O Dia em que a Paz Acabou         Veja 16/12/1998
H� oitenta anos terminava a I Guerra Mundial, a m�e de todas as guerras do s�culo


Oitenta anos depois do fim da I Guerra Mundial, a principal pergunta a respeito do conflito continua sem resposta: por que o mundo foi � luta em 1914? O estopim da explos�o que incendiaria a Europa foi um fato que n�o guarda propor��o com as dimens�es do cataclismo que se seguiu: o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Imp�rio Austro-H�ngaro, por um fan�tico nacionalista s�rvio durante sua visita � cidade de Sarajevo, na B�snia. N�o havia ent�o uma amea�a � liberdade ou � humanidade como o nazismo, o detonador da II Guerra Mundial, vinte anos mais tarde. O equil�brio do poder militar na Europa ou as aspira��es imperialistas das grandes pot�ncias, as raz�es comumente aceitas para explicar a explos�o, n�o justificariam tampouco o banho de sangue que se seguiu. A conclus�o a que se chega � que se lutou muito por quase nada.

Quando os soldados alem�es marcharam para a guerra, no dia 1� de agosto de 1914, mais pareciam um bando de colegiais partindo para um piquenique. "Estar�o todos de volta antes que comecem a cair as folhas das �rvores", despediu-os o kaiser Guilherme II, imaginando que em quatro meses tudo estaria terminado, naquele que seria um dos mais graves erros de avalia��o da Hist�ria. A maioria de seus soldados simplesmente n�o voltou, a guerra se estendeu por quatro anos deixando um rastro de destrui��o por toda a Europa e um saldo aterrador de 15 milh�es de mortos entre militares e civis. Tudo por nada.

As grandes pot�ncias europ�ias se preparavam para a guerra h� anos. Em seu livro The Arming of Europe and the Making of the First World War (A Militariza��o da Europa e a Deflagra��o da I Guerra Mundial) o historiador David Herrmann mostra que a Alemanha atingira o auge de seu poderio b�lico em 1914 e provocou o conflito para n�o ser alcan�ada por seus rivais, Inglaterra, Fran�a e especialmente a R�ssia. Vista oitenta anos depois de terminada, percebe-se que se pagou um pre�o alt�ssimo pelas ambi��es e vaidades daquele momento. A I Guerra � lembrada como o primeiro conflito moderno da Hist�ria que destruiu com brutalidade o romantismo das batalhas e colocou o cidad�o comum em contato direto com a crua realidade do front. Novas armas como a metralhadora, os gases venenosos, o tanque, o torpedo, o avi�o, o submarino iriam ser testados pela primeira vez antes que se pudesse avaliar seu poder de destrui��o aterrador. Apenas no primeiro dia da batalha de Somme a Inglaterra perdeu 60.000 soldados. Durante toda a Guerra do Vietn�, meio s�culo depois, os Estados Unidos perderam 58.000 homens, o suficiente para levantar a opini�o p�blica americana contra a insensatez da guerra.

Fina flor � Mas aqueles eram outros tempos. "Em 1914, 'gl�ria' era uma palavra dita sem constrangimento e a honra era um conceito conhecido, em que as pessoas acreditavam", escreveu em Canh�es de Agosto a historiadora americana Barbara Tuchman, uma da maiores autoridades em I Guerra Mundial. Pela gl�ria e pela honra, a fina flor da juventude europ�ia engajou-se na luta e nela pereceu. "Apenas um ter�o dos soldados franceses saiu da guerra inc�lume. Um quarto dos alunos de Oxford e Cambridge que serviam o Ex�rcito brit�nico em 1914 foi morto", contabiliza o historiador Eric Hobsbawm no livro Era dos Extremos. Em dois anos, a R�ssia perdeu 3,8 milh�es de homens. Em 1921, a popula��o da Fran�a tinha 400.000 pessoas menos do que dez anos antes. A destrui��o atingiu toda a Europa, inclusive a Inglaterra, no outro lado do Canal da Mancha.

Toda uma gera��o havia sido ceifada com uma brutalidade que n�o deixava d�vidas. N�o havia nada de bonito na guerra, como chegou a escrever em um poema o poeta franc�s Guillaume Apollinaire, um dos combatentes ca�dos no conflito. As trincheiras, onde os soldados passaram a viver, eram imundas e enlameadas, infestadas de insetos e ratos. A morte era banal e os soldados, tratados como muni��o que podia ser "queimada", na chamada guerra de "desgaste". "A vit�ria � uma simples quest�o de matem�tica", dizia o general Eric von Falkenhayn, comandante do Estado-Maior alem�o. "Como h� mais alem�es do que franceses, no fim sobrar�o os alem�es." Os aliados n�o agiam diferentemente e os franceses s� mudaram de opini�o quando seus soldados se amotinaram contra a estupidez com que eram tratados.

O conflito distribuiu novos pap�is pelo mundo. A mulher, que ainda lutava para ter o direito de votar, foi chamada a ocupar o lugar do homem na linha de produ��o das f�bricas e chegou ao front. Apenas entre americanas e inglesas alistaram-se 90.000, a maioria para cuidar dos hospitais de campanha. O mapa da Europa foi redesenhado. Tanto quanto aniquilar o imp�rio alem�o, o Tratado de Versalhes esmerou-se em isolar o novo inimigo que surgia na R�ssia: o comunismo. Nos dois casos o tiro saiu pela culatra. A humilha��o da Alemanha, imposta pelo Tratado, fez germinar o nazismo que detonaria a II Guerra Mundial. O comunismo tamb�m teve seu caminho aberto pelas feridas russas na I Grande Guerra � justamente o conflito deflagrado para terminar com todas as hostilidades.
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