| O Planeta Paulo Coelho Veja 15/04/1998 Como o mago a�oitado pela cr�tica se transformou no escritor brasileiro mais vendido ao redor do mundo Paulo Coelho, que no Brasil � conhecido por seus admiradores como "mago" e por seus detratores como "picareta", acaba de bater um recorde hist�rico: � o segundo brasileiro a atingir a marca de 20 milh�es de livros vendidos ao redor do mundo. A fa�anha o transforma num fen�meno sem paralelo na cultura brasileira. Sobre o outro autor nacional que j� vendeu a mesma quantidade de livros, Jorge Amado, Paulo Coelho leva tr�s vantagens. A primeira � que chegou a esse n�mero impressionante em muito menos tempo � dez anos, contra mais de sessenta anos de carreira do autor de Dona Flor e Seus Dois Maridos. A segunda � que, enquanto o vener�vel baiano publicou 37 livros, ele atingiu a mesma vendagem com apenas oito volumes editados. A terceira � que conseguiu chegar a esse patamar gra�as, unicamente, a seus pr�prios m�ritos � apesar de seu indubit�vel talento liter�rio, Jorge Amado, militante comunista, contou com a ajuda dos partid�es espalhados pelo mundo para propagar sua obra. Sem a ajuda do ouro de Moscou, e provavelmente sem nenhuma mandinga poderosa, Paulo Coelho conquista mercado atr�s de mercado, principalmente na Europa, onde ele n�o � conhecido nem como "mago" nem como "picareta", mas por uma palavra que os cr�ticos brasileiros em geral n�o t�m coragem de pronunciar quando se referem a ele: "escritor". Os integrantes do Minist�rio da Cultura, por exemplo, n�o acham que Paulo Coelho mere�a essa qualifica��o, tanto que n�o o convidaram para a delega��o que representou o pa�s oficialmente no Sal�o do Livro de Paris, no m�s passado, que teve o Brasil como tema principal. Mesmo assim, Paulo Coelho apareceu por l� por conta pr�pria, convidado por sua editora, e roubou a cena lan�ando em solo europeu O Monte Cinco, seu �ltimo romance, que saiu no Brasil h� dois anos. Enquanto a maioria dos escritores brasileiros passou praticamente despercebida da multid�o, ele recebeu do p�blico franc�s a aten��o dispensada a uma estrela pop. Em visita � feira, o presidente Jacques Chirac cobriu-o de gentilezas � afinal de contas, o brasileiro havia sido condecorado, em 1996, com a Comenda das Artes e das Letras pelo governo da Fran�a. Sua tarde de aut�grafos menos concorrida o fez assinar livros durante quatro horas ininterruptamente. No melhor dos dias, ficou sete horas autografando. "Os organizadores do Sal�o do Livro disseram que nunca viram nada igual em mais de dez anos", diz Anne Carri�re, a editora de Paulo Coelho na Fran�a. "Em tr�s semanas, j� vendemos 200.000 exemplares de O Monte Cinco." O ponto alto de sua passagem por Paris, que incluiu incont�veis entrevistas para TVs e jornais, foi um jantar para 700 pessoas no Carroussel, �rea de eventos localizada no subsolo do Museu do Louvre que costuma abrigar os grandes desfiles da capital da moda. M�nica Antunes, a agente de Paulo na Europa, comanda de Barcelona a opera��o que o transformou em sucesso em todo o globo terrestre. "O Alquimista foi traduzido para 38 idiomas, e n�o � todo autor que consegue isso. O Mundo de Sofia, do noruegu�s Jostein Gaarder, que foi um livro badalado, n�o chegou a tanto. E o Paulo escreve numa l�ngua que n�o � ingl�s, franc�s nem alem�o. � dif�cil fazer sucesso escrevendo em portugu�s. Mas hoje o idioma do Paulo j� n�o importa, ele � universal", diz ela. Com 20 milh�es de livros vendidos, Paulo Coelho � um fen�meno para um escritor brasileiro, mas n�o chega perto ainda dos grandes best-sellers internacionais, como John Grisham, o escritor mais bem-sucedido da atualidade, com 87 milh�es de livros vendidos no mesmo per�odo de Paulo Coelho, ou Danielle Steel, que vendeu 360 milh�es de c�pias em vinte anos. Essas cifras s� s�o poss�veis no mercado em que esses dois escritores atuam, o americano, maior do mundo. A fa�anha de Paulo Coelho, hoje publicado em 73 pa�ses, al�m do Brasil, � conseguir penetrar em v�rios mercados distintos e, em todos eles, conseguir uma legi�o de seguidores. � Isso � uma pris�o? � perguntou � vigilante, que tinha abandonado a leitura do livro e agora acompanhava todos os seus movimentos. � N�o. Um hosp�cio. � Eu n�o sou louca. A mulher riu. � � exatamente o que todos dizem aqui. Trecho do livro Veronika Decide Morrer Essa "universalidade" de que fala sua agente parece ser uma das causas do sucesso internacional de Paulo Coelho. O Brasil praticamente n�o aparece em seus livros, que despertam igual interesse em umbandistas baianos e esp�ritas suecos. Suas f�bulas contendo ensinamentos costumam ser ambientadas em lugares como a Espanha ou o norte da �frica, mas poderiam passar-se em qualquer tempo e lugar. Ecum�nicos, seus livros podem ser lidos sem susto por gregos e troianos, religiosos e materialistas. Em fevereiro passado, ele foi convidado a participar do F�rum Mundial de Economia em Davos, na Su��a. No evento, discorreu para empres�rios e banqueiros sobre insuspeitas liga��es entre misticismo e economia. Ao final de uma palestra em que, entre outras coisas, falou sobre a import�ncia de cada um despertar "a mulher que todos trazem dentro de si", foi procurado por um estranho. "Ele me perguntou se eu me importaria em encontrar o Shimon Peres, que queria me conhecer", lembra Paulo Coelho, que n�o titubeou em aceitar a proposta. "Li todos os seus livros", foi logo dizendo o ex-primeiro-ministro de Israel ao avistar o escritor, que, desde novembro passado, � conselheiro especial da Unesco para o programa Converg�ncias Espirituais e Di�logo Intercultural, cujo principal objetivo � estabelecer o di�logo inter-religioso. Neste ano, Paulo Coelho fez uma solicita��o a sua editora italiana, a Bompiani: queria conhecer o papa. Para conseguir sinal verde de sua santidade, a editora teve de submeter seus livros a especialistas do Vaticano, que os analisaram durante dois meses. As mesmas obras que servem de ponto de partida para palestras empresariais n�o foram consideradas danosas � f� cat�lica, e Paulo Coelho conseguiu o encontro com Jo�o Paulo II. Cat�lico fervoroso, desses que fazem tr�s ora��es por dia � ao acordar, �s 6 da tarde e antes de dormir �, ficou emocionad�ssimo. "Como cat�lico, admiro o papa por ter devolvido o sentido do sagrado � Igreja. O mundo est� passando por uma conscientiza��o da sua espiritualidade", teoriza. Quando se tenta entender o fen�meno Paulo Coelho, a primeira explica��o que vem � mente � o crescente interesse que assuntos m�sticos e religiosos, abordados por seus livros, despertam no mundo atual. �s voltas com um cotidiano repleto de solicita��es materialistas, das quais nem sempre podem dar conta, as pessoas precisariam de um escape espiritual, de um sentido transcendental para as suas vidas. A explica��o � v�lida, mas h� uma outra raz�o para o sucesso de Paulo Coelho, bem mais terrena. Ele sabe vender sua imagem, � um especialista em marketing, esquecidas as conota��es negativas atribu�das ao anglicismo "marketing" e ao adjetivo "marqueteiro". Antes de se tornar escritor, Paulo Coelho foi executivo da ind�stria do disco. Entre suas cria��es nessa �rea est� a figura de Sidney Magal, o falso cigano que rebolava em churrascarias da noite carioca e, mediante uma arma��o de gravadora, foi transformado num supersucesso fonogr�fico em meados dos anos 70. Paulo Coelho domina as leis do sucesso na ind�stria fonogr�fica, e essas leis s�o as mesmas que regem o tipo de literatura popular que pratica. A opera��o de lan�amento de um livro seu � geralmente parecida com a de uma nova banda de rock. Sua editora na It�lia, por exemplo, fechou, durante uma semana, cinco pequenas ruas em cinco cidades italianas � Roma, Mil�o, Bolonha, Orvieto e N�poles � e batizou cada uma delas de Via Paulo Coelho. Viraram o que se poderia chamar de ruas tem�ticas. Em Orvieto, O Monte Cinco estava em todas as vitrines � e a rua coberta de cartazes e bal�es de g�s. Numa casa de carnes de ca�a, um javali morto, de �culos de grau, "lia" o livro de Paulo arrumado entre suas patinhas. Numa loja de roupas, um manequim de vitrine trazia O Monte Cinco no bolso do casaco. Paulo se mant�m a par dessas estrat�gias e, para usar um jarg�o da ind�stria fonogr�fica, "trabalha" seus livros da mesma maneira que um cantor "trabalha" uma m�sica participando de programas de audit�rio e entrevistas no r�dio. "O sucesso � muito bom, n�o tenho nenhum conflito com ele", diz Paulo Coelho. "Mas para obt�-lo � preciso um esfor�o herc�leo, um rigor muito grande." Na semana passada, ele voltou ao Brasil para uma curta temporada de um m�s. Em maio voa para a Gr�-Bretanha, onde passa oito dias divulgando O Monte Cinco em entrevistas e tardes de aut�grafo. Cada dia dormir� numa cidade diferente. S� ter� um dia de folga. De l� segue para o Jap�o, onde fica mais quinze dias. Nem quando est� no Brasil ele descansa muito. Na �ltima ter�a, em seu apartamento de frente para o mar de Copacabana, no Rio de Janeiro, deu uma entrevista para o programa Bons Baisers d'Amerique, da TV5 canadense. Na quarta, por telefone, falou com rep�rteres de dois prestigiados jornais ingleses, o Sunday Times e o The Guardian. "Fico cansado s� de ler a agenda do Paulo, que tem uma dedica��o absoluta ao que faz. Ele poderia preocupar-se menos com entrevistas e noites de aut�grafo, mas faz tudo com uma humildade de estreante", diz seu editor no Brasil, Roberto Feith. Apesar de honrar tantos compromissos profissionais, Paulo Coelho �, na verdade, um grande pregui�oso. Quando n�o est� viajando, sua rotina consiste em acordar depois do meio-dia, checar seus e-mails no computador e dar uma caminhada na praia com a mulher, a artista pl�stica Cristina Oiticica, de 46 anos, com quem est� casado h� dezoito. Depois disso, n�o sai mais de casa. Das 4 �s 6 da tarde, resolve por telefone e fax problemas burocr�ticos referentes � administra��o de sua obra. A �nica refei��o que faz ao dia � o jantar. Passa suas madrugadas lendo, vendo televis�o ou navegando na Internet. "Somos o oposto um do outro. Ele � a noite e eu, o sol", diz o compositor e produtor Roberto Menescal, o melhor amigo do escritor. Paulo n�o vai ao cinema nem ao teatro. Outro dia cogitou assistir a um show do cantor paraibano Chico C�sar, que ele considera genial. Mas bateu aquela pregui�a. "Ir a um show � um sacrif�cio inumano. S� saio de casa for�ado." Paulo n�o bota o p� na rua nem para cortar os cabelos. Seu barbeiro, Paulinho, o visita de tempo a tempo. Para encarar a rotina dentro de casa, ele conta com um bom argumento: seu apartamento de 380 metros quadrados de frente para o mar de Copacabana. N�o bastasse a metragem privilegiada, quase todas as paredes do im�vel foram derrubadas. O quarto-escrit�rio-banheiro do casal � surpreendentemente despojado. As paredes s�o pintadas de branco � a mesma cor do ch�o �, h� pouqu�ssimos quadros nas paredes e, de m�veis, s� o essencial: cama, mesa, cadeiras, sof�s. Ele n�o gosta de guardar quinquilharias em casa porque acha que d� azar. A �nica exce��o fica por conta da cole��o de isqueiros da marca Camel. Em seu novo livro, Veronika Decide Morrer, j� conclu�do e com lan�amento previsto para o pr�ximo m�s de agosto no Brasil, o escritor Paulo Coelho acerta as contas com um epis�dio de sua juventude. Em 1965, quando tinha 18 anos de idade, ele foi levado pelo pai a uma cl�nica psiqui�trica. O engenheiro Pedro Coelho de Souza, de forma��o r�gida, suspeitava que o filho estivesse com algum problema mental porque o jovem havia repetido de ano duas vezes seguidas, n�o conseguia concentrar-se nos estudos e, para completar, cismara que queria fazer teatro e se tornar escritor. Depois do exame m�dico saiu o diagn�stico: loucura. O passo seguinte foi intern�-lo num hospital psiqui�trico carioca, onde permaneceu um m�s, at� que conseguiu fugir. O pesadelo, no entanto, teria continua��o: no ano seguinte, o pai resolveu intern�-lo de novo. Dessa vez, foram dois longos meses de reclus�o, durante os quais recebia a visita da namorada, uma aspirante a atriz chamada Renata Sorrah. Desesperado, ele fugiu novamente � s� que, em vez de voltar imediatamente para casa, passou v�rios meses viajando pelo Nordeste. Em Veronika Decide Morrer, Paulo Coelho contar� a hist�ria de uma mulher que, a certa altura da vida, � dada como louca. "Fui tido como louco porque queria escrever. Hoje sou um escritor de sucesso. Acho fundamental passar essa mensagem para as pessoas", diz Paulo Coelho. Passado o trauma das interna��es, ele mergulhou de cabe�a num mundo novo: o movimento hippie. Deixou crescer os cabelos, andava sem documentos e experimentou quase todas as drogas. "S� nunca usei hero�na. Custava caro e me dava medo." No final da d�cada de 60, ele foi preso pela primeira vez. Tudo por causa de uma partida de futebol a que foi assistir no Paraguai, pa�s cujo nome n�o suporta, at� hoje, ler, ouvir ou pronunciar. � sua maior supersti��o. O ano era 1969. Paulo Coelho, sua namorada na �poca e mais dois amigos resolveram ir de carro ver um jogo de eliminat�ria da Copa do Mundo. Na volta para casa, os quatro estavam numa pizzaria comemorando a vit�ria do Brasil quando militares armados os levaram presos. Foram tomados como assaltantes de banco. "Eu era hippie, minha namorada, iugoslava e nossos amigos, comunistas. Deu tudo errado", lembra. Ficaram presos durante uma semana e depois liberados. A implic�ncia com o Paraguai tamb�m tem a ver com sua segunda pris�o, em 1974. Ele e Raul Seixas j� eram parceiros musicais, amigos, adeptos da magia negra e viviam muito doid�es. Durante um show de Raul Seixas em Bras�lia, Paulo Coelho caiu na besteira de subir ao palco e falar a favor da anarquia. Corria o regime militar e, na volta ao Rio, Raul foi chamado para depor na pol�cia. Paulo Coelho resolveu ir junto. Antes de sair de casa, vestiu uma camisa que sua m�e lhe havia dado, fabricada no torr�o natal do general Alfredo Stroessner. Trajando sua camisa paraguaia, o futuro escritor foi preso e torturado. Ficou em cana durante um m�s. Dessa experi�ncia, a pior recorda��o foi o dia em que se viu jogado, completamente nu, numa cela escura, com ar-condicionado ligado no m�ximo e na qual reverberava o som agudo de uma sirene. "O lugar era chamado de geladeira. Entrei em p�nico e prometi para mim mesmo que, se sa�sse vivo dali, meus anos loucos terminariam." Longe vai esse tempo sombrio. Hoje, aos 50 anos, Paulo Coelho tem uma fortuna estimada em 11 milh�es de d�lares. O dinheiro de Paulo permite que ele e Cristina vivam com conforto, mas sem ostenta��o. Seu apartamento em Copacabana custou 300.000 d�lares. A mesma quantia foi empatada na reforma do im�vel. A maior parte do dinheiro est� aplicada em investimentos banc�rios de pouqu�ssimo risco. Paulo tem apenas um carro, um Renault 19, preto, sempre conduzido pelo motorista Jos� Carlos. "A primeira provid�ncia que tomei quando ganhei dinheiro foi contratar um motorista. Acho estacionar no Rio de Janeiro desumano", diz o pregui�oso incorrig�vel. Atrav�s do Instituto Paulo Coelho, ele destina 400.000 reais por ano a institui��es infantis e asilos para idosos. � frente do instituto est� Cristina, encarregada de fiscalizar o bom uso do dinheiro. Fen�meno nas livrarias, agora s� falta Paulo Coelho chegar �s telas. Quatro livros de Paulo est�o com seus direitos negociados para adapta��es cinematogr�ficas. O Alquimista pertence aos est�dios Warner Bros., que pagaram 270.000 d�lares pelos direitos de filmagem do livro, uma quantia irris�ria para os padr�es hollywoodianos, e at� agora n�o fizeram um roteiro que agradasse ao escritor. "J� quis o livro de volta, pelo dobro do pre�o, mas n�o consegui", lamenta Coelho. Com a produtora Virgin aconteceu coisa parecida. "Odiei os tr�s roteiros que eles fizeram de O Di�rio de um Mago." O livro As Valk�rias est� nas m�os do produtor Santiago Pozo, do Arenas Group, filiado � Sony. Pozo, que � membro da Academia de Hollywood, quer fazer um filme internacional, claro, mas para os pap�is de Paulo e Cristina � que s�o personagens do livro � o produtor quer atores brasileiros. "Para o meu papel ele disse que est� pensando na Cl�udia Abreu. Para fazer o Paulo, ele pensou em Pedro Cardoso", diz Cristina. Paulo Coelho ri da id�ia. "Devem ser os �nicos atores brasileiros que ele conhece. O Santiago deve ter visto O que � Isso, Companheiro? na disputa pelo Oscar e tirou da� esses nomes", diverte-se. A op��o de compra dos direitos de Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei pertencia, h� dois anos, � bel�ssima atriz francesa Isabelle Adjani. Por um descuido, os advogados dela deixaram de renovar o contrato. Agora, a agente americana do escritor quer vender o livro para a atriz Julia Roberts, que est� interessad�ssima na hist�ria. Paulo Coelho j� fez a sua escolha. "Prefiro a francesa", diz ele. Descartar Julia Roberts, optar por Isabelle Adjani: sucesso � isso. O resto, convenhamos, n�o passa de literatura. |
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