Ardido como Pimenta Veja 25/03/1998 Tudo o que voc� queria saber sobre Kennedy e sempre teve vergonha de perguntar
Horas depois do assassinato do presidente americano John Kennedy, em novembro de 1963, seu irm�o Bob correu para esvaziar os arquivos do presidente na Casa Branca. A preocupa��o do primeiro-irm�o, escreve Seymour Hersh em O Lado Negro de Camelot (L&PM Editores; tradu��o de Betina Becker e L�cia Brito; 510 p�ginas; 29 reais), era evitar que ca�ssem nas m�os do sucessor, Lyndon Johnson, segredos verdadeiramente explosivos: a exist�ncia de uma esposa anterior a Jackie, elei��es fraudadas com a ajuda da m�fia, o hist�rico de s�rios problemas de sa�de, incluindo doen�as ven�reas. A vida secreta inclu�a a participa��o ativa de John Kennedy no assassinato do l�der sul-vietnamita Ngo Dinh Diem e nas tentativas da CIA para matar Fidel Castro com a ajuda (outra vez) da m�fia. Havia tamb�m � e sobretudo � um registrad�ssimo vaiv�m de amantes na Casa Branca.
Lan�ado no ano passado nos Estados Unidos, com estardalha�o, o livro de Hersh inaugura a en�sima onda de interesse editorial por Kennedy, Jackie e seus amigos � a Camelot do t�tulo, uma refer�ncia ao mito do rei Arthur que passou a designar o clima de sonho em que vivia a "realeza" americana. Depois de morto, Kennedy foi entronizado como her�i at� que, na d�cada seguinte, os revisionistas puseram-se a trombetear seus pecados. Em 1993, os trinta anos do assassinato foram saudados com uma enxurrada de teses conspirat�rias. A morte de Jacqueline Onassis, em 1994, reacendeu a curiosidade por ela e seu primeiro marido, acarretando uma onda de saudosismo rom�ntico que os mais espertos est�o transformando em dinheiro, como se constata pelo sucesso do leil�o de objetos pessoais do casal, realizado na semana passada, em Nova York.
O mito de Camelot pode ser atribu�do � morte tr�gica, ao glamour e � juventude de John Kennedy � bem como ao fato de ele simbolizar o per�odo hist�rico crucial em que come�aram a luta contra a discrimina��o racial e a revolu��o dos costumes nos Estados Unidos. Hersh sustenta, no entanto, que as fraquezas pessoais de Kennedy limitaram sua capacidade de cumprir os deveres de presidente. N�o � o �nico com essa opini�o, mas nunca antes um autor de prest�gio tinha escrito sobre o assunto com tantos detalhes e igual agressividade.
Revirar a sujeira dos poderosos � a especialidade de Hersh, um dos rep�rteres investigativos mais conhecidos de sua gera��o. Quase trinta anos atr�s, foi ele quem revelou o massacre de My Lai, cometido por soldados americanos no Vietn� do Sul. Valeu-lhe o Pr�mio Pulitzer, o mais importante do jornalismo de seu pa�s. Tamb�m provou que a CIA andava espionando dentro de casa e virou best-seller com um livro sobre os bastidores do governo Richard Nixon. O Lado Negro de Camelot, no entanto, est� longe de ter o mesmo poder de fogo dos livros anteriores.
Hersh est� para a vida do presidente como Oliver Stone, o cineasta de JFK, est� para sua morte. Seu livro � um comp�ndio de esc�ndalos sexuais e conspira��es de bastidor � a perfeita receita do sucesso editorial. Certa ocasi�o, conta Hersh, Kennedy escapou por um triz de ser surpreendido pela primeira-dama com duas mulheres nuas na piscina. Visto que sua amante Judith Campbell Exner tamb�m namorava o chef�o Sam Giancana, o presidente a usou como intermedi�ria nas transa��es com a m�fia. Outra namorada, Ellen Rometsch, com livre acesso � Casa Branca, era espi� da Alemanha Oriental.
O autor diz ter trabalhado durante cinco anos e feito mais de 1.000 entrevistas. O problema � que a carreira pol�tica e a vida privada do presidente t�m sido impiedosamente vasculhadas desde os anos 70, deixando pouca coisa nova para ser contada. J� se sabia que o imensur�vel apetite sexual n�o permitia ao presidente gal� ficar a seco um s� dia. A presen�a de uma espi� na cama presidencial foi revelada numa investiga��o do FBI. O que Hersh tinha de exclusivo e sensacional � documentos provando que Kennedy pagou 600.000 d�lares pelo sil�ncio da atriz Marilyn Monroe � revelou-se uma fraude e foi retirado do livro dois meses antes do lan�amento nos Estados Unidos. Permaneceu o j� sabido: a musa namorou o presidente e cantou um t�rrido Parab�ns a Voc� em seu anivers�rio. Em outras palavras, O Lado Negro de Camelot � como uma boa reportagem � o tipo de livro que se atravessa de um f�lego s�. Mas n�o se deve acreditar em tudo que se l�. |