Afundar � Preciso
Veja 15/07/1998
Cl�ssico portugu�s relata grandes naufr�gios e mostra lado tr�gico dos descobrimentos

Na foto abaixo, desenho portugu�s do s�culo XVI: a gan�ncia como o motor da Hist�ria

Reunidos em livro entre os anos de 1735 e 1736, e postos "aos reais p�s" da majestade de Portugal pelo historiador Bernardo Gomes de Brito, os doze relatos de naufr�gios ou "perdi��es de naus" que comp�em a Hist�ria Tr�gico-Mar�tima (Lacerda Editores/Contraponto; 543 p�ginas; 40 reais) s�o um documento inestim�vel sobre os grandes descobrimentos, cujos 500 anos est�o sendo comemorados. Editada cuidadosamente, com apresenta��o da escritora Ana Miranda e introdu��o e notas do poeta e cr�tico Alexei Bueno, essa obra famosa ganha sua primeira vers�o comercial no Brasil, para revelar um lado pouco conhecido da hist�ria das navega��es. N�o aquele dos grandes feitos e conquistas, marcados por nomes como os de Vasco da Gama ou Pedro �lvares Cabral, mas o dos protagonistas an�nimos, que se perderam em desventuras mar�timas.

A princ�pio, o estilo rebuscado e os termos navais podem parecer um empecilho � leitura. Mas, uma vez que nos acostumamos com eles, Hist�ria Tr�gico-Mar�tima pode quase ser lido como um romance de aventuras. H� descri��es espetaculares de afundamentos, como esta, retirada da Rela��o do Naufr�gio da Nau S�o Tom�: "Toda essa noite passaram com grandes trabalhos e desconsola��es, porque tudo quanto viam lhes representava a morte, porque, por baixo, viram a nau cheia de �gua, por cima, o c�u conjurado contra todos, porque at� ele se lhe encobriu com a maior cerra��o e escuridade que se viu. O ar assobiava de todas as partes, que parecia lhes estava bradando morte, morte, e n�o bastando a �gua que por baixo lhes entrava, e de cima que o c�u lan�ava sobre eles, parecia que os queria alagar com outro dil�vio". Tempestades e ondas, por�m, podiam ser males menores. A sobreviv�ncia em costas hostis, as intermin�veis negocia��es e lutas com na��es de "cafres" (negros da regi�o hoje ocupada pela �frica do Sul) e "ar�bios", as disputas com holandeses e piratas, a morte causada por fome, frio, tigres, pulgas, corredeiras e azares de toda esp�cie determinaram o pre�o que a aventura da navega��o at� as �ndias, no s�culo XVI, imp�s aos portugueses.

Cobi�a e tormentas � Homens como Fern�o Dias e Pedro �lvares Cabral comandaram um gigantesco empreendimento que, em meio s�culo, muitas vezes cegou o bom senso e a compet�ncia navegadora de Portugal. A den�ncia moral da gan�ncia humana � um dos temas centrais do livro. Assim, Diogo do Couto, guarda-mor da Torre do Tombo e narrador do j� mencionado naufr�gio da nau S�o Tom�, critica o p�ssimo estado de conserva��o da frota portuguesa dizendo que "todas estas naus andam a Deus miseric�rdia, por pouparem quatro cruzados". E Jo�o Baptista Lavanha, cosm�grafo-mor de sua majestade, ao contar sobre o afundamento da nau Santo Alberto, diz que ele n�o se deveu �s tormentas do Cabo da Boa Esperan�a, mas � "cobi�a dos contratadores e navegantes", que sobrecarregaram aquele navio e "outros muitos que no fundo do mar h�o sepultado".

Os relatos de Hist�ria Tr�gico-Mar�tima nasceram, sem exce��o, das impress�es de sobreviventes dos naufr�gios narrados no livro. Oferecem um retrato bastante concreto daquilo que foram as navega��es, incluindo, como j� se disse, personagens an�nimos como padres, pajens, escravos e algumas mulheres que se aventuraram nas embarca��es, como a esposa do capit�o Manuel de Sousa Sep�lveda, morta na costa africana depois de muitos sofrimentos e de ter suas roupas roubadas pelos guerreiros cafres. No conjunto, a Hist�ria Tr�gico-Mar�tima acaba sendo um maravilhoso contraponto �s gl�rias narradas em �picos como Os Lus�adas, ainda que a coragem e o hero�smo de que falou Lu�s de Cam�es n�o estejam, de forma alguma, ausentes de suas p�ginas.
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