| Radiografia da Fofoca Veja 17/06/1998 O boato sobre o suic�dio de Gloria Pires, que teria surpreendido o marido com sua filha mais velha, � um exemplo de como a maledic�ncia surge e se espalha Gl�ria e Orlando, com Cl�o, filha do primeiro casamento da atriz: ex�lio em Los Angeles Nos �ltimos dois meses, a atriz Gloria Pires, de 33 anos, tentou o suic�dio pelo menos duas vezes. Uma por ingest�o de rem�dios para dormir, outra com um tiro na cabe�a. Deu entrada, em estado grave, em dois hospitais: a Cl�nica S�o Vicente, no Rio de Janeiro, e o Albert Einstein, em S�o Paulo. A raz�o do tresloucado gesto � digna de uma pe�a de Nelson Rodrigues. Seu marido, o cantor Orlando Morais, de 34 anos, estaria tendo um caso com a filha do primeiro casamento da atriz, Cleo, de 15 anos. Esta, por sua vez, fez pelo menos dois abortos recentemente. Um em Portugal, outro em Los Angeles. Se as linhas acima fossem verdadeiras, a vida de Gloria Pires se teria transformado numa trag�dia grega. Felizmente, o infort�nio da atriz � menos grave, embora n�o deixe de ser tremendamente inc�modo. Ela � v�tima da ind�stria do boato. Devido aos rumores que cercam sua vida desde mar�o, a estrela da Globo deixou de sair de casa. At� a semana passada, Gloria evitava atender ao telefone para n�o ter de desmentir, pela en�sima vez, not�cias sobre a pr�pria morte. Aonde quer que fosse, seu marido era olhado com desconfian�a. Cleo, por sua vez, n�o ag�entava mais as maledic�ncias dos colegas no Col�gio S�o Marcelo, do Rio, onde cursa a 8� s�rie. O pai da menina, o cantor e ator F�bio Jr., n�o quer falar sobre o assunto, mas est� preocupado. A vida da atriz e de sua fam�lia virou um inferno. Para escapar dele, Gloria, Orlando, Cleo e a filha mais nova do casal, Antonia, de 5 anos, partiram para Los Angeles na quinta-feira passada. Eles devem passar tr�s meses nos Estados Unidos, durante os quais a atriz estudar� ingl�s e Orlando far� cursos de aperfei�oamento na �rea musical. O casal j� planejava essa viagem h� algum tempo, mas n�o tinha ainda data para faz�-la. Em vista dos acontecimentos, resolveu partir imediatamente. "Estou cansada dessa hist�ria toda", desabafa Gloria. "N�o entendo essa loucura. Como uma situa��o completamente improv�vel pode ganhar tanta for�a?" A fofoca � uma institui��o que existe desde o tempo das cavernas, quando n�o havia sido inventada a escrita e todas as informa��es, verdadeiras ou n�o, eram transmitidas oralmente. Milhares de anos depois, o boca-a-boca continua a ser a fonte prim�ria de fuxicos que dificilmente s�o a favor � a fofoca eficiente, afinal de contas, � sempre aquela que ajuda a manchar reputa��es. Fofocas que envolvem personalidades famosas, como atores e pol�ticos, tendem naturalmente a amplificar-se, ganhando a condi��o de boato. At� a� nada de muito problem�tico. A dor de cabe�a � quando boatos desembarcam nas p�ginas de jornais e nos programas da m�dia eletr�nica. A partir desse momento, eles ganham legitimidade, status de not�cia. � dif�cil livrar-se de um boato quando ele atinge esse est�gio. Muitas vezes, os desmentidos p�blicos t�m efeito contr�rio � se os atingidos n�o tiverem uma prova material, o que quase sempre � imposs�vel, ajudam a divulg�-lo ainda mais e mant�m acesa na cabe�a das pessoas a d�vida de que tudo, afinal, pode ter um fundo de verdade. A l�gica do boato � t�o perversa que ele ganha for�a na medida em que incorpora ingredientes inveross�meis. Trata-se de um caso t�pico de como funciona a psicologia das multid�es. "Os boatos agem como um sism�grafo dos sentimentos e emo��es mais rec�nditos", explica o historiador Nicolau Sevcenko. Boato Rumores sobre a virilidade do ator M�rio Gomes, um gal� em ascens�o que namorava Beth Faria Como come�ou Em 1977, com uma nota no jornal carioca Luta Democr�tica Como terminou O ator ganhou tr�s sal�rios m�nimos como indeniza��o por ofensas e danos morais, e teve direito a publicar uma retrata��o Beijo na boca � Na era da comunica��o de massa, o boato nasce da superexposi��o da imagem. As celebridades aparecem na televis�o, em colunas sociais, nas r�dios e em revistas de fofocas, tornando-se pr�ximas do p�blico. As pessoas comuns passam a trat�-las como se fossem amigas, vizinhas ou at� mesmo parentes. Essa proximidade � tal que telespectadores e leitores se sentem no direito de tecer coment�rios sobre a vida privada de gente famosa. � nesse terreno que cresce a maldade. Nos �ltimos anos, o tipo de boato mais constante � que determinada celebridade est� com Aids. Isso acontece sempre que algu�m aparece numa foto com alguns quilos a menos. Foi o caso do ator Tony Ramos em 1993. Adepto do estilo de representar do ator americano Robert De Niro, que incorpora fisicamente seus personagens, Tony emagreceu 10 quilos para interpretar seu papel numa montagem de A Morte e a Donzela, cl�ssico de esquerda do autor chileno Ariel Dorfman. Foi o bastante para que o rumor se espalhasse. Pelo mesmo motivo � emagrecimento � j� foram apontados como portadores do v�rus HIV Cl�udia Raia, Ney Matogrosso, Nat�lia do Valle, Lulu Santos e Faf� de Bel�m, entre outros. O pr�prio boato que envolve a fam�lia de Gloria Pires pode ter tido origem numa foto. No dia 8 de maio de 1997, o jornal O Globo publicou uma foto na coluna do Swann em que Orlando Morais e a menina Cleo aparecem dando um beijo na boca. N�o �, claro, um beijo cinematogr�fico, mas uma beijoca dessas que alguns jovens usam comumente para se cumprimentar. Uma bicota. O fato de Cleo usar um piercing na sobrancelha e aparecer em colunas sociais com roupas colantes pode ter ajudado a incendiar a imagina��o dos boateiros. "Ela � bonita e tem personalidade, mas as pessoas v�em maldade em tudo", indigna-se Gloria. Tudo come�a, ent�o, com a imagem. Depois vem o desenvolvimento. Numa �ria da �pera O Barbeiro de Sevilha, o personagem Don Bartolo compara a cal�nia a uma brisa, que vai aumentando at� se transformar num furac�o (veja quadro). Como dizia o personagem do compositor Gioachino Rossini, o rumor vai ganhando cada vez mais detalhes, em geral acrescentados por pessoas que trabalham pr�ximas �s celebridades e desejam aparentar mais intimidade com elas do que realmente t�m. Os bastidores das redes de televis�o, com seus c�meras, maquiadores e cabeleireiros, s�o, assim, um campo f�rtil para a fofoca. A nascente do boato est� quase sempre ao lado da v�tima, e, uma vez lan�ado, ele se espalha como fogo num rastilho de p�lvora. O embaixador Italo Zappa, falecido no ano passado, costumava divertir-se com uma brincadeira que fazia no Pal�cio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, onde trabalhava no final dos anos 60. De manh�, ele contava, na base do segredo, uma hist�ria sem fundamento para alguns de seus colegas. De tarde, em seu gabinete, divertia-se ao observar que a hist�ria contada horas antes ganhara detalhes novos e por vezes escabrosos. Allen carioca � Mas como � que uma fofoca, transformada em boato, vai parar nos jornais? Teoricamente, nenhum ve�culo s�rio publica ou coloca no ar uma informa��o que n�o esteja checada, sob pena de perder sua credibilidade. Ainda assim, boatos freq�entemente s�o noticiados como sendo verdadeiros, e n�o s� em rela��o a personalidades. S�o famosos os casos de invencionices como o "chupa-cabras", um monstro que estaria atacando animais em s�tios e fazendas do interior. Tamb�m houve a hist�ria, amplamente divulgada na imprensa, do ET de Varginha. Esses boatos foram tratados como not�cias em diversos ve�culos de informa��o porque ati�avam o interesse dos leitores. Mas h� outros exemplos em que os desdobramentos v�o muito al�m do folclore e da bizarrice. Em economia, eles s�o abundantes. O �ltimo boato econ�mico falava na "quebra" do Banco Real. O diz-que-diz do mercado financeiro causou um tremendo preju�zo ao banco (veja quadro). Boato Cl�udia Raia e a Aids Como come�ou Em 1992, o m�dico paulista Ricardo Veronesi declarou a jornalistas que a atriz seria portadora do v�rus HIV Como terminou Ela submeteu-se a um exame de sangue e convocou a imprensa para mostrar o resultado negativo. Cl�udia processou Veronesi A principal brecha nos jornais para a divulga��o de boatos s�o as colunas sociais. Elas fazem muitas vezes insinua��es sem citar nomes. Gloria Pires foi v�tima, mais do que ningu�m, desse tipo de jornalismo. A fofoca sobre sua fam�lia saiu publicada pela primeira fez no dia 30 de mar�o na coluna do jornalista Fred Suter, do jornal carioca O Dia. A nota dizia, sob o t�tulo "Tititi": "O insosso Orlando Morais tanto fez que conseguiu: � o assunto obrigat�rio, de uns dias para c�, em todas as rodas de conversa". Suter conta que havia recebido a informa��o do suic�dio de Gloria de uma amiga "seri�ssima". Checou a informa��o e viu que n�o procedia. "Resolvi, ent�o, dar apenas a not�cia sobre o rumor, sem contar a hist�ria", diz ele. Depois disso, o caso reapareceu quatro vezes na coluna do Swann, do jornal O Globo, escrita pelo jornalista Alessandro Porro. "A hist�ria me foi passada por um amigo de toda a confian�a. Dei a not�cia, mas n�o revelei os nomes por prud�ncia", justifica-se Porro. O t�tulo de uma das notas era o seguinte: "Woody Allen, mas com gosto carioca", numa alus�o ao diretor americano que, em 1992, se apaixonou pela enteada Soon-Yi Previn enquanto ainda era casado com a atriz Mia Farrow. No dia 4 passado, por fim, a comentarista S�nia Abr�o, da R�dio Capital, de S�o Paulo � que tem um programa sintomaticamente intitulado Fatos e Boatos �, colocou no ar a entrevista com um suposto enfermeiro do Hospital Albert Einstein, em S�o Paulo. Segundo o entrevistado, Gloria Pires teria sido internada depois de uma de suas tentativas de suic�dio. Nesse dia, a maior cidade do pa�s n�o falou em outra coisa. S�nia se defende: "Procurei a assessoria de Gloria Pires e s� recebi informa��es evasivas. S� ent�o coloquei a entrevista no ar", diz a colunista, que parece ter se esquecido de que a atriz mora no Rio de Janeiro, a pelo menos 400 quil�metros do Hospital Albert Einstein. Na verdade, a fita com a entrevista foi especialmente editada. Nela, o "enfermeiro" afirmava que havia participado de uma lavagem estomacal � qual a atriz fora submetida no hospital. Em outro trecho da entrevista, por�m, que n�o foi ao ar, ele dizia n�o ter assistido ao procedimento. Ou seja, a r�dio n�o levou em conta a contradi��o, n�o checou devidamente a hist�ria e mostrou a seus ouvintes o que lhe convinha do ponto de vista da audi�ncia. Boato Ney Matogrosso com Aids Como come�ou Com uma reportagem de capa da revista Amiga em 1989 Como terminou Com o desmentido do cantor, que processou a revista e ganhou uma indeniza��o de 390.000 reais Nem sempre, � claro, boatos s�o sin�nimo de mentira. Alguns s�o confirmados pelo tempo. Isso explica, sem justificar, o fato de as colunas sociais dos jornais e do r�dio serem t�o vorazes e apressadas em divulgar o que lhes cai nas m�os. O que n�o for mentira pode virar furo de reportagem. "Muitos fatos nasceram de boatos, como o romance de Z�lia Cardoso de Mello com Bernardo Cabral", diz a jornalista Joyce Pascowitch, da Folha de S.Paulo, que recentemente insinuou em sua coluna que a atriz Carolina Ferraz estaria tendo um caso com seu colega Murilo Ben�cio. O boato de que Cazuza estava com Aids, que durante o final dos anos 80 foi o assunto preferido das colunas de fofocas brasileiras, se revelou tragicamente verdadeiro � e o cantor morreu da doen�a. � por isso tamb�m que o boato tem efeito devastador. A n�o ser que seu desmentido seja bastante convincente, uma prova material como j� se disse, sempre fica uma sombra de d�vida. Em 1992, Cl�udia Raia foi inteligente ao mostrar em p�blico um teste negativo de Aids, acabando de uma vez por todas com os rumores, espalhados pelo m�dico Ricardo Veronesi, de que ela estaria com o v�rus HIV. A atriz francesa Isabelle Adjani foi outra a adotar uma linha corajosa para negar que estava doente (veja quadro). S�o poucos, no entanto, os que conseguem sair de uma fofoca sem seq�elas. Boato A mulher de Tony Ramos, Lidiane, teria recebido uma transfus�o de sangue contaminado com o v�rus da Aids. O ator tamb�m teria ficado doente Como come�ou Em 1993, Tony fez um regime, e sua magreza provocou rumores entre os cariocas Como terminou Com o desmentido do ator numa entrevista no programa J� Soares Onze e Meia Detalhes s�rdidos � Na televis�o brasileira, o caso mais dram�tico � do ator M�rio Gomes. Em 1977, ele despontava na televis�o como o sedutor Dino, da novela Duas Vidas. Era apontado como o sucessor de Tarc�sio Meira no posto de maior gal� do pa�s. No dia 24 de mar�o daquele ano, o extinto jornal Luta Democr�tica p�s em d�vida a masculinidade do ator. A not�cia era cheia de detalhes s�rdidos. Desconfiou-se, na �poca, que a hist�ria teria sido inventada por um desafeto do ator dentro da emissora, enciumado com seu sucesso. N�o importava, o estrago j� estava feito. A fofoca pegou de tal maneira que o ator, uma estrela ascendente, ficou seis anos sem fazer nenhum papel importante na Globo. M�rio Gomes s� conseguiu reerguer-se parcialmente em 1983, interpretando um motorista na novela Guerra dos Sexos. Hoje, com 46 anos, casado h� sete e pai de duas meninas, ele se exalta quando lembra do que aconteceu, mas est� tocando a vida. Tem uma confec��o de roupas e �, de novo, contratado da Globo. "O que n�o mata fortalece", conforma-se. O caso de Gloria e Orlando � o mais dram�tico do meio art�stico brasileiro desde M�rio Gomes. Antes que a atriz, o marido e a filha partissem para os Estados Unidos, Gloria recebia telefonemas di�rios do pai, que mora numa fazenda em Goi�s, perguntando se estava tudo bem. A sogra, Ocidia, que h� algumas semanas estava morando com o casal, era acometida de taquicardia cada vez que Cleo sa�a � rua. Os amigos tamb�m n�o paravam de ligar. No s�bado dia 6, Gloria chegou a receber um telefonema da apresentadora Hebe Camargo, que ouvira de um m�dico amigo da fam�lia a not�cia de suic�dio. � duvidoso que, com a viagem, os rumores cessem. "Na escola de minha filha, as pessoas comentam que ela est� escondendo a barriga e que vai viajar para Los Angeles para fazer aborto", irrita-se Gloria Pires. "Ela est� reagindo com coragem, mas �s vezes n�o se cont�m e passa a agredir os colegas a seu redor." A atriz, que trabalha na Globo desde 1972, contou com a ajuda da emissora para tentar desmentir o boato. No �ltimo Dia das M�es, o Fant�stico colocou no ar uma reportagem de dois minutos com Gloria, Orlando, Cleo e Antonia. No jardim de casa, eles falaram no assunto de forma velada. N�o foi suficiente, principalmente depois que a hist�ria voltou � tona por meio da R�dio Capital. No domingo dia 7, ela e Orlando voltaram a abordar o tema no Doming�o do Faust�o, dessa vez de uma forma mais direta. O Ibope do programa foi de 24 pontos, contra 9, no mesmo hor�rio, do concorrente Gugu. Boato Os atores Carolina Ferraz e Murilo Ben�cio, da novela Por Amor, teriam um caso Como come�ou Com uma nota na coluna social da Folha de S.Paulo, publicada em abril, insinuando o romance Como terminou O rumor se enfraqueceu com o fim da novela O que a v�tima de boato pode fazer para compensar os estragos causados em sua vida? Como o boato � uma "cria��o coletiva", inventado por um, aumentado e propagado por muitos, � praticamente imposs�vel responsabilizar quem iniciou a coisa. Mas, caso ele seja difundido por algum ve�culo de informa��o, esse � pass�vel de processo. At� 1988, esses processos eram regidos pela Lei de Imprensa, e sua indeniza��o nunca poderia ultrapassar 100 sal�rios m�nimos, ou 13.000 reais. Agora, os que se sentirem atingidos podem invocar cal�nia, difama��o e inj�ria, e o valor por danos morais n�o tem limite. Foi o que aconteceu com o cantor Ney Matogrosso. Em 1989, o cantor apareceu na capa da revista Amiga, da Editora Bloch. Na chamada, os leitores foram informados da tr�gica "not�cia": Ney estaria com Aids. Com a sa�de 100%, ele contratou um advogado e, um ano depois, ganhou indeniza��o de 3.000 sal�rios m�nimos, o equivalente hoje a 390.000 reais. Cl�udia Raia tamb�m processou o m�dico Ricardo Veronesi, mas perdeu. Os advogados dele convenceram o j�ri de que o m�dico n�o havia autorizado a publica��o de suas declara��es e que tinha feito apenas um coment�rio infeliz. Por interm�dio do advogado Paulo Cezar Carneiro, o mesmo de Ney Matogrosso, a atriz Gloria Pires pretende acionar os jornais e a r�dio que a difamaram. A atriz tem bastante dinheiro. N�o est� em busca disso. Quer repara��o. Mas, por maior que seja a indeniza��o, ela n�o compensar� o abalo por que passam a atriz e sua fam�lia. Gl�ria, num desmentido impl�cito "Vivemos em cumplicidade e confian�a. Adoro a vida que tenho com minhas filhas e o Orlando. Aqui todos se curtem." No Fant�stico, no Dia das M�es E a revolta, no segundo desabafo "Eles foram covardes, n�o disseram o nome. Foi uma pessoa fraca, mas de credibilidade entre os jornalistas, porque deu base a esse coment�rio louco. � como uma m�o no meio da multid�o jogando uma pedra na nossa cabe�a. D�i no cora��o ver nossa filha sendo apontada pelos colegas no col�gio." No Doming�o do Faust�o, no �ltimo dia 7 Recurso Dram�tico A intriga � t�o antiga quanto o homem, mas os primeiros registros de boatos na Hist�ria v�m da Roma antiga. Eles eram uma forma eficaz de atingir advers�rios pol�ticos. J�lio C�sar costumava lan�ar m�o desse expediente pagando pessoas a peso de ouro para espalhar que esse ou aquele senador estava participando de uma conspira��o contra Roma. Tanto que a palavra boato vem do latim boatu, que significa mugido ou berro de boi � uma met�fora para dizer que determinada intriga estava sendo bradada aos quatro ventos. Na civiliza��o grega, anterior � romana, os boatos j� existiam, mas n�o tinham tanta import�ncia. "Na Gr�cia antiga o que valia era a palavra p�blica, assumida, ou ent�o a acusa��o n�o se mantinha", observa Antonio Medina Rodrigues, professor da Universidade de S�o Paulo. Na literatura, especialmente a teatral, a fofoca levada �s �ltimas inconseq��ncias sempre foi um bom recurso, fornecendo combust�vel tanto para a trag�dia como para a com�dia. No primeiro caso, est� o Otelo, de William Shakespeare. Na pe�a, o vil�o Iago espalha que a mulher de Otelo, Desd�mona, � ad�ltera. O boato origina um banho de sangue que termina com a morte dos tr�s personagens principais. No cl�ssico da com�dia O Barbeiro de Sevilha, o escritor franc�s Pierre Beaumarchais criou um personagem cuja especialidade � espalhar boatos, Don Bartolo. Grande sucesso em sua �poca, a pe�a teve uma continua��o, As Bodas de F�garo, em que quase todos os personagens s�o boateiros. A primeira pe�a inspirou uma �pera de Rossini, na qual h� at� uma �ria dedicada ao boato, La Calunnia � un Venticello, e a segunda, uma das melhores �peras de Mozart. Era o boato, motor da trag�dia e da com�dia, assumindo a forma de m�sica. Preju�zo de milh�es Na vida pessoal, um boato causa estragos. Quando envolve uma institui��o financeira, pode acarretar preju�zo de milh�es. H� duas semanas, o Real, quarto maior banco privado do pa�s, passou por momentos de grande tens�o. Informa��es sobre problemas financeiros na institui��o tomaram conta do pa�s e provocaram p�nico entre seus correntistas. Num �nico dia, 2 de junho, os clientes sacaram 70 milh�es de reais das contas correntes, volume tr�s vezes e meia superior ao de um dia normal. O preju�zo s� n�o foi maior porque o Banco Central divulgou comunicado negando que o Real estivesse passando por dificuldades. O diretor-geral do banco, Ren� Aduan, atribui a boataria � movimenta��o criada em seus escrit�rios pela chegada de um pelot�o de auditores do Banco Central. A auditoria faz parte de uma nova forma de avaliar a situa��o dos bancos. O objetivo � evitar surpresas como o Nacional e o Econ�mico. Esse procedimento chamou a aten��o das pessoas e fez soar o alarme falso. No caso do Real, nada havia de suspeito ou irregular na sua contabilidade. Os boatos fazem parte do jogo do mercado financeiro em todos os pa�ses. Nas bolsas, eles s�o respons�veis pela alta exagerada ou pela derrubada do pre�o de algum papel. S� neste ano, pelo menos tr�s bancos sofreram com mexericos. Segundo os fofoqueiros, o Unibanco teria sido vendido ao Citibank e a filial brasileira do banco franc�s CCF teria ido � bancarrota. Tudo mentira. O CCF, um banco s�lido, perdeu aproximadamente 100 milh�es de reais de seus fundos com a "brincadeira". O Unibanco chegou a procurar diretores do Citibank para obter uma negativa oficial. Em nenhum dos casos foi identificada a fonte da boataria. Por tr�s das telas Houve um tempo em que as celebridades de Hollywood viviam praticamente imunes � boataria. At� o fim dos anos 60, adult�rios, homossexualismo, alcoolismo e doen�as em geral eram simplesmente banidos do notici�rio em fun��o da censura dos est�dios. Mas hoje Hollywood � o principal foco dos rumores acerca da vida das estrelas. Existe uma infinidade de revistas, sites na Internet e at� canais de TV, como o E!, especializados em fofoca. O caso mais rumoroso da d�cada � provavelmente o do suposto homossexualismo do ator Keanu Reeves, difundido a princ�pio entre a comunidade gay californiana e que depois ganhou notas em v�rios jornais. Segundo os boateiros, ele teria se "casado" com o militante gay e dono de gravadora David Geffen, que acabou desmentindo a hist�ria. Reeves limitou-se a declarar-se heterossexual. Do outro lado do Atl�ntico, em Paris, a atriz italiana Claudia Cardinale manifestou-se indignada contra o tabl�ide americano The New York Post, que publicou nota afirmando que ela teria um romance com o presidente franc�s Jacques Chirac. "Esse jornal � um lixo", disse. Na mesma Fran�a, nos anos 80, a atriz francesa Isabelle Adjani, que diz detestar a imprensa, chegou a ir � TV para desmentir um boato segundo o qual ela teria Aids. �s vezes, a fama pode ser um fardo. |
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