Rota de Passagem Veja 07/04/1999 Historiadores restauram sinagoga dos judeus recifenses que ajudaram a fundar Nova York Durante s�culos, ningu�m deu aten��o ao casar�o n�mero 197 da Rua do Bom Jesus, no bairro do Recife Antigo. At� o ano passado, ele abrigava uma loja de materiais el�tricos. Nem mesmo a revitaliza��o do bairro, iniciada em 1994, atraiu para o pr�dio alguma aten��o. S� agora, com sua desapropria��o aprovada e o lan�amento, h� duas semanas, do projeto que o transformar� no Centro de Documenta��o e Pesquisas da Hist�ria Judaica, o casar�o ter� o reconhecimento que merece. No s�culo XVII, ele abrigou a primeira sinagoga erguida nas Am�ricas. O in�cio da restaura��o promete devolver ao pr�dio muito mais do que seus encantos arquitet�nicos. Criado para saldar uma d�vida secular, o novo centro da hist�ria judaica pretende reunir toda a documenta��o existente sobre a saga dos judeus em Pernambuco durante o per�odo colonial.
O trabalho de coleta e compila��o de material sobre a �poca come�ou h� quatro anos, sob a coordena��o da historiadora Maria do Amparo Ferraz. Centenas de livros, mais de 50 000 folhas de papel, al�m de slides, v�deos e c�pias de acervos iconogr�ficos e mapogr�ficos, que se encontravam espalhados nas mais diversas partes do mundo, j� foram reunidos. A id�ia � expor todo o material de maneira did�tica na antiga sinagoga e explicar aos pernambucanos o passado da comunidade judaica e seu papel na forma��o da cidade do Recife. O Centro vai mostrar, por exemplo, que v�rios h�bitos tradicionais cultivados at� hoje pelos recifenses, como pintar as casas no final de ano, arrum�-las �s sextas-feiras, comprar mercadorias � porta de casa e em presta��es, s�o heran�as deixadas pelos judeus.
A primeira ponte � As primeiras fam�lias judaicas chegaram a Pernambuco por volta de 1635. Perseguidas na Pen�nsula Ib�rica pela Inquisi��o cat�lica, vieram seduzidas pela liberdade religiosa que os holandeses come�avam a instalar nas terras rec�m-tomadas de Portugal (veja quadro). "A presen�a dos holandeses em Pernambuco foi respons�vel pela forma��o da primeira comunidade judaica das tr�s Am�ricas", explica o jornalista e historiador pernambucano Leonardo Dantas Silva, editor de um dos poucos livros brasileiros sobre o assunto. Com cerca de 10.000 habitantes, � �poca, Pernambuco era a mais rica capitania brasileira. Atra�dos tamb�m pela prosperidade, navios fretados por judeus chegavam ao porto nordestino quase que mensalmente. A maior parte deles vivia em estado de pen�ria na Holanda, principal ref�gio contra a intoler�ncia cat�lica.
Nos tr�picos, a receptividade abriu portas. Logo tomaram conta do com�rcio, principalmente o de a��car e tabaco. Os mais abastados constru�am casas na Rua do Bom Jesus, onde tamb�m foi erguida a sinagoga. Aos poucos a comunidade de cerca de 1 200 pessoas foi se organizando, com cemit�rio e escolas pr�prias. Sob o governo do conde Maur�cio de Nassau, a partir de 1637, o poder dos judeus cresceu. Quarenta por cento das exporta��es de a��car para a Holanda e a Alemanha eram feitas por eles. A participa��o no tra�ado da cidade tamb�m � relevante. Em menos de vinte anos � a perman�ncia dos judeus em Pernambuco durou o mesmo tempo da ocupa��o holandesa � eles constru�ram mais de 300 casas e sobrados. A primeira ponte do Recife, a Buarque de Macedo, foi encomendada por Nassau a um judeu, Baltazar da Fonseca.
Todos esses detalhes da intricada rela��o entre os judeus pioneiros e a cidade do Recife, at� hoje espalhados em livros, mapas e fotos dispersos, o Centro de Documenta��o e Pesquisas da Hist�ria Judaica vai reunir no casar�o da Rua do Bom Jesus. Os visitantes v�o ficar sabendo que a primeira manifesta��o liter�ria em hebraico do Novo Mundo foi redigida em territ�rio pernambucano. Trata-se de tr�s ora��es escritas pelo rabino Isaac Aboab da Fonseca, que relatavam o sofrimento e as prova��es passadas pelo povo judeu. Isaac da Fonseca foi o primeiro rabino das Am�ricas.
Acaso � A segunda parte do trabalho do centro mostra o seguimento da rota dos judeus. Com a expuls�o dos holandeses, em janeiro de 1654, a persegui��o religiosa voltou a incomod�-los. Apesar da fortuna e da posi��o social que ocupavam na sociedade pernambucana, os judeus n�o foram poupados pela intoler�ncia dos portugueses e, tr�s meses ap�s a sa�da dos holandeses, abandonaram o Brasil. O objetivo era retornar � Holanda, mas o acaso fez com que alguns deles fossem mudar a Hist�ria � como j� haviam feito no Recife �. de outro canto do mundo. Cerca de 150 fam�lias partiram em dire��o a Amsterd�. Durante o percurso, nos mares do Caribe, uma das embarca��es, o navio Valk, que transportava 23 judeus, foi interceptada por piratas espanh�is e aprisionada na Jamaica. Mais tarde, o grupo foi libertado pela tripula��o do navio franc�s Sainte Catherine, que seguia para a Am�rica do Norte.
Foi dessa forma, por puro acaso, que em setembro de 1654 judeus sa�dos do Recife aportaram em Nova Amsterd�. Fundaram a primeira comunidade judaica norte-americana onde � hoje a cidade de Nova York. Atualmente o maior centro financeiro do mundo, Nova Amsterd� n�o passava de um vilarejo, com pouco mais de 1.500 habitantes. Como no Recife, os judeus ajudaram a montar a cidade e sua economia. "Apesar de tanta import�ncia hist�rica, boa parte da trajet�ria desse povo permanece desconhecida", afirma a historiadora pernambucana T�nia Kaufman, autora da tese "Passos perdidos, hist�ria recuperada", sobre a presen�a judaica em Pernambuco. � essa hist�ria que o casar�o amarelo pretende resgatar e contar. |