Piano Apimentado                       Veja 17/06/1998
Biografia lan�ada nos EUA apaga a aura rom�ntica do compositor Fr�d�ric Chopin

 
O mito ...
Chopin era um homem rom�ntico e teve um t�rrido relacionamento com a escritora George Sand
Politizado e patriota, dava concertos para arrecadar fundos para sua Pol�nia natal
...e a realidade
O compositor tinha avers�o ao contato f�sico com mulheres e sua rela��o com George Sand era predominantemente intelectual
Mudou-se para Paris n�o por raz�es pol�ticas, mas em busca do sucesso e da vida mundana

Por causa de Hollywood, o compositor polon�s Fr�d�ric Chopin (1810-1849) ficou famoso como grande amante e patriota exemplar. No c�lebre filme � Noite Sonhamos, ele aparece vivendo um t�rrido relacionamento amoroso com a escritora Aurore Dupin, que assinava com o pseud�nimo masculino de George Sand, e dando centenas de concertos para arrecadar fundos para sua Pol�nia natal. Na vers�o das telas, o compositor, tuberculoso, chega a manchar de vermelho o teclado do piano com suas hemoptises durante os recitais. O escritor e jornalista Tad Szulc acaba de lan�ar nos Estados Unidos um livro que destr�i esse mito rom�ntico criado pelo cinema. Chopin in Paris, ainda n�o traduzido para o portugu�s, mostra que o "grande amante" tinha, na verdade, ojeriza a mulheres. O Chopin patriota tamb�m n�o resiste a uma an�lise mais acurada. Segundo o livro, o compositor mudou-se para Paris n�o por persegui��o pol�tica, mas porque achava que a capital cultural da Europa na �poca era o melhor lugar para empinar sua carreira art�stica.

Como o t�tulo sugere, o livro � centrado nos dezoito anos que Chopin viveu em Paris. Ele chegou � cidade em 1831, com 21 anos e duas cartas de apresenta��o na algibeira, e ali morreu aos 39, de tuberculose. Grande parte do charme do livro est� no retrato do meio art�stico franc�s de ent�o, povoado de figuras como o pintor Eug�ne Delacroix, o escritor Honor� de Balzac e compositores como Liszt e Berlioz. Szulc, autor de �timas biografias de Fidel Castro e do papa Jo�o Paulo II, usa sua veia jornal�stica para comparar o mundo art�stico da �poca com o show business atual, mostrando que, nos dois casos, a vida mundana � t�o importante para o sucesso quanto o talento. Carreirista, Chopin era um arroz-de-festa juramentado. Freq�entava todas as reuni�es que podia, dava jantares e bajulava os poderosos. Mesmo demonstrando tend�ncias anti-semitas em suas cartas, procurava manter boas rela��es com a fam�lia Rothschild, uma das mais ricas da Europa. Charmoso e bem-falante, embora um pouco afetado, fazia sucesso com as mulheres, mas tudo indica que seus amores foram todos plat�nicos. Seria Chopin homossexual? Szulc diz que � dif�cil provar, mas inclui no livro trechos de cartas enviadas a um amigo de inf�ncia na Pol�nia que terminam invariavelmente com a frase "beijos molhados em sua boca".

Cafajeste � Uma parte significativa do livro � dedicada ao "casamento" de nove anos entre Chopin e a escritora Aurore Dupin, a George Sand. Al�m de adotar nome masculino, ela gostava de se vestir com roupas de homem e fumava charutos em p�blico. Nos caf�s parisienses, entre uma baforada e outra, gostava de falar de seus amantes de maneira um tanto cafajeste � entre eles o compositor Franz Liszt e os escritores Prosper M�rim�e (autor de Carmen) e Alfred de Musset. Essa mulher de personalidade peculiar foi a �nica companheira duradoura de Chopin. Ou seja, al�m de n�o gostar de sexo, ele tamb�m n�o se opunha �s escapadas da mulher. Por causa de George Sand, uma esquerdista que fazia parte do c�rculo de amigos de Karl Marx, Chopin passou � Hist�ria como um sujeito politizado. Outra mentira. Em 1848, enquanto revolu��es liberais pipocavam pela Europa, e Paris estava cheia de barricadas, Chopin filosofava: "Com essa confus�o, vou perder alunos e diminuir minha renda". Hollywood costuma mostrar compositores como seres iluminados, incompreendidos pelas "pessoas normais". Amadeus, sobre Mozart, e Minha Amada Imortal, a respeito de Beethoven, s�o exemplos recentes dessa mitifica��o (ainda que o primeiro seja um �timo filme). Livros como o de Tad Szulc t�m o m�rito de restituir a dimens�o humana dessas personalidades.
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