Li��o de Estilo Veja 25/03/1998 Manhas e manias que fazem o charme de Frank Sinatra
Em pelo menos seis d�cadas de show business e boemia, Frank Sinatra foi um mestre da eleg�ncia. Esbanjou energia, dinheiro e savoir-faire. Hoje, aos 82 anos, adoentado e com freq�entes interna��es em UTI, na certa deixou alguns, sen�o todos os prazeres que desbragadamente cultivou enquanto estava no auge. Mas nem por isso deixou de ser sin�nimo de estilo. Quem quiser saber como o "Velhos Olhos Azuis" escolhia e lidava com suas roupas e bebidas, bares e restaurantes, mulheres e amigos disp�e agora de um bom guia, assinado pelo jornalista Bill Zehme: Frank Sinatra � A Arte de Viver (Ediouro; tradu��o de Ricardo Silveira; 256 p�ginas; 39 reais � com direito a um CD).
Os bi�grafos de Sinatra n�o resistem � tenta��o de batizar seus livros com palavras das can��es imortalizadas por ele. Kitty Kelley, sua mais pol�mica e fofoqueira bi�grafa, apelou para My Way. Will Friedwald, autor de seu mais alentado perfil musical, escolheu The Song Is You. Zehme, o �ltimo a entrar em cena, optou, no original em ingl�s, por The Way You Wear Your Hat � "como voc� usa o chap�u". Sem d�vida, trata-se de um t�tulo adequado ao seu projeto, ainda que o livro n�o se limite a contar como Sinatra preferia usar seus Cavanaugh. Redigindo mais um perfil do que um relato de vida, o articulista da revista Esquire preocupou-se em celebrar a maneira como Sinatra fez o que fez. A bem dizer, biografou a sensibilidade do cantor. E da melhor maneira: com informa��es de coxia sobre quase tudo que os f�s gostariam de saber a respeito de seus h�bitos.
A que horas costumava ir para a cama? Com o sol raiando. Bebida favorita? O bourbon n�mero um da Am�rica, Jack Daniel's. A marca do seu cigarro? J� foi Lucky Strike, Chesterfield e Camel, sempre sem filtro, nunca tragados e s� acesos depois que a noite cai. Quando variava de �lcool, submetia a vodca Stolichnaya ao mesmo ritual do Jack Daniel's: tr�s ou quatro cubos de gelo, dois dedos do precioso l�quido e outro tanto de �gua. Nas refei��es, os vinhos tintos, sempre franceses ou italianos (Petrus, Mouton Rothschild e Gaja), eram os mais pedidos. Na hora do brinde, nada de "sa�de!" ou clich� similar. Erguendo a ta�a, dizia sempre, em italiano, "cent'anni!", que era at� quando gostaria que os presentes vivessem.
Fiel como um c�o aos amigos, rom�ntico e atencioso � moda antiga com as mulheres, generoso at� com desconhecidos, ind�cil, explosivo, destemido (o medo, segundo ele, "� o inimigo da l�gica"), avesso a drogas (brigou com seu cupincha Sammy Davis Jr. quando este se entregou � coca�na), racistas, delatores, avarentos, jornalistas bisbilhoteiros, moedas e fragr�ncias intensas (col�nia Aramis, nem pensar), Sinatra detesta ficar sozinho e � quase t�o obcecado com limpeza e arruma��o quanto o personagem de Jack Nicholson no filme Melhor � Imposs�vel. Ele pr�prio admite: "Sou um homem fanaticamente sim�trico".
Seus closets est�o sempre nos trinques, com ternos impecavelmente guardados (tinha 150 em 1960) e duas gavetas s� para abotoaduras. Sua patol�gica repulsa � sujeira o obriga a tomar no m�nimo dois banhos por dia, trocar de cuecas at� quatro vezes e trazer no bolso apenas c�dulas novinhas. Apesar de suas esquisitices, conquistou mais mulheres do que Casanova. Tantas foram que seu parceiro Dean Martin sugeriu a doa��o do z�per do cantor ao museu Smithsonian, uma das mais prestigiadas institui��es americanas. |