Vida sem Disfarce                               Veja 04/11/1998
Casal gay em consulado israelense ilustra experi�ncia de homossexuais em cargo p�blico

Vice-c�nsul Yanouka
e Goldstein:
com aprova��o oficial
para vida de casal








Sui Generis n�o � o tipo de publica��o que se espera ver circulando abertamente em institui��es judaicas. Na semana passada, contudo, a revista dirigida ao p�blico homossexual tornou-se assunto quente entre os judeus do Rio de Janeiro. O motivo s�o tr�s p�ginas de conversa franca na edi��o que est� nas bancas, nas quais o vice-c�nsul de Israel na cidade, Yitzhak Yanouka, discorre sobre sua experi�ncia homossexual. O consulado chegou a receber alguns telefonemas de protesto � mas s� os desavisados foram pegos de surpresa pela franqueza do vice-c�nsul. N�o apenas o servi�o diplom�tico israelense, mas as For�as Armadas e at� o Mossad, o servi�o secreto, aceitam funcion�rios abertamente homossexuais. Yanouka, 33 anos e diplomata em sua primeira miss�o no exterior, vive h� cinco anos com um companheiro, Mikie Goldstein. Tr�s anos atr�s, quando o destacou para o Brasil, o Minist�rio das Rela��es Exteriores de Israel aceitou que Goldstein viesse junto, na condi��o de c�njuge.

Atitudes como essa colocam o Estado de Israel entre os pa�ses mais liberais na aceita��o de homossexuais no servi�o p�blico. "A pol�tica do governo em rela��o a seus funcion�rios � de n�o discrimina��o", garante o porta-voz do Minist�rio das Rela��es Exteriores de Israel, Aziz Shir On. "Assumir-se facilita a vida profissional no corpo diplom�tico e evita chantagens", disse Yanouka na entrevista pol�mica. Nem sempre foi assim. A religi�o judaica v� o homossexualismo como um pecado b�blico e at� recentemente a lei civil o considerava crime. As mudan�as, nesta d�cada, refletem a tend�ncia liberal de parte da sociedade israelense. Ocorreram, sobretudo, por press�o dos lobbies gays organizados e em raz�o dos processos judiciais por discrimina��o contra �rg�os estatais. No caso de maior repercuss�o, o companheiro de um coronel morto em 1991 obteve na Justi�a pens�o por viuvez.

A embaixada em Bras�lia mostra desconforto com a s�bita evid�ncia do vice-c�nsul. N�o se confirmou, contudo, o temor de maiores protestos na comunidade judaica. "N�o � o caso de se pedir sua expuls�o", diz o rabino Avraham Beuthner, que n�o tem nada de moderninho. "O homossexualismo � uma doen�a. O doente precisa ser tratado, n�o perseguido." A presen�a de gays assumidos na pol�tica e na diplomacia � um tema que convulsiona a quest�o dos direitos dos homossexuais. O debate ocorre em diversos pa�ses do mundo, incluindo o Brasil, onde o Congresso Nacional adia h� mais de dois anos a vota��o de um projeto que permite a uni�o civil de homossexuais.

Duas semanas atr�s, o Senado dos Estados Unidos vetou a nomea��o do milion�rio James Hormel para a embaixada em Luxemburgo. O cargo no microsc�pico ducado europeu n�o tem relev�ncia, mas Hormel teria sido o primeiro embaixador americano assumidamente gay. Na semana passada, foi a vez de um ministro ingl�s, Ron Davies, perder o cargo depois de ser roubado dentro do pr�prio carro por desconhecidos que conheceu num not�rio ponto de encontro de homossexuais em Londres. Secret�rio do Pa�s de Gales, estrela em ascens�o no Partido Trabalhista, casado e pai de uma adolescente, Davies pediu demiss�o e diz que decidiu passear no parque, � noite, por se sentir "estressado". O epis�dio bizarro d� raz�o ao israelense Yanouka quando diz que, em fun��es p�blicas, corre menor risco o gay assumido.
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