Del�rio Imperial                                 Veja 30/06/1999
Reaberto ao p�blico em Roma o monumental pal�cio que custou a Nero o trono e a vida

Busto de Nero: resid�ncia
� altura da vaidade 







Tudo bem: ele mandou matar a pr�pria m�e, duas esposas, seu preceptor e at� S�o Pedro. Mas que casa construiu para seu deleite! Foi preciso uma mente delirante como a de Nero, imperador romano entre os anos 54 e 68 da era crist�, para conceber o Domus Aurea, o monumental pal�cio de 300 aposentos que lhe serviu de resid�ncia. Reaberta � visita��o p�blica na semana passada, a "casa dourada" ainda evoca a grandiosidade da obra que ganhou a aura de maldita e acabou contribuindo para a derrocada de Nero. A encrenca come�ou com o grande inc�ndio de Roma, atribu�do desde aquela �poca � cobi�a do imperador, embora muitos historiadores hoje contestem sua autoria. O fato � que o inc�ndio permitiu a Nero se apropriar de uma �rea de 1 quil�metro quadrado, no melhor ponto de Roma, para nela construir o pal�cio que estaria � altura de seus arroubos de grandeza. As paredes eram de m�rmore, recobertas de pinturas, ouro e madrep�rola. Nos jardins, fincou um imenso lago artificial, em cujas margens mulheres da aristocracia se prostitu�am, segundo os cronistas romanos, que nunca gostaram muito de Nero. Uma est�tua de 45 metros de altura representava o pr�prio imperador � nu. Ele morou pouco tempo no edif�cio. Deposto, suicidou-se aos 31 anos, com a ajuda de um escravo que lhe cortou a garganta, diante dos legion�rios encarregados de executar sua pena de morte. Seus sucessores destru�ram a obra. Vespasiano aterrou o lago e, no local, construiu o Coliseu. Trajano literalmente enterrou a resid�ncia, erguendo sobre ela um conjunto de termas, o tipo de obra p�blica que agradava ao populacho.

Parte do Domus Aurea foi reaberta depois de uma restaura��o que j� dura vinte anos e dever� consumir pelo menos mais uma d�cada. At� agora, os arque�logos conseguiram entrar em apenas metade dos c�modos soterrados, dos quais 32 foram restaurados. Entre eles est� a mais espetacular das atra��es, o sal�o octogonal, usado para banquetes suntuosos e dotado de uma abertura circular no teto por onde entra a luz natural. No centro do sal�o havia um piso rotativo, acionado por um sistema hidr�ulico. Dessa forma, o imperador podia sentar-se no centro da sala e, iluminado pelos c�us, girar lentamente para que todos os convidados apreciassem sua majestade. Atrav�s da abertura no teto, escravos lan�avam p�talas de flores e gotas de perfume. O sal�o octogonal d� acesso a outras cinco salas de recep��o, e, ao fundo delas, Nero mandou construir uma cascata monumental cujas �guas, pelo que se depreende da arquitetura, davam a impress�o de que um rio corria dentro do pal�cio. Outras duas fontes do mesmo porte serviam para refrescar os c�modos no ver�o e, principalmente, impressionar os convidados do imperador. Segundo Suet�nio, historiador da �poca, o ouro estava presente na decora��o de todos os c�modos, assim como a madrep�rola e o marfim.

Curvas generosas � Nero passou � Hist�ria como o prot�tipo do imperador cruel e depravado, uma imagem refor�ada pelo assassinato da m�e, Agripina (ela pr�pria contumaz mandante de crimes pol�ticos), e do fil�sofo S�neca, seu preceptor, al�m do mart�rio dos crist�os, incluindo S�o Pedro. Coroado imperador aos 16 anos, teve, no entanto, um bom in�cio de governo. Era popular e aclamado. Mas queria mesmo era ser reconhecido como artista � as cenas de Nero tocando lira e entoando poemas n�o s�o mito. O Domus Aurea abrigava uma cole��o extraordin�ria de obras de arte, algumas das quais sobreviveram, foram recuperadas e podem ser vistas pelos visitantes. Entre elas est�o parte dos afrescos de Fabulus, o maior pintor da �poca, que passou anos decorando as paredes do pal�cio com guirlandas, cenas campestres e mitol�gicas. Essas pinturas foram apreciadas pela primeira vez no Renascimento, quando parte do Domus Aurea foi descoberta. Na �poca, Rafael e outros mestres esgueiravam-se pelos c�modos com luz de velas, �s vezes usando cordas, como alpinistas, para ver as obras da Antiguidade, que acabaram influenciando a arte da �poca. Na fachada do edif�cio, que se estendia por quase 400 metros, havia duas enormes �reas c�ncavas que serviam como sol�rio, oferecendo prote��o contra os ventos. Calcula-se que esses locais abrigassem cerca de 400 esculturas, a maioria surrupiada por Nero na Gr�cia. Poucas resistiram ao tempo. Entre elas, h� dois exemplares not�veis: o Laoconte, que hoje repousa nos museus do Vaticano, e uma est�tua de Terps�core, musa grega da dan�a.

Terps�core, a musa grega da dan�a:
uma das 400 esculturas que enfeitavam os sol�rios 

Nero construiu o Domus Aurea em apenas quatro anos, a um custo astron�mico. O dinheiro, � claro, vinha dos impostos, que foram �s alturas para alimentar a obra. Como era de esperar, a plebe come�ou a reclamar. Foi o come�o do fim de Nero. Ele se defendia alegando que a culpa pelo inc�ndio, e pelas despesas p�blicas extras que ele acarretou, era de uma seita obscura na �poca, a dos crist�os, sacrificados aos magotes em seu anfiteatro particular. A pr�pria popula��o de Roma, a certa altura, come�ou a desaprovar a matan�a de crist�os, a elite reuniu coragem para romper o reinado de terror e, finalmente, Nero foi condenado � morte pelo Senado. O Domus Aurea foi ocupado por apenas quatro anos, mas passou � Hist�ria como uma constru��o inovadora. As curvas generosas do sal�o octogonal contrastavam com o padr�o arquitet�nico retangular que reinava em Roma na �poca, enquanto seus afrescos iriam transformar a arte renascentista. Nero podia ser louco, prepotente e assassino, mas pelo menos tinha bom gosto para decorar a casa.
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