Cabral, um Esquecido                          Veja 21/04/1999
Quando se iniciam as comemora��es dos 500 anos do Descobrimento � preciso redescobrir o descobridor

O marido de Isabel
Na l�pide do t�mulo, Cabral foi s� marido da camareira-mor da infanta dona Maria. O epit�fio menciona apenas os predicados de Isabel:
"Aqui jaz Pedro �lvares Cabral e Dona Isabel de Castro, sua mulher, cuja � esta capela e de todos os seus herdeiros, a qual, depois da morte de seu marido foi camareira-mor da Infanta Dona Maria, filha del-rei Dom Jo�o (...)"

Cabral tem muitas faces, mas por muito tempo foi um desconhecido. N�o teve seu hero�smo cantado nem por Cam�es nem por Fernando Pessoa, grandes poetas da l�ngua portuguesa, que homenagearam os navegadores

Quem foi Pedro �lvares Cabral? Pergunte-se a qualquer escolar e a resposta vir� na ponta da l�ngua: o descobridor do Brasil. E s�. Nos livros de hist�ria, o navegador portugu�s n�o costuma ganhar mais do que poucas linhas. N�o mereceu, tampouco, ter seu nome inclu�do na mais fant�stica celebra��o das conquistas mar�timas portuguesas, Os Lus�adas, de Lu�s de Cam�es. Enquanto as grandes navega��es do final do s�culo XV e in�cio do XVI transformaram Vasco da Gama, Bartolomeu Dias e Fern�o de Magalh�es em her�is, Cabral morreu no ostracismo. Quase 500 anos depois de realizar seu maior feito, aos olhos do mundo o navegador continua um ilustre desconhecido. Ele empreendeu uma das mais importantes navega��es portuguesas, voltou a Lisboa festejado pelo rei e subitamente desapareceu das cr�nicas, morrendo por volta de 1520, quase no anonimato, numa casa modesta em Santar�m, ao norte de Lisboa. Na l�pide tumular, nenhuma refer�ncia a qualquer de seus feitos. A um ano do quinto centen�rio do descobrimento do Brasil � as comemora��es ser�o abertas no pr�ximo dia 22 �, ainda vale a pergunta: quem foi mesmo Pedro �lvares Cabral?

O jornalista ga�cho Walter Galvani se prepara para dar, enfim, contornos mais definidos ao perfil do navegador. Depois de cinco anos de pesquisa, lidos mais de 300 livros relacionados ao Descobrimento, ele finaliza a primeira biografia do descobridor. Foram seis meses em Portugal, conhecendo os lugares por onde Cabral passou e vasculhando velhos arquivos, como o da Torre do Tombo e o Ultramarino, os dois em Lisboa. Galvani tamb�m percorreu Espanha, It�lia e Fran�a, conferindo documentos desgarrados. Com lan�amento pela editora Record previsto para o segundo semestre deste ano, o trabalho revela um Cabral de carne e osso, muito mais admir�vel e interessante do que se imaginava.

Mau humor � Durante s�culos cultivou-se a id�ia de Cabral como um personagem menor na hist�ria das navega��es. Como compar�-lo ao grande Crist�v�o Colombo, ou aos her�is lusitanos? Talvez a proverbial baixa estima brasileira tenha ajudado a pregar na biografia do descobridor a pecha de burocrata bajulador, um sujeitinho que comandou a maior frota portuguesa de seu tempo sem sequer ser um navegador de verdade, apenas gra�as � proximidade do rei dom Manuel e demais poderosos da corte. Agora se descobre que os maiores inimigos da biografia de Cabral foram ele mesmo e uma sorte madrasta.

Dono de um car�ter irasc�vel, famoso por suas crises de mau humor (alguns estudiosos creditam-nas �s febres intermitentes, provocadas pela mal�ria contra�da ainda aos 17 anos, quando lutava no Marrocos), Cabral desentendeu-se com todo mundo que importava em seu tempo. A come�ar pelo pr�prio rei, passando por aquele que se acredita ter sido o maior de todos os navegadores portugueses, Vasco da Gama. No quesito "sorte madrasta" entra a verdadeira trag�dia em que se converteu sua viagem � �ndia, a mesma em que o Brasil foi descoberto. O navegador partiu de Lisboa com destino � �ndia com treze navios e retornou com apenas seis (veja mapa). Os azares renderam m� fama a Cabral. O resultado: logo depois de voltar de sua viagem, o navegador brig�o e desafortunado partiu para um ex�lio volunt�rio em Santar�m e caiu no esquecimento. Para piorar, as novas terras que ele batizara como Ilha de Vera Cruz n�o teriam serventia para Portugal durante v�rias d�cadas.

"Os portugueses tinham mais interesse na �sia do que na Am�rica", afirma o historiador Jos� Jobson de Andrade Arruda, da Universidade de S�o Paulo. E a� vem, de novo, o fado cabralino: quem encontrou o caminho mar�timo para a �ndia, de onde provinham as especiarias que rendiam lucros � coroa, foi Vasco da Gama, justamente o maior advers�rio do nosso descobridor.

Criados juntos na cosmopolita corte lisboeta de ent�o, Cabral e Gama tiveram forma��o muito parecida. Ambos estavam animados pelo forte esp�rito portugu�s que se sucedeu a cinco s�culos de dom�nio mu�ulmano do pa�s. "Era natural que os dois disputassem o comando das grandes armadas", conta Galvani. Em uma minuta de 1499, que preparava a expedi��o que viria a descobrir o Brasil, consta o nome do comandante-mor da frota: Vasco da Gama. Vasco da Gama? Mais tarde, esse nome seria riscado e substitu�do pelo de Cabral, naquele tempo conhecido como Pedro �lvares Gouveia. Apenas ao primog�nito de cada fam�lia era dada a honra de usar o sobrenome paterno e Pedro �lvares era o segundo filho. Foi s� na carta que dom Manuel escreveu aos reis da Espanha, em 1501, que o sobrenome "Cabral" foi associado ao descobridor do Brasil.

Desgra�a � O auto-ex�lio de Cabral em Santar�m, logo ap�s realizar sua maior fa�anha, possivelmente foi produto da antiga rivalidade com Vasco da Gama. Enquanto o navegador ainda percorria �guas indianas, depois de descobrir o Brasil, a corte lisboeta j� organizava uma nova frota a ser comandada por Cabral. Com catorze navios, seria ainda maior do que a enviada para confirmar a exist�ncia das terras brasileiras. Mas Vasco da Gama ficou encarregado de organizar a empreitada, desta vez destinada apenas � �ndia. Gama selecionou os marinheiros e escolheu os capit�es de sua confian�a. Ainda por cima, nomeou o irm�o de sua m�e, Vicente Sodr�, para comandar cinco dos navios da expedi��o. Sodr� vigiaria a entrada do Mar Vermelho e o Golfo P�rsico, vias de acesso dos �rabes ao Oriente. Enquanto isso, os outros nove navios, sob o comando de Cabral, seriam abastecidos com especiarias. Mas Cabral n�o aceitou dividir o comando da nova expedi��o com o tio de Vasco da Gama. Passados quatro meses de impasse, em dezembro de 1501 a recusa oficial foi encaminhada. Nesse momento, Cabral ca�a em desgra�a.

A explica��o para a atitude suicida pode estar no relato de um dos maiores cronistas quinhentistas portugueses, Jo�o de Barros, para quem o descobridor do Brasil era homem de "muitos primores de honra". O significado mais forte da palavra "honra" estava associado � id�ia de um sentimento de dignidade com brios. Cabral tinha motivos para n�o aceitar dividir o comando da expedi��o. N�o foram pequenos os servi�os prestados por ele a Portugal. Sua expedi��o de 1500 foi a primeira de car�ter comercial a chegar � �ndia. Vasco da Gama chegou antes, levou a fama, mas conseguiu apenas se indispor com o governante de Calicute, a mesma cidade que Cabral canhoneou quando esteve por l�. S� quando Cabral estabeleceu a feitoria em Cochin, no sul da �ndia, � que a rota se tornou lucrativa.

Tais fa�anhas, no entanto, n�o comoveram o rei. Cabral mudou-se para Santar�m no final de 1502 e n�o recebeu mais not�cias da corte. No ano seguinte, compareceu a uma reuni�o da Ordem de Cristo, a organiza��o religioso-militar que financiava as grandes navega��es. H� quem aponte o fato como uma tentativa de reaproxima��o, j� que dom Manuel presidia o encontro. N�o surtiu efeito. Anos mais tarde, Cabral escreveu ao rei pedindo a "renova��o dos privil�gios de fidalgo" � em outras palavras, desejava abandonar o ex�lio volunt�rio e servir a Portugal novamente. Recebeu uma resposta encorajadora, em que o monarca dizia que a carta do navegador "lhe fez prazer". Mas nada aconteceu.

O rei brioso � Em 1514, Afonso de Albuquerque, governador da �ndia e tio de Isabel de Castro, mulher de Cabral, escreveu ao rei pedindo que ele pusesse fim ao afastamento do navegador. Teceu grandes elogios ao descobridor, a quem chamou de "mui bom fidalgo", "merecedor de honras", e referiu-se a "sua bondade e cavalaria". Apesar das recomenda��es de um dos homens mais importantes do imp�rio portugu�s, Cabral morreria dali a alguns anos sem voltar ao mar.

N�o se sabe exatamente o que fez dom Manuel abandonar um de seus mais importantes navegadores, a quem havia recebido com festejos no retorno da expedi��o de 1500. "Talvez o rei fosse t�o brioso quanto o pr�prio Cabral e nunca tenha aceitado a recusa do navegador em participar da nova expedi��o � �ndia", acredita Galvani. A hip�tese de que Cabral n�o passava de um nobre de poucos talentos � refutada pelos fatos. O descobridor foi apontado para comandar aquela que, at� 1500, foi a maior armada j� sa�da de Portugal. A frota que Vasco da Gama comandou at� a �ndia, entre 1497 e 1499, n�o tinha mais que quatro navios. Dificilmente se colocaria tamanho aparato sob as ordens de algu�m que n�o fosse extremamente respeitado, inclusive como navegador � embora n�o existam provas de viagens mar�timas suas anteriores ao descobrimento do Brasil. "N�o se colocaria a vida de 1.500 homens nas m�os de algu�m sem experi�ncia", acredita Galvani.

Sem t�tulo nobili�rquico, a fam�lia de Cabral tinha terras, o que significava riqueza suficiente para freq�entar a corte. Aos 10 anos, Cabral e o irm�o mais velho mudaram-se para Lisboa. L�, aprendeu a manejar armas e a montar. Estudou geometria, astronomia, geografia, aritm�tica e latim. Passou a adolesc�ncia e o in�cio da vida adulta no Castelo de S�o Jorge, aquele de onde os turistas t�m uma ampla vis�o de Lisboa. Isso fez com que Cabral se inscrevesse no c�rculo �ntimo do rei, o que certamente colaborou para sua indica��o como comandante da expedi��o � �ndia. Nada, por�m, comprova que tenham sido essas credenciais as �nicas respons�veis por sua escolha para o comando da grande armada. Os Cabral estavam muito longe em prest�gio e fama, por exemplo, dos nobil�ssimos Bragan�a, que chegariam ao trono portugu�s mais tarde.

Foi na corte que Cabral conheceu Isabel de Castro � ela, sim, pertencente a uma das fam�lias mais importantes de Portugal. O casamento n�o pode ser considerado um golpe do ba�, embora fosse movido por interesses, como era comum naquele tempo. "Pelo contr�rio. H� registros de que o pr�prio Afonso de Albuquerque, tio de Isabel, se teria preocupado em aumentar o dote da sobrinha, o que tornaria o casamento ainda mais interessante para Cabral", conta Galvani. "� uma evid�ncia de que ele era um fidalgo respeit�vel." A data prov�vel do matrim�nio � 1503. A vida do casal em Santar�m limitou-se aos cuidados com as propriedades, o tempo dividido entre a casa na cidade e as quintas. Tiveram seis filhos. Cabral morreu possivelmente em 1520, aos 52 anos, talvez em conseq��ncia da mal�ria contra�da na �frica, sem que tenha realizado coisa alguma digna de registro nas �ltimas duas d�cadas de vida. Enquanto isso, seu rival Vasco da Gama recebia o t�tulo de "dom" e era consagrado "almirante".

O descanso e o esquecimento de Cabral duraram quase tr�s s�culos e meio, quando historiadores brasileiros e portugueses come�am a estudar o descobrimento. Seu t�mulo, na Igreja da Gra�a, em Santar�m, foi reaberto. Buscava-se confirmar se o corpo dele estava de fato enterrado ali. Era o in�cio de uma viagem que parece estar finalmente chegando ao fim: o descobrimento de Pedro �lvares Cabral. Faltar� apenas Cam�es para cantar-lhe as gl�rias, como fez com � sempre ele � Vasco da Gama.
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