano de Souza, o Xax� VIII. Os viajantes do s�culo passado descrevem a casa de Xax� I com "alguma coisa de pal�cio oriental" e outro tanto de "palacete de novo-rico", mas contam que ali se usavam roupas importadas da Fran�a, se ofereciam charutos de Havana e cacha�a do Brasil. Xax� I viveu cercado de belas mulheres e, em sua morte, recebeu as honrarias de praxe no continente na �poca: cinco meses de festejos f�nebres, em que foram sacrificados cinco seres humanos � um rapaz, uma mo�a e tr�s adultos. Seus sucessores deixaram lembran�as variadas. Xax� II assumiu o posto ap�s uma briga de fam�lia, mas morreu mo�o. Xax� III fez levantar uma casa onde usava cacha�a em vez de �gua na argamassa. Xax� IV aliou-se a Portugal, que tentou recuperar espa�o na �frica. J� o Xax� V teve os bens confiscados, mas seu sucessor pegou tudo de volta. |
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