Uma F�bula Gay Veja 07/06/2000 Soldado assassinado por ser homossexual namorava um transexual. Deu confus�o
Addams: capa da New York Times Magazine
Em julho de 1999, numa base militar do Estado americano de Kentucky, o recruta Barry Winchell, ent�o com 21 anos, foi assassinado por dois companheiros de quartel. A pol�cia n�o demorou a dizer que o crime era resultado de uma briga por motivos f�teis. Mas um grupo gay, ao ser informado do caso, desconfiou de conclus�o t�o r�pida e contratou uma advogada para acompanhar o processo. Ela descobriu que Winchell havia sido morto por ser homossexual. O recruta assassinado tornou-se, assim, um m�rtir � e os ativistas da causa gay puderam divulgar aos quatro ventos que o crime do qual o recruta fora v�tima era uma clara viola��o da lei que se popularizou com o quilom�trico nome de "N�o pergunte, n�o conte, n�o persiga, n�o moleste". Implementada pela Casa Branca em 1994, essa lei abriu as For�as Armadas do pa�s aos homossexuais assumidos, proibindo qualquer tipo de discrimina��o e arbitrariedade contra eles. Simples? Nem tanto. Durante o julgamento dos assassinos de Winchell, os recrutas Calvin Glover e Justin Fisher, um fato novo veio � tona. O namorado de Winchell era, na verdade, ela. Ou melhor, tratava-se de um transexual: Calpernia Sarah Addams, de 29 anos.
Romance firme � Em p�blico, apenas a voz grave e os ombros largos denunciam sua masculinidade. Na intimidade, por�m, seus atributos n�o s�o nada femininos. Calpernia afirma que ainda n�o fez a cirurgia de troca de sexo por falta de dinheiro (uma opera��o do g�nero custa 15.000 d�lares). Tirado de um personagem do filme A Fam�lia Addams, o pseud�nimo serve para encobrir a identidade que n�o revela de jeito nenhum. Sua hist�ria vem alimentando um debate. Afinal de contas, Winchell podia ser considerado um homossexual t�pico pelo fato de namorar um transexual? A quest�o parece t�o bizantina quanto a que surgiu na ocasi�o em que o presidente Bill Clinton se viu amea�ado de sofrer impeachment por causa de suas travessuras com Monica Lewinsky � aquela sobre se sexo oral era ou n�o sexo. Pelo sim, pelo n�o, para evitar que a condi��o do recruta morto fosse posta em d�vida durante o julgamento de seus assassinos, os ativistas gays trataram de convencer Calpernia a dizer que ela era ele. Em mem�ria de Winchell, o transexual aceitou ser apresentado como homem no tribunal. Terminado o julgamento, Calpernia sentiu-se abandonado pelos militantes gays que antes o cercavam de cuidados. Ressentido, resolveu dar uma entrevista a um jornalista da New York Times Magazine, na qual exp�s sua triste situa��o. "Se eu fosse um louro musculoso, provavelmente as coisas seriam diferentes", disse. O transexual j� n�o sabe que caminho seguir. At� a morte de Winchell, ele estava estruturando sua personalidade no sentido de dar-lhe um car�ter eminentemente feminino. A cirurgia de troca de sexo, caso conseguisse o dinheiro, seria apenas o corol�rio de um processo ps�quico profundo. Agora, tudo ficou mais dif�cil. "S� queria ser a namorada de Barry", lamenta. "E at� isso foi tirado de mim."
O transexual Calpernia Addams e Glover (algemado): hist�ria de intoler�ncia
Calpernia entrou na vida de Winchell poucos meses antes de ele ser morto. Em mar�o de 1999, na companhia de Justin Fisher, seu companheiro de alojamento, Barry Winchell foi a um bar gay de Nashville. L� ele conheceu Calpernia, por quem se apaixonou � primeira vista. Os dois engataram um romance firme, no qual era grande a confus�o de pap�is � Winchell reconhecia sua condi��o homossexual, mas referia-se ao transexual como "namorada". Enciumado, Fisher, um gay enrustido com fixa��o por roupas femininas, denunciou a seus superiores a exist�ncia de um homossexual em Fort Campbell. Violando a lei do "N�o pergunte, n�o conte", oficiais de alta patente levaram a cabo uma investiga��o que apontou para Winchell. O recruta passou, ent�o, a ser hostilizado abertamente. A vingan�a de Fisher podia dar-se sem problemas. Sempre ao lado de Calvin Glover, um alco�latra, ele gostava de insultar Winchell. Em julho, este se irritou com as provoca��es e deu uma surra em Glover. Em resposta, Glover aproveitou que o recruta dormia e, com um taco de beisebol, desferiu seis golpes em sua cabe�a. Winchell morreu sem chance de defender-se.
O recruta Barry Winchell: espancado com um taco de beisebol enquanto dormia
Glover foi condenado � pris�o perp�tua, enquanto Justin Fisher, que limpou o sangue da cena do crime, pegou doze anos de reclus�o. Independentemente da discuss�o em torno de Calpernia, os ativistas gays conseguiram chamar mais uma vez a aten��o para o aumento de ataques contra homossexuais dentro das For�as Armadas americanas. Em 1997 foram registrados 182 casos de agress�o contra gays nos quart�is do pa�s. No ano seguinte, as viol�ncias mais que dobraram. Foram reportados 400 casos de ataques a homossexuais. Uma pesquisa revelou que 80% dos soldados entrevistados j� haviam presenciado algum tipo de coment�rio depreciativo contra gays. O pr�prio presidente Bill Clinton, que elaborou a lei "N�o pergunte, n�o conte", reconhece que ainda falta muito para conter a intoler�ncia dos militares. Infelizmente, tudo indica que Winchell n�o ser� a �ltima baixa homossexual entre o pessoal do quepe. |