| A Compra do Nordeste Veja 11/11/1998 Livro conta que Portugal pagou o equivalente a 63 toneladas de ouro pelo Brasil holand�s "Portugal fez uma aposta que tinha tudo para dar errado quando quis o Nordeste de volta. Mas deu certo" Todos os estudantes brasileiros aprenderam que os holandeses foram expulsos do Brasil, em 1654, numa guerra valente movida contra eles por �ndios, negros e portugueses. S� faltou explicar como essa gente armada de espingarda, espada e arco e flecha foi capaz de vencer a principal pot�ncia econ�mica e militar do s�culo XVII. Em O Neg�cio do Brasil � Portugal, os Pa�ses Baixos e o Nordeste, 1641-1669 (Topbooks; 264 p�ginas; 33 reais; que deve chegar �s livrarias nos pr�ximos dias), o historiador Evaldo Cabral de Mello conta o que aconteceu. Portugal comprou o Nordeste dos holandeses. A aventura colonial dos Pa�ses Baixos come�ou em 1630, com o desembarque de 7.000 soldados no Recife. Por duas d�cadas eles controlaram uma faixa da costa que ia do Maranh�o �s vizinhan�as de Salvador, no �nico peda�o do Brasil que tinha algo a dizer na riqueza do mundo, pois ali se plantava cana-de-a��car. Vencidos pelas tropas de Henrique Dias, Felipe Camar�o e Jo�o Fernandes Vieira, os Pa�ses Baixos assinaram a rendi��o, mas como um pacto provis�rio. Sob amea�a permanente de novos ataques, no Nordeste e tamb�m em Lisboa, Portugal atravessou quinze anos em negocia��es at� fechar neg�cio em 1669, pagando uma indeniza��o de 4 milh�es de cruzados por aquele peda�o do Brasil � um dinheiro colossal. Era o equivalente a 63 toneladas de ouro, igual a toda a receita da alf�ndega portuguesa em um ano, a� inclu�do o que se arrancava na Am�rica, na �frica e na �sia. Em moeda de hoje, seriam 650 milh�es de d�lares, mas essa compara��o � enganosa, pois a humanidade vivia numa idade econ�mica muito mais pobre e primitiva. Com dificuldades irremedi�veis de caixa, a coroa atravessou quatro d�cadas pagando presta��es anuais. A demora foi tamanha que, entre o in�cio das negocia��es e a �ltima remessa, quatro ocupantes diferentes haviam sentado no trono de Lisboa. De vez em quando Portugal amea�ava um calote, o que levou os Pa�ses Baixos a despachar a Marinha de Guerra at� a Foz do Rio Tejo. No fim, o acordo funcionou. "Portugal fez uma aposta que tinha tudo para dar errado quando quis o Nordeste de volta", explica Evaldo Cabral de Mello. "Mas deu certo, gra�as �s mudan�as ocorridas na Europa." Tesouro econ�mico, cultural e militar do s�culo XVII, os holandeses eram t�o ricos que podiam aproveitar a vida no conforto civilizado de seu pa�s, usando aquela roupa preta com colarinho branco dos quadros de Rembrandt, enquanto contratavam vizinhos pobres, escoceses, alem�es e poloneses para dar duro como mercen�rios na col�nia remota. O Brasil holand�s n�o foi obra de governo nem de conquistadores destemidos, mas uma opera��o comercial de uma empresa privada, a Companhia das �ndias Ocidentais. Os acionistas dos Pa�ses Baixos calcularam investimentos e lucros, contrataram um executivo com biografia militar e poderes absolutos para tocar o neg�cio � Maur�cio de Nassau � e foram para casa esperar pelo retorno. (No fim da aventura, o desastre foi t�o grande que a companhia faliu.) O destino do Nordeste foi resolvido por mudan�as no minueto das pot�ncias europ�ias. Os Pa�ses Baixos perderam for�a e riqueza, a Fran�a tornou-se a nova senhora do continente e a Inglaterra come�ava a se mostrar grande em todo o planeta. At� agora, nem mesmo autores estrangeiros haviam tratado da compra do Nordeste com aten��o. O estudo mais recente, uma tese do holand�s C. van de Haar, de 1961, encerra as investiga��es quando a negocia��o estava em fase de rascunho. "Sempre desconfiei que o fim do Brasil holand�s fora mais complicado do que se dizia nos livros", lembra Evaldo. "Mas precisava pesquisar para saber o que havia ocorrido." O Neg�cio do Brasil n�o � uma obra de primeira leitura, mas uma j�ia de sabedoria que exige o conhecimento dos dados b�sicos, como nomes e datas importantes, para n�o se perder o fio da meada. Al�m de narrar as negocia��es em todas as etapas, Evaldo ainda ajuda a explicar por que o Brasil se tornou o que �, com o tamanho que tem, com a cultura e o povo que possui. Como acontece com as grandes obras hist�ricas, o livro promove um retorno aos acontecimentos, num encantamento que permite ao leitor de hoje enxergar o mundo com os olhos do s�culo XVII. Ao fim de cada cap�tulo � f�cil perceber que nem de longe estava predeterminado que o Brasil iria ficar do jeito que ficou. Cada um em sua hora, portugueses e holandeses tiveram alternativas e fizeram op��es. Vendo a Hist�ria como uma obra humana, e n�o como uma sucess�o de fatalidades, econ�micas ou religiosas, Evaldo reconstr�i fatos mas n�o despreza oportunidades perdidas. Respeit�vel pelo que ensina, seu livro tamb�m comove pelo que permite imaginar. Nem dom Jo�o IV, el rei de Portugal, sabia direito o que queria fazer com o Nordeste e mudou de id�ia v�rias vezes. O plano portugu�s era levar o Nordeste pagando barato. Enquanto negociava com os Pa�ses Baixos, por baixo do pano el rei mandava homens e armas para guerrear com os holandeses. A ast�cia acabou ap�s algumas pris�es, quando a artimanha foi descoberta. Desmoralizado, el rei perdeu o controle da situa��o. Iniciada como guerrinha de mentira, a luta de Pernambuco transformou-se em conflito duro e sangrento, com derrotas pesadas dos holandeses. Temeroso de ser atacado por um inimigo infinitamente mais forte, que poderia derrub�-lo do trono portugu�s num estalar de dedos, dom Jo�o IV resolveu desistir de tudo e entregar esse peda�o do Brasil � Holanda. Em troca, ao menos salvava a coroa, garantindo a independ�ncia de Portugal, ainda que amputado da col�nia mais rica. Os holandeses adoraram a oferta. Os portugueses n�o. Fundador de um governo fraco, dom Jo�o IV n�o era um monarca com plenos poderes. Fazia tantas consultas antes de tomar decis�es que o embaixador franc�s em Lisboa, leg�timo representante do absolutismo em vigor em seu pa�s, se queixava de que "para infelicidade deste Estado, a voz do povo aqui � muito escutada". A entrega do Nordeste era apoiada por uma voz no auge de seu prest�gio, o Padre Ant�nio Vieira. Mas isso era pouco. A Inquisi��o n�o aceitava a cess�o porque implicava transferir gentios brasileiros para hereges protestantes. Os nobres n�o queriam perder a regi�o que pagava as pens�es com que eram vestidos, alimentados e aquecidos. Para os comerciantes, ali era o lugar certo para enriquecer. Desperto pela independ�ncia e pelo culto a dom Sebasti�o, que morrera na luta contra os mouros, o pov�o de Lisboa considerava a entrega um insulto. Com uma rebeli�o vitoriosa na col�nia e a metr�pole contra si, dom Jo�o IV teve de curvar-se. Tatarav� de Pedro I, que proclamou a independ�ncia do Brasil, dom Jo�o IV ficou conhecido por ter libertado Portugal ap�s sessenta anos de dom�nio espanhol. O livro tamb�m trata dessa epop�ia, delicada e incerta. Gra�as a uma revolta na regi�o da Catalunha, o pa�s escapou da espada do vizinho poderoso. Obrigada a se proteger do perigo franc�s, a leste, a Espanha ficou sem tropas para impedir o levante portugu�s, a oeste. Dom Jo�o IV era um rei que ningu�m levava a s�rio. Parecia t�o �bvio que seu pa�s seria invadido outra vez que Holanda e Espanha fizeram uma nova partilha no mapa. A Espanha retomava Portugal. A Holanda n�o s� mantinha o Nordeste mas arrematava tamb�m o resto do Brasil. Evaldo retrata dom Jo�o IV cercado por auxiliares que repetiam m�ximas do florentino Nicolau Maquiavel, como "todo o �til � honesto", e recomendavam perder "o escr�pulo disso que chamam enganar". A corte portuguesa estava sintonizada. Dizendo que a pol�tica n�o se subordina � religi�o, Maquiavel foi o grande ide�logo do s�culo XVII. Era t�o popular entre homens de governo que o Vaticano desistiu de proibir suas obras, preferindo censurar trechos que considerava her�ticos. Longe dos gabinetes, citava-se Maquiavel sem que fosse necess�rio ler um �nico livro seu. Para Evaldo, na �poca ele "impregnara a atmosfera intelectual como hoje fizeram o marxismo, a psican�lise e o estruturalismo". O Neg�cio do Brasil � uma obra que pensa, compara e explica. Com uma erudi��o que flui, sem pedantismo, Evaldo localiza fios que mostram que o Brasil holand�s foi bem mais do que um epis�dio pitoresco numa col�nia remota. Atra�dos por uma riqueza t�o procurada, o a��car, e tamb�m por um elemento que mobilizava recursos fabulosos, a posse de territ�rios, personalidades como Lu�s XIV, o Rei Sol da Fran�a, Oliver Cromwell, o Protetor da Inglaterra, e tamb�m Felipe IV, da Espanha, entram e saem da obra como entraram e sa�ram das negocia��es diplom�ticas. "Esse livro � uma pe�a rara: uma contribui��o brasileira importante para explicar a hist�ria da Europa", afirma Luiz Felipe de Alencastro, professor da Universidade Estadual de Campinas. Para ele a obra � compar�vel � antol�gica biografia de Ant�nio Vieira escrita por Jo�o Francisco Lisboa e publicada em 1891. Com seis livros publicados, Evaldo Cabral de Mello �, possivelmente, nosso maior historiador vivo e, com certeza, o mais produtivo. Embaixador aposentado, vivendo no Rio de Janeiro, ele fez de O Neg�cio do Brasil uma obra marcada pelo esfor�o de pesquisa e at� por um lance de sorte. Em 1970, num sebo de Lisboa, adquiriu uma edi��o rara com os tr�s volumes da correspond�ncia de Francisco de Sousa Coutinho, embaixador portugu�s em Haia no s�culo XVII. Convencido de que a obra poderia ser �til um dia, resolveu guard�-la por quase trinta anos. Estava cert�ssimo. Dif�ceis de encontrar hoje em dia, as cartas de Sousa Coutinho fornecem boa mat�ria-prima ao livro. Em outras buscas, Evaldo descobriu preciosidades na biblioteca do Itamaraty, no Rio. No Recife, consultou as 6.000 p�ginas da vers�o original, em holand�s, de um cartap�cio intitulado Neg�cios do Estado e da Guerra em Torno das Prov�ncias Unidas dos Pa�ses Baixos, 1621-1668. Para se proteger da poeira e do mofo, vestiu m�scara de m�dico. "Fazia pelo menos quarenta anos que ningu�m abria aquilo", conta. Apesar dos cuidados, pegou uma amigdalite. Em busca de um livro rar�ssimo, Evaldo recorreu a um filho que mora nos Estados Unidos. O exemplar acabou resgatado por uma estagi�ria do gabinete do senador Ted Kennedy. Em Lisboa, um aluno, Tiago dos Reis Miranda, foi atr�s de manuscritos, depois copiados em xerox e enviados ao Brasil. Em S�o Paulo, o pesquisador Pedro Puntoni, que fez sua tese de mestrado e de doutorado inspirada pela lavoura intelectual de Evaldo, tamb�m se mobilizou. "Ele tem obsess�o por documentos", conta Puntoni. Medalh�es do meio acad�mico utilizam estudantes n�o s� para localizar documentos, mas at� para ler a papelada e selecionar o mais interessante. Evaldo faz quest�o de examinar tudo o que encontra, folha a folha. N�o chega ao ponto de ler palavra por palavra sempre. Muitas vezes, atr�s de uma pista promissora, apenas percorre as p�ginas com o dedo indicador. Com esse cuidado, na obra-prima Olinda Restaurada conseguiu apresentar o melhor estudo j� realizado sobre as t�cnicas de guerra que os homens de Pernambuco empregaram contra os holandeses. Em A Fronda dos Mazombos, tra�ou um painel vigoroso e revelador do epis�dio, conhecido como Guerra dos Mascates. O mesmo fez agora, ao descobrir que Portugal comprou o Nordeste. "Se voc� busca originalidade no trabalho, n�o pode delegar a pesquisa", ensina. "� no contato pessoal com o documento que vem a intui��o, a id�ia." De Witt, o que pegou a verba Poucos holandeses quiseram tanto vender o Nordeste como Johan de Witt, principal pol�tico de seu pa�s na �poca. "Sem a energia e compet�ncia desse oligarca, a Hist�ria do Brasil poderia ter sido um pouco diferente", escreve Evaldo Cabral de Mello. Convencido de que o controle do com�rcio valia mais do que o dom�nio de territ�rios, De Witt derrotou os acionistas da Companhia das �ndias Ocidentais, principais advers�rios do acordo com Portugal. Numa �poca lend�ria pela corrup��o, De Witt tinha fama de manter as m�os limpas, mas Evaldo mostra ind�cios de que foi subornado pelos portugueses. "O verdadeiro mediador s�o os dez por cento", dizia um diplomata da �poca. Vieira, o que pagou o pre�o Antes do acerto definitivo, o Padre Ant�nio Vieira foi o principal defensor de um tratado em que se dividia a col�nia brasileira e se entregava o Nordeste aos holandeses. Se a discuss�o era militar, Vieira lembrava que Portugal s� podia desejar paz diante de um inimigo mais poderoso. Quando se falava de economia, argumentava que o Nordeste custava, em despesas de guerra, dez vezes mais do que pagava em impostos. Apoiado nesses argumentos, Vieira foi colher votos no Conselho de Estado, sem sucesso. Enquanto el rei dom Jo�o IV mudava de lado, ele pagou o pre�o de sua opini�o. Malvisto pela Inquisi��o, caiu em desgra�a e se viu for�ado a mudar para o Brasil. |
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