Tripla a��o Veja 18/08/2004 O governador de Nova Jersey pula a cerca, sai do arm�rio e renuncia McGreevey depois do discurso: mulher sorridente, pai (� dir.) constrangido
No fim da semana, um furac�o se formava no Oceano Atl�ntico e amea�ava abater-se sobre a costa leste dos Estados Unidos. No Estado de Nova Jersey, grudado de um lado em Nova York e de outro no mar � na rota, portanto, da intemp�rie �, ningu�m estava ligando. L�, s� se falava em outro turbilh�o: a atitude tomada pelo governador democrata James McGreevey, que num discurso de seis minutos transmitido em rede nacional pelas TVs anunciou, de um f�lego s�, que 1) � gay; 2) teve um caso com outro homem; e 3) decidiu renunciar ao cargo a partir de 15 de novembro. Encerrado o pronunciamento, McGreevey deu a m�o � segunda mulher, a sorridente Dina Matos, com quem tem uma filha de 2 anos (tem outra, de 12, com a primeira mulher, que mora no Canad�), e, acompanhado do pai, Jack (ex-fuzileiro naval e cara de total constrangimento), e da m�e, Ronnie, foi embora sem falar com ningu�m. At�nitos, rep�rteres e assessores que lotavam o pr�dio do governo na capital, Trenton, tentavam digerir as revela��es.
Elas come�aram l� pelo meio do curto discurso. "Chega um ponto na vida da pessoa em que ela tem de olhar fundo no espelho da alma e decifrar sua verdade no mundo � n�o como a desejamos, ou esperamos, mas como � de fato. E a minha verdade �: sou um americano gay." E mais adiante: "Estou aqui hoje porque, vergonhosamente, mantive um relacionamento adulto e consensual com outro homem, o que viola os la�os do matrim�nio. Foi errado. Foi est�pido. Foi indesculp�vel". E por fim: "Dadas as circunst�ncias que cercam o relacionamento e seu prov�vel impacto sobre minha fam�lia e minha capacidade de governar, decidi que o caminho certo � a ren�ncia. Para facilitar a transi��o, ela entrar� em vigor em 15 de novembro deste ano". Nos c�rculos pr�ximos ao governo estadual, havia muito se comentava sobre a conduta sexual do governador, mas, para o eleitorado em geral, foi absoluta surpresa. "Ningu�m imaginava", disse a VEJA a brasileira Silvia Schottinger, que mora em Nova Jersey h� vinte anos. "Na propaganda do governo, ele aparecia com a mulher e a filhinha e a frase 'Um homem de fam�lia'", conta.
McGreevey assumiu o cargo em 2002 e ainda tinha um ano e meio de mandato pela frente. No pr�prio dia da posse, j� mexia os pauzinhos para entronizar em uma sala no 2� andar da sede do governo aquele que seria o piv� da crise: o israelense Golan Cipel, 35 anos, ex-soldado, ex-rela��es-p�blicas, poeta nas horas vagas, uma figura meio misteriosa que ele conheceu em visita a Israel dois anos antes e que cismou de nomear encarregado da seguran�a antiterror. A nomea��o de Cipel n�o emplacou, visto que suas credenciais para o cargo, exaltadas em um curr�culo preparado pelo gabinete do governador, eram na verdade praticamente nulas. McGreevey fez dele ent�o seu assessor pessoal, com sal�rio de 110.000 d�lares por ano, e assim permaneceu por oito meses, quando a falta de uma fun��o definida � e a boataria incessante nas reparti��es � o obrigou a sair. McGreevey, imp�vido ombro amigo, ainda lhe deu refer�ncias para outros dois empregos.
Dias antes da ren�ncia, funcion�rios do governo de Nova Jersey alertaram o FBI para o fato de que Cipel, que andara amea�ando abrir um processo de ass�dio sexual contra o governador, agora estava pedindo 5 milh�es de d�lares para p�r uma pedra no assunto. Na sexta-feira, por interm�dio de um advogado, Cipel virou a hist�ria: disse que ele � que foi v�tima de "insistentes avan�os sexuais" de McGreevey, e que ele � que recebeu uma proposta em dinheiro para ficar calado. Quanto a abrir o processo, foi enigm�tico: "O tempo dir�". Sup�e-se que, entre dois megaesc�ndalos, McGreevey tenha optado pelo menor � ou, pelo menos, o que veio acompanhado de mea-culpa. Pessoalmente dolorosa, como certamente foi, a atitude do governador tem vertentes pol�tico-partid�rias. A come�ar por Cipel, boa parte de suas nomea��es foi alvo de cr�ticas; dois secret�rios, do Com�rcio e da Justi�a, e o chefe de pol�cia tiveram de se afastar, acusados de abuso de poder e neg�cios escusos. Dois grandes financiadores de sua campanha est�o sob investiga��o, um deles por tentativa de extors�o (uma fita gravada enredaria o pr�prio governador no caso). Como anotou o The New York Times em seu editorial: "No turvo ambiente pol�tico que o cerca, ser gay pode ser o menor dos problemas de McGreevey". |