Um Espi�o Brasileiro Brasileiro fuzilado por espionagem em Londres na I Guerra
A exposi��o Imagens da Torre, lembran�a dos tempos l�gubres em que a imponente Torre de Londres, hoje uma concorrid�ssima atra��o tur�stica, servia de pris�o e local de execu��es, est� para ganhar um pacote de documentos novos. Em meio a uma montanha de refer�ncias � hist�ria dos reis e rainhas da Inglaterra, esse lote tem uma estranha rela��o com o Brasil: s�o pap�is pessoais de Fernando Buschman, brasileiro de origem alem� que foi executado na torre durante a I Guerra Mundial, aos 25 anos, por praticar espionagem em favor da Alemanha. Passados mais de oitenta anos, os documentos de Buschman foram leiloados duas semanas atr�s, na casa Phillips de Londres, e arrematados pelo Arquivo dos Arsenais Reais, que funciona na pr�pria torre, por 805 libras, o equivalente a 1.400 reais 205 libras a mais que o previsto.
Os pap�is apareceram depois da publica��o do livro Fuzilados na Torre, do ingl�s Leonard Sellers, que resgata a hist�ria de Buschman e de outros dez estrangeiros executados entre o fim de 1914 e o in�cio de 1916, todos espi�es amadores e estabanados, controlados por uma organiza��o igualmente descuidada, com sede em Roterd�, na Holanda. Buschman nasceu em Paris, mas veio ainda beb� para o Rio de Janeiro, onde o pai, Francisco, alem�o naturalizado brasileiro, tinha uma loja de instrumentos musicais. Estudou na �ustria at� se formar engenheiro, quando voltou ao Rio para trabalhar com o irm�o na loja da fam�lia. N�o deu certo e acabou fazendo nova sociedade, com o brasileiro Marcelino Bello, em uma importadora e exportadora de produtos aliment�cios. Culto, refinado, m�sico de qualidade, apaixonado pelo violino e pela avia��o, ent�o uma novidade, Buschman passou a viajar constantemente para a Europa, onde se casou com Valerie, filha de um milion�rio alem�o. Em 1914, a guerra o pegou na Alemanha. L� teria sido convocado pelo servi�o de espionagem, provavelmente por causa da fachada j� bem estabelecida de comerciante internacional de "queijo, banana, batata e l�minas de barbear". Depois de curta passagem pela It�lia e Espanha, chegou a Londres em abril de 1915.
"Ele sofreu muito?" Em mat�ria de coleta de informa��es sobre o inimigo, mostrou pouqu�ssimo servi�o. Primeiro, instalou-se num hotel que era um antro de espi�es, constantemente revistado. Suas cartas eram todas abertas, pois o endere�o do destinat�rio batia com o de not�rios espi�es alem�es em Roterd�. As informa��es que passava eram in�cuas e ocupavam menos papel do que os insistentes pedidos de dinheiro. Preso dois meses depois da chegada a Londres, foi julgado, condenado � morte e enclausurado na torre, onde passou seu �ltimo m�s de vida. Na v�spera da execu��o, um advogado de quem se tornara amigo, Henry Francis Garrett, conseguiu que lhe devolvessem o violino, e Buschman, que negou at� o fim qualquer atividade clandestina, tocou a noite inteira. Pouco antes das 7 da manh� de 19 de outubro de 1915, despediu-se do violino com um beijo "Adeus, n�o precisarei mais de voc�" e seguiu para a morte. No galp�o de treinamento de tiro ao alvo anexo � torre onde se procediam as execu��es pr�tica que estava abolida no local desde 1601 , sentou-se na cadeira indicada, dispensou a venda e "morreu como um cavalheiro", diante dos oito soldados do pelot�o de fuzilamento.
Foi a fam�lia de Garrett que cedeu os documentos para o leil�o: uma carta de Buschman para o advogado, o atestado de �bito, a lista oficial de acusa��es e uma emocionante carta da vi�va, Valerie, enviada logo ap�s a execu��o, pedindo not�cias dos �ltimos momentos do marido. "Ele teve permiss�o para ficar com o violino? Ele sofreu muito? H� um t�mulo em Londres onde eu possa chorar?", perguntava, como coadjuvante do drama quase esquecido de um brasileiro de cora��o alem�o, em meio � carnificina de uma guerra que ceifou a fina flor da juventude brit�nica. |