| Vasco da Gama A tiros, Vasco da Gama abriu a rota das �ndias h� 500 anos No dia 8 de julho de 1497, uma pequena frota de tr�s caravelas e uma nau de suprimentos deixou o porto de Lisboa para uma viagem memor�vel. O que o genov�s Crist�v�o Colombo tinha feito velejando para o oeste, cinco anos antes, para descobrir a Am�rica, o navegante portugu�s Vasco da Gama estava prestes a repetir no Oriente, tra�ando pela primeira vez o caminho mar�timo para as �ndias. Essas duas viagens formid�veis derrubaram as fronteiras do conhecimento, fundiram para sempre civiliza��es e assentaram as rotas comerciais e culturais sobre as quais se ergueu o mundo moderno. Vasco da Gama tamb�m abriu as portas do Oriente para as naus lusitanas e permitiu que Portugal vivesse seu s�culo de gl�ria, em que descobriu o Brasil e foi senhor absoluto do com�rcio com a �ndia, o Jap�o e a China. N�o � por outra raz�o que o maior poeta da l�ngua portuguesa, Lu�s de Cam�es, encantado com a vis�o das velas desfraldadas com a cruz de Malta, comp�s Os Lus�adas como uma ode a Vasco da Gama, o argonauta do mito portugu�s de que "navegar � preciso". Ao deslizar para fora da barra do Rio Tejo, na nau capit�nia S�o Gabriel, uma caravela de 90 toneladas, Vasco da Gama n�o era nem sombra do her�i nacional em que se transformaria ainda em vida. Na partida, era um obscuro fidalgo de Sines, no Alentejo, ligado a um grupo de cortes�os em baixa na corte de dom Manuel. Ele foi escolhido para a viagem �s �ndias sobretudo porque seus inimigos n�o acreditavam no sucesso da expedi��o. Preferiram deixar o fracasso por conta de um desafeto. Vasco da Gama andava na casa dos 30 anos (a data exata de seu nascimento � desconhecida), e a imagem que se tem dele, feita com base em pinturas e relatos de �poca, n�o o favorece em nada. Era um homem de pernas muito curtas, barba preta, nariz longo e l�bios apertados. "A express�o de seu rosto", diz o historiador indiano Sanjay Subrahmanyan, professor da Escola de Altos Estudos de Paris e autor da mais completa biografia de Vasco da Gama, "era a de um ser mal�fico e determinado." Mergulho no desconhecido -- Era mesmo um sujeito cruel, n�o muito inteligente, como a hist�ria de sua viagem ir� mostrar. Apesar de tudo isso, o navegante demonstrou fibra para cumprir a miss�o, um verdadeiro mergulho no desconhecido. Na �poca, o desenvolvimento da navega��o lusitana j� era not�vel. A rota at� o Cabo da Boa Esperan�a, no extremo sul da �frica, tinha sido tra�ada por Bartolomeu Dias em 1487. Mesmo assim, o outro lado do mundo era um mist�rio para os portugueses. Durante uma d�cada, a corte em Lisboa hesitou entre seguir o caminho aberto por Dias e tentar a sorte no Ocidente, onde a Espanha tinha descoberto a Am�rica. A expedi��o de Vasco da Gama marca uma reviravolta na pol�tica mar�tima portuguesa e foi planejada e montada como um projeto de Estado. O piloto da S�o Gabriel era o mesmo P�ro de Alenquer que contornara a �frica com Bartolomeu Dias e o escriv�o, Diogo Dias, era irm�o do navegador. Outra caravela, a S�o Rafael, era comandada pelo irm�o mais velho de Vasco, Paulo da Gama. Completava a frota a Berrio, cujo capit�o, Nicolau Coelho, viria ao Brasil tr�s anos mais tarde com Pedro �lvares Cabral. A aventura de Vasco da Gama contada no di�rio de �lvaro Velho e nos desenhos de um livro do s�culo XVI: her�i de Os Lus�adas, o navegante portugu�s ficou rico saqueando navios no �ndico A expedi��o de Vasco da Gama reunia o melhor que Portugal podia oferecer em tecnologia n�utica. Dispunha das mais avan�adas cartas de navega��o e levava pilotos experientes. Os navios eram leves e r�pidos. Faltavam-lhe, � claro, conhecimentos m�nimos de higiene e medicina, de que os povos daquele per�odo ainda n�o tinham not�cia. O conv�s das caravelas, n�o mais amplo que uma quadra de t�nis, logo estaria coalhado de doentes e mortos. As tripula��es eram dizimadas pelo escorbuto, provocado por defici�ncia de vitamina C. Dos mais de 150 homens que deixaram Lisboa, s� voltaram 55. Por falta de marinheiros, Vasco da Gama foi for�ado a abandonar a S�o Rafael e queim�-la na costa da �frica. A frota levava tamb�m um capel�o, dois int�rpretes (um que falava �rabe e outro que conhecia dialetos africanos) e cinco degredados para ser abandonados � pr�pria sorte num canto qualquer. Selvageria e aventura -- Repleta de perip�cias e epis�dios de selvageria e aventura, a viagem de Vasco da Gama foi o marco decisivo numa �poca em que o mundo estava redesenhando suas rotas de com�rcio. Durante os s�culos que antecederam as viagens mar�timas portuguesas, a Europa era regularmente abastecida de pimenta, cravo, canela e gengibre -- as chamadas especiarias -- pelos comerciantes genoveses. Num tempo em que n�o havia geladeira nem t�cnicas mais elaboradas de conserva��o de alimentos, os temperos serviam principalmente para disfar�ar o sabor meio passado dos alimentos, sobretudo os que eram guardados por mais tempo para consumo no inverno. Os genoveses traziam esses produtos da �ndia atrav�s de rotas terrestres pelo Oriente M�dio e depois distribu�am a mercadoria pela costa do Mediterr�neo. Com a tomada de Constantinopla, em 1453, pelos turcos otomanos, tudo isso mudou. As especiarias continuaram a chegar pela rota tradicional, mas em quantidades cada vez mais reduzidas e a pre�o de ouro. Coube aos portugueses encontrar uma nova rota de com�rcio por duas raz�es: eles tinham a tecnologia e a voca��o natural para isso. Estavam situados numa posi��o estrat�gica, a meio caminho entre o norte da Europa e o Mediterr�neo, e tinham criado uma importante academia de navega��o, a Escola de Sagres. Al�m disso, sem popula��o nem recursos que lhe permitissem colonizar terras distantes, como fez a Espanha, restava a Portugal o descobrimento de rotas e o estabelecimento de entrepostos comerciais na �frica e na �sia. "Apesar do Brasil, o imp�rio portugu�s jamais foi territorial. Foi um imp�rio mar�timo, apoiado em uns poucos pontos costeiros", diz o professor Ant�nio Hespanha, presidente da Comiss�o Nacional para a Comemora��o dos Descobrimentos Portugueses, em Lisboa. "Quando Vasco da Gama chega �s �ndias, � como se Portugal tivesse encontrado sua voca��o." Os portugueses abriram o caminho das �ndias apoiados na diplomacia do canh�o. O relato mais atento da viagem de Vasco da Gama � o di�rio de bordo escrito por �lvaro Velho, s� descoberto pelo escritor portugu�s Alexandre Herculano em 1834. Tripulante do S�o Rafael, Velho deixa claro que nos planos do navegador n�o constava estabelecer rela��es amig�veis com os povos visitados. Ao contr�rio, ele nunca hesitou em canhonear os portos de que se aproximava ao menor motivo. "A abordagem comercial dos portugueses era realmente agressiva", afirma a historiadora Janice Teodoro da Silva, da Universidade de S�o Paulo. "N�o se pode esquecer que muitos tripulantes tinham lutado nas Cruzadas e se julgavam no direito de impor sua vontade a tiro sobre os hereges." Observando-se hoje a rota percorrida por Vasco da Gama, percebe-se que a frota portuguesa fez um desvio inexplic�vel no Oceano Atl�ntico, quase tocando a ent�o desconhecida costa brasileira -- mais tarde, Cabral faria exatamente o mesmo caminho, avan�ando at� encontrar terra. Depois de passar o Cabo da Boa Esperan�a, desmontaram a nau de mantimento e guardaram o madeirame nos por�es dos outros navios. O primeiro contato com a civiliza��o oriental foi no porto de Mo�ambique, ent�o um importante centro comercial dominado por mercadores �rabes. Decep��es -- Quatro naus estavam atracadas no porto, com pe�as de ouro e prata a bordo. Os rica�os do lugar, anotou o cronista de bordo, vestiam roupas coloridas de algod�o e linho, com turbantes de seda. Vasco da Gama bombardeou o porto at� obrigar o sult�o a fornecer-lhe �gua pot�vel e dois pilotos para gui�-los pela costa. N�o satisfeito, saqueou dois navios cheios de mercadorias. A pr�xima parada foi a ilha de Zanzibar. O piloto confundiu o lugar com o continente e Vasco da Gama mandou chicote�-lo. Por isso, durante muito tempo, Zanzibar foi chamada pelos portugueses de "Ilha do A�oitado". Em Melinde, na costa do atual Qu�nia, o navegador trocou um ref�m nobre por um piloto �rabe, Malemo Canaqua, que conduziria a frota em seguran�a a Calicute -- enfim, as �ndias. Os tr�s meses em que Vasco da Gama ficou na regi�o de Calicute foram uma sucess�o de mal-entendidos, decep��es e escaramu�as. "Vasco da Gama, na verdade, n�o tinha uma id�ia muito exata de com�rcio e de jogo pol�tico, nem era um grande diplomata", disse o professor Hespanha. O primeiro contato, feito por um degredado que Gama despachou para terra, pareceu promissor. Ele encontrou dois tunisianos que falavam castelhano e genov�s, e que festejaram a chegada dos portugueses com gritos de "Buena fortuna, buena fortuna". Da� para a frente foi um desastre. Os portugueses faziam uma divis�o simpl�ria do mundo entre crist�os, do lado do bem, e os "hereges", os mu�ulmanos. Imaginavam que a �ndia fosse povoada por crist�os de rito oriental. Numa visita aos templos hindu�stas de Calicute, Gama surpreendeu-se com as imagens dos deuses de v�rios bra�os. "Onde est�o nossos santos?", perguntou espantado. Acompanhado de onze fidalgos e de um int�rprete, Vasco da Gama entregou ao rei de Calicute uma carta do rei dom Manuel. Recostado num div� de veludo verde, o rei ouviu o relato de que a coroa portuguesa era a "mais poderosa" da Europa e uma das mais ricas em ouro. Tudo ia muito bem at� que a comitiva portuguesa resolveu mostrar os presentes que havia trazido. O rei ficou chocado com a pobreza da oferenda: uma d�zia de casacos, seis chap�us, seis bacias, um pacote de a��car e dois barris de manteiga, ran�osa depois de tanto tempo no mar. "Se o senhor veio de um reino t�o rico, por que n�o trouxe nada?", perguntou ele, cheio de espanto. Vasco da Gama provavelmente n�o entendeu que as expectativas daquela corte eram muito mais altas do que ele poderia preencher com seus presentes lusitanos. O navegador ficou "melanc�lico", nota �lvaro Velho em sua cr�nica, mas por pouco tempo -- bem cedo percebeu que poderia saquear as embarca��es que cruzavam o �ndico e se abastecer das mercadorias necess�rias para comerciar na regi�o. Caravela fretada -- Durante a viagem de volta a Portugal, Vasco da Gama fez uma escala na ilha de Cabo Verde, na �frica, para cuidar do irm�o doente, que morreu logo depois. Ao chegar a Lisboa, no dia 8 de setembro de 1499, numa caravela fretada em Cabo Verde, foi recebido como her�i nacional. Ganhou o t�tulo de almirante, propriedades e uma pens�o generosa. Tr�s anos mais tarde voltou � �ndia com uma esquadra de vinte navios, estabeleceu feitorias e enriqueceu pilhando mercadores �rabes e indianos que encontrou pelo caminho. N�o est� registrado nos livros did�ticos que ensinam a hist�ria das grandes navega��es �s crian�as, mas Vasco da Gama tratou seus prisioneiros com uma crueldade enorme, enviando cestos com suas cabe�as decepadas �s fam�lias desses homens, nas cidades costeiras. Num epis�dio marcado por um barbarismo dif�cil de entender nos dias de hoje, Vasco da Gama queimou um navio apinhado de peregrinos mu�ulmanos no Oceano �ndico. Morreram 240 homens, al�m de mulheres e crian�as. Vasco da Gama morreu em Cochin, na �ndia, em 1524, perto dos 60 anos. Agora, 500 anos decorridos de sua primeira viagem �s �ndias, Portugal prepara grandes homenagens para seu navegante mais importante. Os festejos, que come�am agora, devem culminar com a Exposi��o Universal em Lisboa no pr�ximo ano. Mas, na costa de Malabar, onde os portugueses mantiveram at� 1961 o enclave de Goa, h� protestos contra o projeto das festas. Em Goa, foi formado um comit� para for�ar o governo a trocar o nome do porto, hoje chamado de Vasco da Gama, e em Calicute um grupo de professores organizou um ano inteiro de protestos. "� uma vergonha homenagear a chegada do homem que come�ou a era colonial em nosso pa�s", diz Nagesh Karmali, porta-voz do grupo. � um exagero hist�rico. Os ingleses s� conquistaram a �ndia dois s�culos depois e Portugal nada teve a ver com isso. � compreens�vel, contudo, que Calicute tenha m�s lembran�as. Depois de descobrir o Brasil, a frota de Cabral seguiu o caminho de Vasco da Gama e bombardeou a cidade, matando mais de 400 de seus habitantes. |
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