Ela Tinha a For�a Veja 05/05/1999 A mulher no s�culo XIX j� trabalhava tanto quanto hoje
Na foto abaixo, uma fam�lia de 100 anos atr�s: poucos filhos sobreviviam � mortalidade infantil
Ela n�o podia estudar nem votar e, se cometesse adult�rio, a lei dava ao marido o direito de lavar a honra com sangue. Mas j� enfrentava longas jornadas de trabalho e o desafio de chefiar uma fam�lia. A mulher brasileira que viveu antes da proclama��o da Rep�blica est� sendo redescoberta gra�as a uma pesquisa do Centro de Estudos de Demografia Hist�rica da Am�rica Latina da Universidade de S�o Paulo, USP. E a pr�pria hist�ria da fam�lia brasileira est� ganhando um perfil diferente, com a descoberta de que, naquela �poca, ela era menor do que se pensava. A maior parte das fam�lias era do tipo nuclear, composta apenas do casal e de dois ou tr�s filhos. O n�mero reduzido de filhos se explica pela elevada taxa de mortalidade infantil, que chegava a atingir uma em cada tr�s crian�as antes de completar 5 anos.
O estudo mostra que a figura da dona de casa que s� sa�a para ir � missa e vivia � custa do marido era um modelo restrito �s classes mais abastadas. Em 1872, um ter�o das mulheres brasileiras trabalhava e chefiava fam�lias (veja quadro ao lado). Na falta de empregos na lavoura e no com�rcio, os homens muitas vezes tinham de procurar trabalho em outras regi�es. Ou desempenhavam tarefas que os obrigavam a ficar muitos meses longe de casa. Era o caso dos tropeiros, viajantes que conduziam tropas de animais para fazer o transporte de mercadorias entre uma regi�o e outra. Isso explica o n�mero t�o elevado de mulheres chefes de fam�lia.
A maior parte dessas mulheres ganhava seu sustento na lavoura ou em trabalhos eventuais, como costurar, bordar e vender quitutes. Ao investigar a intimidade da fam�lia, os pesquisadores tamb�m encontraram informa��es curiosas. A maioria dos casos de separa��o era pedida por iniciativa das esposas, que reclamavam de espancamento e adult�rio. Nessa �poca, a lei n�o permitia que ningu�m se casasse de novo, al�m de dar ao pai a guarda dos filhos. "Esse dado � uma surpresa", diz a historiadora Eni Samara, que coordenou o projeto. "Afinal, naquele tempo a sociedade esperava que elas tolerassem a trai��o e a viol�ncia sem reclamar."
A pesquisa da USP � uma novidade porque, at� agora, os estudos sobre fam�lia no Brasil geralmente se restringiam �s elites � incluindo os trabalhos de Gilberto Freyre. O que os pesquisadores da USP fizeram foi mergulhar num calhama�o de censos, testamentos, cartas, invent�rios e at� processos de separa��o dos s�culos XVIII e XIX, para tentar entender como viviam os 80% da popula��o pertencentes �s classes m�dia e baixa. |