| O Ba� de Sua Majestade Veja 25/03/1998 Os tesouros dos arquivos da fam�lia Orleans e Bragan�a Filha do pioneiro da fotografia no Brasil, a princesa Isabel posa (veja foto abaixo) durante o ex�lio na Fran�a com o conde d'Eu e os netos: fam�lia imperial teve longa intimidade com as c�meras e legou aos descendentes uma cole��o de 5.000 imagens Cinco meses depois de debutar na sociedade parisiense, a fotografia chegou ao Brasil em janeiro de 1840. Veio na bagagem de Louis Compte, capel�o da corveta L'Orientale, que no dia 17, das janelas do hotel Pharoux, assestou a m�quina na paisagem do Rio de Janeiro. Era "a primeira vez que a nova maravilha se apresentava aos olhos dos brasileiros". O Jornal do Commercio cobriu o acontecimento com fanfarra: "� preciso ter visto com seus pr�prios olhos para se poder fazer id�ia da rapidez e do resultado da opera��o. Em menos de nove minutos, o chafariz do Largo do Pa�o, a Pra�a do Peixe, o Mosteiro de S�o Bento e todos os outros objetos circundantes se acharam reproduzidos com tal fidelidade, precis�o e minuciosidade, que bem se via que a cousa tinha sido feita pela pr�pria m�o da natureza". Parte daquele cen�rio carioca n�o existe mais, a come�ar pelo hotel Pharoux. Mas as tr�s imagens que inauguraram a fotografia no Brasil, esmaecidas na chapa met�lica dos originais de Compte, est�o guardadas em Petr�polis, ainda nas molduras em que foram apresentadas ao p�blico em 1976, numa exposi��o em Nova York. Pertencem �s paredes do Pal�cio Gr�o-Par�, onde h� mais de setenta anos os descendentes de dom Pedro II velam os restos da monarquia que se conservaram em fam�lia. Segundo o historiador Gilberto Ferrez, o �ltimo imperador foi o primeiro fot�grafo brasileiro. Com seu apetite gen�rico pelas inven��es revolucion�rias do s�culo XIX, n�o esperou que a m�quina fotogr�fica estivesse � venda na Rua do Ouvidor, n�mero 90. Em mar�o de 1840, comprou por 250000 r�is um aparelho. Na �poca, isso implicava lidar com o daguerre�tipo, uma t�cnica complicada e esquiva. Mas o monarca domesticou-a. H� um retrato seu, de 1855, em que ele anotou, com caligrafia inconfund�vel: "Tirada por mim mesmo". Com a ades�o imediata de Pedro II, cerca de 1.200 fotografias do s�culo passado integram a cole��o particular de seu bisneto Pedro Gast�o de Orleans e Bragan�a, em Petr�polis. H� cenas dos filhos da princesa Isabel brincando nos jardins do pal�cio, em carros puxados por carneiros e em triciclos. Retratos da imperatriz Teresa Cristina de frente, de perfil e at� de costas. Uma s�rie de instant�neos de Marc Ferrez sobre as festas populares da Aboli��o. Elas comp�em, junto com outras 4.000 fotografias que avan�am sobre o cotidiano da fam�lia imperial at� a d�cada de 1950 e mais 55.000 documentos e 400 gravuras, o Arquivo Gr�o-Par�, que a fam�lia acumulou durante cinco s�culos e agora quer organizar para abrir ao p�blico. Antes disso, o tesouro continuar� enterrado nos arm�rios de um pal�cio onde residem tr�s gera��es de Orleans e Bragan�a. At� hoje s� foi manuseado por raros pesquisadores e � desnorteante mesmo para especialistas. "Cada vez que entro aqui n�o consigo mais sair", diz a arquivista Maria de F�tima Moraes Argon, que h� dezoito anos lida com material semelhante no Museu Imperial de Petr�polis. Ela integra a equipe que come�a a mapear o conte�do do arquivo, atrav�s de um labirinto em que os fios da Hist�ria do Brasil se enroscam na vida �ntima de figuras p�blicas. Nele se pode trope�ar de repente com uma carta em que a condessa de Barral, tratando a princesa Isabel de "querida querid�ssima", ensina-lhe em 22 de fevereiro de 1888, tr�s meses antes da Aboli��o, que "� tolice gastar dinheiro para a liberta��o dos escravos". Baiana culta, Luiza Margarida Portugal de Barros, a condessa era dama de honra da imperatriz Teresa Cristina, preceptora das princesas imperiais e amante de Pedro II, como em versos revelou, durante o Segundo Reinado, um furioso pasquim de "moraliza��o social" chamado Cors�rio: "N�o � por certo/ Boa moral/ Trair a esposa/ com a Barral". Entre os guardados, misturam-se leques pintados a m�o, mapas antigos, um manual da metralhadora Nordenfeldt, x�caras com as bandeiras do Brasil e do Chile, pintadas especialmente para servir o cafezinho no Baile da Ilha Fiscal, e amostras de madeiras do Brasil oferecidas a Pedro II em 1867. Ou ainda os planos de constru��o da ferrovia Central do Brasil, cadernos de estudo das princesas Isabel e Leopoldina no ver�o de 1862, um programa de f�rias com aulas de ingl�s, franc�s e alem�o e o projeto de um tel�grafo solar dedicado ao imperador em 1853 por um certo Rodoroicz-Osroiecinsky. H� rel�quias bibliogr�ficas, como um manuscrito de 1514, registrando sob iluminuras a organiza��o burocr�tica da cidade de Lagos, na costa africana dominada pelos portugueses. Um original de 1619, drama de Lope de Vega, Las Haza�as del Segundo David, encadernado em pergaminho. E ainda um Moderno Systema para Solfejar sem Confus�o, escrito em 1776 por Luiz �lvares Pinto, um m�sico do Recife. Outro c�dice cont�m os quatro tomos do Registro Secreto de los Neg�cios da rainha Carlota Joaquina de Bourbon, mulher de dom Jo�o VI, durante a invas�o da Espanha por Napole�o � "tirano da humanidade e usurpador do mundo". Data de 1808. Rede on-line � H� um �lbum de aquarelas em que o m�dico Herman Rudolf Wendroth documentou uma viagem ao Rio Grande do Sul em 1852 e um levantamento dos rios do Amazonas feito no s�culo XVIII pelo militar Jos� Monteiro de Noronha. Para n�o falar nos "literatos e artistas" brasileiros que, em 1907, escreveram de pr�prio punho textos in�ditos dedicados a dona Am�lia de Portugal, organizando sob o patroc�nio do Jockey Club Fluminense uma homenagem � monarquia sob uma rep�blica ainda adolescente. Entre os intelectuais "ansiosos pelo dia feliz em que veriam aportar �s plagas de Santa Cruz Suas Majestades Fidel�ssimas", v�-se a letra de Machado de Assis, Olavo Bilac e Jo�o do Rio. S� a correspond�ncia com as cortes europ�ias, quase todas ligadas aos Orleans e Bragan�a pelos intricados la�os de parentesco que no s�culo XIX ainda faziam da realeza uma precursora da rede virtual on-line, ocupa a bagatela de oito gavetas. Isso inclui Francisco Jos� I, imperador da �ustria, Francisco II, rei de N�poles, Leopoldo I, da B�lgica, V�tor Emanuel, da It�lia, Nicolau I, da R�ssia, e a rainha Vit�ria, da Inglaterra. De quebra, abastecido por troca de cartas, depositou-se no arquivo uma imponente cole��o de aut�grafos, timbres e selos. Pelos envelopes, verifica-se que no fim do s�culo passado o correio era capaz de entregar no mesmo dia as cartas trocadas entre pal�cios de Petr�polis e do Rio de Janeiro. Mais tarde, na rep�blica, a distra��o de um funcion�rio criou uma excentricidade postal, grudando num mesmo sobrescrito, lado a lado, um selo do imp�rio e outro republicano. At� filme o arquivo tem, rodado pessoalmente por seu patrono onom�stico, Pedro de Alc�ntara, pr�ncipe do Gr�o-Par�. Derrubado o imp�rio, ele saiu do Brasil ainda menino e s� reviu o pa�s aos 50 anos. No Brasil, fora preparado para o trono. Na Europa, renunciou � sucess�o hipot�tica para se casar com Elizabeth Dobrezenski, uma condessa checa. No ex�lio, aprendeu marcenaria. Fez mesas que ainda mobiliam o pal�cio. Era oficial do Ex�rcito austr�aco. Atravessou a �frica a p�, de Mo�ambique a Angola, ca�ando durante o percurso de dois anos. Com esse curr�culo, na volta ao Brasil estava pronto para tomar posse do que o pa�s ainda tinha a lhe oferecer. Fez grandes andan�as nos anos 30, por um sert�o ainda quase sem estradas. Numa delas, levando dois filhos, dom Pedro Gast�o e dona Francisca, gastou sete meses numa expedi��o de Petr�polis a Bel�m, cruzando Goi�s e Mato Grosso em caminh�o, canoa e lombo de burro. Naufragou no Rio Tocantins. E visitou tribos caraj�s, bororos e xavantes que h� muito tempo j� sumiram ou se recolheram a reservas. Fez um document�rio que, fora as sess�es dom�sticas para distrair as crian�as da fam�lia, nunca foi editado ou exibido. At� que esteja classificado para ser franqueado ao p�blico, o Arquivo Gr�o-Par� � uma preciosa barafunda. Sua pr�pria confus�o � um suvenir. Recorda os intricados caminhos que o levaram a Petr�polis, desde que a fam�lia imperial, com a proclama��o da rep�blica, teve dois dias para sair do pa�s. Embarcou para a Europa sem a papelada, que fora confiscada pelo novo regime. Ali�s, foi "com a roupa do corpo", como contou 86 anos depois, numa confer�ncia para o Instituto Hist�rico e Geogr�fico do Rio de Janeiro, o pr�ncipe dom Pedro Gast�o, bisneto de Pedro II: "N�o houve a preocupa��o de levar pratarias, m�veis bonitos nem j�ias. Por�m, as coisas mais preciosas, que tanto o imperador quanto os condes d'Eu fizeram quest�o de ter junto a eles, eram seus arquivos. Devo dizer que era mania, tanto dos Orleans, quanto dos Bragan�a, guardar todos os pap�is". Segundo ele, isso os poupou do descaso republicano por velharias: "Posso afirmar que grande parte do que ficou no Brasil desapareceu." Na rep�blica, o governo provis�rio de Deodoro da Fonseca encarregou uma comiss�o de fazer a triagem dos documentos deixados no pa�o, separando o que seria propriedade do Estado. Um irm�o do presidente, Jo�o Severiano da Fonseca, serviu de �rbitro e em menos de dois anos os objetos pessoais foram oficialmente devolvidos ao imperador deposto. Na pressa, cometeram-se descuidos. Foram esquecidos os anais da mordomia palaciana, por exemplo. S�o anota��es meticulosas dos gastos e compras no pa�o, em que � poss�vel verificar at� o que se servia diariamente � mesa do imperador. Escaparam tamb�m os livros que, em julho de 1889, recolheram assinaturas de desagravo a Pedro II, quando ele sofreu um atentado � sa�da do Teatro Santana, no Rio de Janeiro. Entre os nomes da lista, l�-se o do general Benjamin Constant, que em poucos meses teria a paternidade ideol�gica da rep�blica. Na foto abaixo: nos jardins do pal�cio imperial, em Petr�polis, os netos de Pedro II vivem os �ltimos dias da monarquia. Atr�s do carro, o primog�nito dom Pedro de Alc�ntara. Dom Luiz, fundador da dissid�ncia familiar que hoje disputa a continua��o da dinastia, aparece montado no carneiro. Dom Antonio, o ca�ula, est� na bol�ia. A foto � de 1889 Logo depois da devolu��o, Pedro II doou nacos de seus arquivos � Biblioteca Nacional, ao Minist�rio da Fazenda e ao Jardim Bot�nico. O resto foi encontrar a fam�lia exilada na Fran�a, numa viagem narrada por dom Pedro Gast�o em tons quase �picos: "E como foi acondicionado esse arquivo? Em quarenta grandes latas de folha-de-flandres, das quais tenho ainda algumas em casa. Papai at� me explicava que no Brasil essas latas tinham servido para levar a comida da cozinha para a sala de jantar, visto que, tanto na Quinta da Boa Vista, como no atual Museu Imperial, como na casa de meus av�s em Petr�polis, as cozinhas n�o estavam no corpo das casas, para evitar o cheiro de comida e fugir do perigo de inc�ndio, costume que constatei em muitas fazendas antigas". Na Fran�a, levadas para o Castelo d'Eu, uma resid�ncia com 100 metros de fachada que a fam�lia comprou na Normandia, essas latas passaram quase meio s�culo. Primeiro, aos cuidados do conde d'Eu, marido da princesa Isabel, como contou dom Pedro Gast�o. "Lembro-me bem, crian�a ainda, de acompanhar meu av� para lev�-las de uma sala para outra, a fim de proteg�-las da umidade. Ele s� se preocupava com a conserva��o material dos pap�is." Morto o conde d'Eu, o filho mais velho assumiu o arquivo. Tratava-se do pr�ncipe do Gr�o-Par�, o herdeiro do trono banido do Brasil aos 14 anos. Lembra dom Pedro Gast�o: "Quando papai herdou aquele amontoado de documentos, resolveu classific�-los. N�s mesmos, crian�as, auxili�vamos nosso pai. Ele tinha mandado instalar nas imensas galerias de d'Eu mesas comprid�ssimas, onde t�nhamos de levar os ma�os de um lugar para o outro". Pantufas � O mutir�o dos pr�ncipes durou seis anos. Foi esse trabalho que deu origem � segunda partilha do arquivo, depois da II Guerra Mundial. Em 1920, o governo Epit�cio Pessoa revogara o decreto de banimento e os Orleans e Bragan�a sobreviventes puderam voltar ao Brasil, quando Pedro II e a princesa Isabel haviam morrido na Fran�a. Dela, ficou no arquivo uma carta, datada de 26 de novembro de 1889, quando estava a caminho do ex�lio. � endere�ada ao general Guilherme Carlos Lassance, uma esp�cie de procurador que os Orleans e Bragan�a deixaram na retaguarda. � curiosa do come�o ao fim. Nas primeiras linhas, recomenda: "Pe�o-lhe que mande arranjar as diferentes salas do pal�cio como se achavam antes que as dispusessem para a soir�e dos chilenos". Ou seja, do festival de recep��es que culminou no baile da Ilha Fiscal. D� ordens para a arruma��o de cada c�modo, como se fosse passar fora uma pequena temporada. E termina: "Que Deus nos proteja a todos. Sr. Lassance, o meu maior desejo � de me achar novamente no Brasil com qualquer governo que seja, uma vez que n�o envergonhe meu pa�s". S� no fim da d�cada de 40 os descendentes de Pedro II mandaram buscar a papelada no Castelo D'Eu. Curiosamente, depois da rep�blica, a fam�lia rachou na disputa de um trono que n�o estava mais ao alcance de seus direitos din�sticos. Mas nunca disputou o arquivo. "Na Fran�a, a maioria chamava tudo aquilo de vieux papiers", diz o engenheiro Pedro Carlos de Orleans e Bragan�a, tetraneto do imperador. Aqui, dois ter�os da cole��o foram doados em 1948 ao Museu Imperial de Petr�polis, que ent�o nascia no antigo pal�cio de ver�o constru�do por Pedro II. L�, em salas que a cada ano ficam na mem�ria de 200.000 visitantes, principalmente pela obriga��o de percorr�-las de pantufas, al�m de m�veis, j�ias e quadros, h� mais de 100.000 documentos sobre a monarquia. Os 55.000 que faltam est�o do outro lado da pra�a, no Quartel dos Seman�rios, antigo alojamento dos camaristas do imperador promovido pela volta da fam�lia ao Pal�cio Gr�o-Par�. Mendigos na soleira � Esse pal�cio � uma constru��o tombada, de 1861, que em v�rias encarna��es pleb�ias foi sede do Tribunal de Justi�a e col�gio. Numa terra onde a classe m�dia se entrincheira em guaritas e grades, a resid�ncia dos Orleans e Bragan�a em Petr�polis, onde um pr�ncipe j� foi seq�estrado, tem portas e janelas abertas para a cal�ada. De dia, para entrar, � preciso pedir licen�a. H� sempre gente sentada no �nico degrau de cantaria. De noite, dormem mendigos na soleira emoldurada por grafite. N�o parece a entrada de um lugar onde se espera visitar pr�ncipes nem documentos imperiais. E quando o arquivo estiver funcionando seu andar t�rreo ser� aberto ao p�blico. Isso se o projeto passar pelo Minist�rio da Cultura, tornando-se qualificado para receber doa��es de empresas privadas por meio da lei do mecenato. H� muitos pap�is com problemas de conserva��o, fotografias soltas em pastas sem identifica��o e textos espalhados por arm�rios sem �ndices que permitam localiz�-los. H� mais de 60.000 itens a cadastrar com t�tulo, data, refer�ncias para �ndice onom�stico e descri��o do conte�do. Manuscritos raros ter�o de ser microfilmados e talvez postos na Internet para o manuseio virtual. Os textos dos documentos ser�o reproduzidos em CD-ROM. Enfim, o pr�prio pal�cio exige uma reforma, para criar ambientes com ilumina��o, temperatura e umidade adequadas. Uma grade passar� a separ�-lo da rua. Atualmente, para ver os c�dices, por exemplo, passa-se diante dos quartos dos moradores no segundo piso. "Quando come�amos a pensar no arquivo, nem pens�vamos que fotografias, leques, missais e amostras de madeira fizessem parte dele", diz o pr�ncipe Pedro Carlos. Botar o arquivo em ordem � uma empreitada principesca, or�ada em 4 milh�es de reais. Toda a arruma��o levar� no m�nimo quatro anos. |
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