| Canudos de Volta Veja 22/09/1999 Com a seca, o arraial do Conselheiro ressurge do fundo do a�ude onde repousava Canudos insiste. O arraial de Ant�nio Conselheiro j� foi destru�do uma vez, ao fim da guerra de 102 anos atr�s. Foi destru�do uma segunda vez h� trinta anos, quando da inaugura��o do a�ude de Cocorob�, um dos maiores do Nordeste, cujas �guas, entre outras por��es da vasta bacia entre montanhas em que consiste a regi�o, engoliram o s�tio onde estava erigido. E, no entanto, eis que ressurge. Com as secas que se repetem, nos �ltimos anos, o a�ude chegou ao n�vel mais baixo de sua hist�ria. De sua capacidade de 245 milh�es de metros c�bicos de �gua, restam 10 milh�es � menos de 5%. A �rea onde ficava Canudos secou ompletamente. As ru�nas do arraial, palco de um dos epis�dios mais delirantes e tr�gicos da Hist�ria do Brasil, voltaram � tona. N�o � muito o que sobrou da Canudos do Conselheiro: duas igrejas, um cruzeiro. Ou melhor, as ru�nas das ru�nas de duas igrejas e, em melhor estado, o cruzeiro. N�o � muito em termos materiais, mas � muito em peso hist�rico. As duas igrejas, mais o cruzeiro, constitu�am o que era chamado de a "pra�a" de Canudos � n�o s� o lugar onde o povo se reunia para rezar e ouvir as pr�dicas do amado e santo l�der, mas tamb�m o cen�rio dos lances mais dram�ticos da guerra. A pra�a era na verdade quase tudo. O resto do arraial, tirante algumas poucas casas mais bem constru�das, limitava-se a uma sucess�o de barracos, mais prec�rios que os de uma favela de hoje. Canudos, para usar a express�o de Euclides da Cunha, em Os Sert�es, era "a Tr�ia de taipa". Durante vinte dias, at� o �ltimo dia 11, uma equipe de arque�logos esteve trabalhando nas ru�nas. A seca, a que geralmente se associam a pen�ria e o sofrimento do Nordeste, pelo menos algo de bom trouxe, desta vez, ao fazer ressurgir o arraial. Era preciso aproveitar a oportunidade, e r�pido, antes que voltasse a chover. Os arque�logos, al�m de desencavar ossadas, cartuchos de balas e estilha�os de granada, fizeram o que chamam de "evidenciar" as ru�nas dos tr�s monumentos da pra�a, qual seja: tirar o lodo que os recobria, livr�-los tanto quanto poss�vel do entulho e escavar ao redor deles, de modo a delimit�-los e faz�-los ressaltar do solo. O resultado � um conjunto que chega a ser emocionante. "� a Teotihuacan sertaneja", diz o arque�logo Paulo Zanettini, um dos coordenadores � a outra � a professora Erika Robrham-Gonz�lez, ambos de S�o Paulo � da equipe que pesquisou o local. O paralelo com as ru�nas do M�xico se justifica pela ordem geom�trica em que as duas igrejas se disp�em, uma de face para a outra, a amplid�o da pra�a entre elas, longa, de 100 metros, contados entre uma fachada e outra, e pelo car�ter sagrado de que um dia o local se revestiu. Se n�o temos no Brasil templos nem pir�mides como os dos astecas, temos um arraial com um passado de f� e morte, esperan�a e terror, que ressurge das �guas. 25 igrejas � O munic�pio que hoje tem o nome de Canudos fica a 10 quil�metros de dist�ncia. � o local para onde foram transferidas as popula��es das �reas inundadas pelo a�ude. Na Canudos velha, a que agora emergiu das �guas, ambas as igrejas foram constru�das por Ant�nio Conselheiro. Ele era obcecado pela constru��o, ou reparo, de igrejas e cemit�rios. O pai era pedreiro e Ant�nio Vicente Mendes Maciel � este seu nome civil � possu�a no��es de constru��o. Tamb�m contava com mestres-de-obras para ajud�-lo nesse mister. No come�o da carreira de pregador e guia espiritual, ele estabeleceu como meta construir 25 igrejas no sert�o. Construiu talvez nem tantas, mas muitas, algumas das quais subsistem, como as dos munic�pios de Cris�polis e Chorroch�, ambos na Bahia. Antes de se fixar em Canudos, sua vida era perambular pelo sert�o. Nunca ficava muito tempo num lugar. Ia pelas estradas, o cajado na m�o, seguido por um s�quito crescente de fi�is. Oferecia-se para fazer uma igreja aqui, um cemit�rio ali. Entre os fi�is, n�o faltavam volunt�rios para carregar pedras e erguer paredes. A primeira das duas igrejas de Canudos foi iniciada numa dessas passagens do Conselheiro. Ele ainda n�o se decidira a ficar por l�. � a igreja de Santo Ant�nio, tamb�m conhecida como igreja velha. Em frente a ela, como � costume no interior, edificou-se um cruzeiro � um pedestal encimado por uma cruz. Nesse pedestal, conservado quase intato, havia uma placa onde se lia: "Edificada em 1893. A.M.M.C". Por "A.M.M.C.", entenda-se: "Ant�nio Mendes Maciel Conselheiro". Tanto essa placa como a cruz de madeira que encimava o pedestal ainda existem. Foram tiradas do local �s v�speras da inunda��o e hoje est�o guardadas num memorial da guerra na Canudos nova. Nesse mesmo ano de 1893 em que a igreja de Santo Ant�nio ficou pronta, Ant�nio Conselheiro, depois de pelo menos vinte anos de peregrina��es, resolveu fixar-se, com seus seguidores, em Canudos. Sua fama crescia. Os adeptos se multiplicavam e aflu�am para o arraial. Logo a igreja ficou pequena, e ele come�ou a constru��o de outra. Surgia ent�o a igreja dita "nova", a do Bom Jesus, que na realidade jamais seria terminada, mas que, como a outra, teria um papel importante na guerra. Sem cabe�a � Nas igrejas, concentrou-se a resist�ncia dos conselheiristas, em particular nos �ltimos dias de combate. Os canh�es do governo bombardeavam seguidamente suas torres. Em contrapartida, encarapitada nelas, a jagun�ada respondia com o que ainda lhe restava de fogo. Quando enfim despencou o campan�rio da igreja velha, veio junto, "revoluteando, estridulamente badalando, como se ainda vibrasse um alarma" � nas palavras de Euclides da Cunha � "o velho sino que chamava ao descer das tardes os combatentes para as rezas". Extinto o �ltimo foco de resist�ncia do arraial, as igrejas apresentavam-se furadas de balas e canhona�os e com raras paredes de p�. N�o contentes, os militares ainda assim as dinamitaram, para que n�o sobrasse resqu�cio f�sico do arraial, n�o sobrasse pedra que pudesse virar centro de peregrina��o. E no entanto... No entanto, eis o fortim dos irredentos do sert�o, o ponto de reuni�o de jagun�os e beatos, de volta. As pesquisas arqueol�gicas das �ltimas semanas inclu�am, entre seus objetivos, achar o local onde est� enterrado o Conselheiro. Ele morreu, de morte natural, treze dias antes do fim da guerra, e foi enterrado pr�ximo ao altar existente no "santu�rio", como era chamada a casinha onde morava. Onde ficava o "santu�rio"? Segundo alguns, junto � igreja nova. Segundo outros, junto � velha. Ainda n�o foi desta vez que foi encontrado, mas o historiador Renato Ferraz, um especialista na Guerra de Canudos, que serviu de consultor hist�rico para os arque�logos, garante: "N�s ainda vamos achar. Se tivermos outras oportunidades, n�o h� d�vida de que vamos achar". O problema � que a verba de 66.000 reais do governo da Bahia s� deu para uma pesquisa sum�ria, de n�o mais que vinte dias de dura��o. Ao cabo deles, os trabalhos tiveram de ser interrompidos. N�o ser� dif�cil encontrar os restos do Conselheiro, em primeiro lugar, porque a �rea a ser pesquisada � restrita. Em segundo, porque uma t�trica particularidade ajudar� a identific�-los: a falta da cabe�a. Quando o Ex�rcito entrou em Canudos, desenterrou o cad�ver e decepou-o. A cabe�a foi em seguida levada em peregrina��o, para exemplo das gentes, como se faria anos depois com Lampi�o, e enfim guardada em Salvador, no Museu Nina Rodrigues. Em 1905 ocorreu um inc�ndio no museu, e a tenebrosa rel�quia foi devorada pelas chamas. As pesquisas das �ltimas semanas se estenderam tamb�m ao chamado "Vale da Morte", local onde, sobre os morros � portanto, fora da �rea alagada pelo a�ude �, o Ex�rcito enterrava seus mortos. O melhor achado foi um esqueleto inteirinho, de um soldado sepultado na posi��o em que provavelmente morreu, o rosto voltado para o ch�o, os bra�os dobrados. A arque�loga Erika Robrham-Gonz�lez, comandante da equipe que vasculhou o Vale da Morte, desmontou em seguida o esqueleto e o levou para exames no Museu de Arqueologia da Universidade de S�o Paulo. E agora, que ser� da Canudos emersa das �guas? Come�ando a chover, voltar� para o fundo do a�ude. Ser� uma pena, mas, mesmo que fosse tecnicamente poss�vel manter seco o local, a �gua � mais importante, para os sertanejos, do que uma rel�quia hist�rica. H� outra hip�tese, pior: a dilapida��o da pra�a do arraial por parte de turistas e aproveitadores que, antes que voltem as �guas, se lancem a uma corrida por suvenires. N�o � de hoje que funciona, na regi�o, uma pequena ind�stria de lembran�as da guerra. E para proteger as ru�nas da pra�a, depois que os arque�logos foram embora, ficou apenas um guarda, um �nico, solit�rio e mal equipado guarda. "Tenho medo do vandalismo", diz Luiz Paulo Neiva, diretor do Centro de Estudos Euclides da Cunha da Universidade Estadual da Bahia, organismo que tem a seu cargo a gest�o do chamado Parque Estadual de Canudos, criado para resguardar os s�tios da guerra. Foi Neiva quem contratou os arque�logos e quem tem a responsabilidade �ltima pelo projeto. Para a arque�loga Erika Robrham-Gonz�lez, caso n�o se crie uma estrutura para proteger o local, o melhor � que o a�ude volte logo a encher. "Pelo menos, as �guas s�o uma prote��o." Ao arque�logo Paulo Zanettini ocorreu uma aposta: pedir o tombamento do local ao Patrim�nio Hist�rico. O caminho � incerto. Sabe-se l� se � poss�vel tombar algo que est� no fundo de uma represa, sabe-se l�, sendo poss�vel, que efeito pr�tico resultaria disso, mas, enfim, algo poderia acontecer. Sen�o, resta confiar na fibra de um arraial que j� foi bombardeado, depois afogado e no entanto insiste em ressurgir, e ressuscitar, e sobreviver. A base do cruzeiro e mais ao fundo as ru�nas da igreja velha. � esquerda, uma foto hist�rica, tirada do mesmo �ngulo, mostra o local logo ao fim da guerra |
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