O Segredo de Hitler                         Veja 10/10/2001
Em O Segredo de Hitler, um historiador alem�o defende a tese de que o f�hrer era gay. Ind�cios (picantes) n�o faltam


Hitler: o ditador nazista teria sido garoto de programa















A id�ia de que o ditador nazista Adolf Hitler tinha algo de homossexual n�o � novidade. Suas poses em fotografias, seus trejeitos, seu bigode e seu chicote � tudo isso j� foi visto como ind�cio de uma "inclina��o homoer�tica". Muitos escritores registraram suas suspeitas de maneira clara. "Hitler n�o desprezou as mulheres, mas preferiu mil vezes o jeito m�sculo dos rapazes", escreveu o alem�o Heinrich Mann, para ficar num exemplo s�. Entre os bi�grafos e historiadores, contudo, esse tipo de diagn�stico sempre foi tratado com desconfian�a. A principal causa disso � a escassez de documentos que sirvam de prova. Hitler resguardou como p�de sua vida privada. Enquanto esteve no poder, mandou apreender e destruir in�meros pap�is referentes a si, o que tornou dif�cil fazer afirma��es categ�ricas sobre sua intimidade. Dif�cil, mas n�o imposs�vel � � o que argumenta o historiador alem�o Lothar Machtan, que lan�a nesta semana O Segredo de Hitler (tradu��o de Kristina Michahellis; Objetiva; 352 p�ginas; 37,90 reais). Machtan explora a fundo, pela primeira vez, a sexualidade do l�der nazista. Para tanto, re�ne depoimentos que nunca receberam muita aten��o dos especialistas e procura submet�-los a um escrut�nio rigoroso. Machtan acaba convencido de que Hitler foi para a cama com homens a partir da adolesc�ncia, e que aprendeu a sublimar seus desejos na d�cada de 30. Mais do que mera curiosidade biogr�fica, esse fato ajudaria a explicar passos fundamentais de sua carreira.

Hitler nasceu em 1888. O primeiro cap�tulo do livro cobre o per�odo que vai de 1905 a 1914, quando ele tentou viver como artista em Viena e Munique. A tese de Machtan sobre essa fase � forte: para sustentar-se, Hitler teria virado garoto de programa. Com talento escasso para a pintura e pouco dinheiro no bolso, ele morava em albergues not�rios pela concentra��o de homossexuais. Percorria as ruas com suas aquarelas debaixo do bra�o, tentando chamar a aten��o de homens mais velhos e endinheirados, com quem depois se deitaria. "Tudo indica que Hitler n�o oferecia apenas sua obra, mas a si pr�prio", diz Machtan. Nessas p�ginas iniciais, o autor tamb�m prop�e uma solu��o para um antigo enigma: a origem do anti-semitismo de Hitler. Como ele pr�prio declarou mais tarde, esse sentimento o acometeu pela primeira vez em 1907. Ora, observa Machtan, foi exatamente nesse ano que a imprensa judaica de Viena dispensou tratamento raivoso a um caso de den�ncia homossexual, o que ensejou a ira e a avers�o do jovem Adolf. Deve-se dizer, no entanto, que as fontes do autor para esse per�odo n�o s�o das melhores. Ele se ap�ia em relatos de amigos de Hitler, como August Kubizek ("Gustl" na intimidade) e Reinhold Hanisch, que dividiram alojamento com ele e teriam sido seus amantes. Tudo que esses depoimentos oferecem s�o insinua��es. Nada definitivo.

O material esquenta nos cap�tulos seguintes. Machtan apresenta personagens que foram bem mais expl�citos a respeito da sexualidade de Hitler. O primeiro � o soldado Hans Mend, companheiro de Hitler no Ex�rcito alem�o durante a I Guerra Mundial. Em 1932, Mend publicou um livro que deveria ter servido � propaganda do l�der nazista, ent�o em plena ascens�o, mas acabou n�o agradando. Enfurecido por ter sido colocado de escanteio, Mend amea�ou revelar velhos segredos. Fez uma aposta arriscada � e perdeu. A partir de 1933, Hans Mend foi perseguido pela Justi�a alem�. Morreu na pris�o nove anos mais tarde. Como era de esperar, a documenta��o oficial sobre ele sumiu. Mas um dossi� se salvou em duas c�pias, hoje depositadas no Arquivo Central da Baviera e no Instituto para Hist�ria Contempor�nea de Munique. O chamado Protocolo Mend pinta um retrato negativo do cabo Hitler na I Guerra: bajulador, dissimulado, hip�crita. Sem rodeios, ele aborda a quest�o sexual. "Observ�vamos que ele nunca olhava para as mulheres. Desde o in�cio suspeitamos que fosse homossexual, pois tinha fama de anormal. Era extremamente exc�ntrico, revelando tra�os efeminados", diz o texto. Hitler tinha um companheiro insepar�vel em seu regimento, Ernst Schmidt � ou Schmid, seu apelido carinhoso. Mend se refere a esse homem como "queridinho" e "prostituta masculina" do futuro chanceler do III Reich.

Outras fontes importantes para Machtan s�o o diplomata Eugen Dollman e o escritor Erich Ebermayer. Dollman foi representante alem�o na It�lia. Serviu ao f�hrer como int�rprete nos encontros que esse manteve com o ditador fascista Benito Mussolini. Em 1949, publicou um livro de mem�rias que menciona a homossexualidade de Hitler logo nas primeiras p�ginas. Entre as recorda��es, inclui-se a de um jantar com o general Otto von Lossow, pouco depois de ele haver desbaratado o golpe de Estado que os nazistas tentaram dar no come�o dos anos 20. Lossow teria mostrado aos convivas um relat�rio secreto que guardava para defender-se contra poss�veis repres�lias. Segundo Dollman, eram v�rias p�ginas com depoimentos de jovens pobres que haviam sido abordados na rua por Adolf Hitler, levados para jantar em pequenos restaurantes, instru�dos a respeito dos ideais nazistas e depois convidados a passar a noite em seu quarto. Ao contr�rio de Dollman, Erich Ebermayer n�o teve contatos pessoais freq�entes com Hitler, mas conhecia bem pessoas de seu grupo. Filho de uma fam�lia tradicional, era homossexual e nunca se preocupou em esconder o fato. Falou sobre a intimidade do ditador nas p�ginas de um di�rio pessoal que publicou em 1959. "Para todos aqueles que est�o por dentro dos fatos, Rudolf Hess � mais conhecido nos c�rculos do partido como 'preta Emma' � foi por muitos anos amigo �ntimo do f�hrer. Meus informantes, que s�o totalmente confi�veis, enfatizam com orgulho a tend�ncia homoer�tica do f�hrer e de seu c�rculo mais pr�ximo. O pr�prio n�o est� mais vivendo sua op��o depois que a pol�tica passou a absorver cada vez mais suas for�as. S� de vez em quando, nas viagens de carro entre Berlim e Munique, ele tem a oportunidade de relaxar", registra o autor numa anota��o de 1933.

Os cap�tulos mais importantes do livro de Machtan, contudo, s�o aqueles dedicados ao relacionamento entre Hitler e Ernst R�hm. Militar de carreira, esse �ltimo j� tinha um alto posto no Ex�rcito alem�o na I Guerra Mundial. Era um homem influente quando conheceu Hitler, em 1919. Encantou-se com sua orat�ria e resolveu incentiv�-lo a ingressar na vida p�blica. Conforme observou um contempor�neo, foi R�hm quem "cal�ou as botas em Hitler e o colocou em marcha". Enquanto ele galgava os degraus da carreira pol�tica, R�hm tratava de ganhar a lealdade do Ex�rcito alem�o. Tornou-se o grande l�der da tropa regular nazista (a SA, que se contrapunha � SS, a tropa de elite). Os dois entrariam em rota de colis�o. Em junho de 1934, pouco depois de Hitler ser eleito chanceler, R�hm foi executado. Juntamente com ele, dezenas de correligion�rios e opositores do regime foram eliminados. O epis�dio � interpretado nos livros sobre a II Guerra como resultado de uma luta interna pelo poder. Segundo Machtan, � preciso levar em conta a quest�o da homossexualidade nos c�rculos nazistas para entender de maneira completa os acontecimentos.

A tese do historiador � a de que Hitler, que havia tempos hesitava entre a arte e a pol�tica, s� optou por essa �ltima porque encontrou em R�hm um modelo e, em seu grupo de militares, um ambiente onde se sentia � vontade. Homossexual declarado, R�hm professava o ide�rio do escritor Hans Bl�her, autor de textos sobre o "fen�meno er�tico" que estiveram em voga no come�o do s�culo. Pode-se dizer que esses textos faziam apologia do amor na caserna. Defendiam a id�ia de que o afeto entre amigos, no interior de agremia��es masculinas, ajudava a forjar her�is e l�deres carism�ticos. Machtan demonstra que esse ide�rio foi muito influente nos prim�rdios do nazismo. "Erotismo e sexualidade entre homens carregados de ideologia foram pedras angulares da cultura fascista no per�odo pr�-1933", escreve ele. Depois da ascens�o de Hitler ao poder, por�m, o quadro pol�tico se complicou. No interior do governo formaram-se grupos opostos: R�hm de um lado, Himmler e Goebbels do outro. N�o demorou para que as inclina��es de R�hm fossem usadas contra ele. Durante algum tempo, Hitler procurou equilibrar-se nessa briga. Finalmente, postou-se contra o antigo mentor. Os assassinatos de 1934, e o de R�hm em particular, foram justificados como meio de expelir do partido seus quadros "degenerados". A partir dessa data, a persegui��o aos homossexuais passou a fazer parte do programa nazista.

Machtan reconhece que essa persegui��o parece um obst�culo � sua teoria de um "Hitler gay". S� � primeira vista, afirma ele. Em primeiro lugar, a lei alem� de repress�o � homossexualidade n�o foi inven��o nazista. Constava de muito antes no C�digo Penal e perdurou at� 1969. Em segundo lugar, n�o se pode falar em holocausto gay como se fala de holocausto judeu. A elimina��o n�o foi nem de longe t�o sistem�tica. Homossexuais influentes, com liga��es no partido nazista, foram poupados. O j� citado Erich Ebermayer � um exemplo. Al�m disso, Hitler nunca se manifestou abertamente contra a homossexualidade. Os discursos mais �cidos sobre o tema foram feitos por outros, como Himmler. Se ele concordou com a ca�a �s bruxas de 1934, foi por instinto de autopreserva��o. H� ind�cios de que R�hm tentou usar suas informa��es sobre a intimidade do f�hrer para chantage�-lo. Para consolidar seu poder e livrar-se desse embara�o, Hitler o sacrificou. Tamb�m passou a sublimar a pr�pria sexualidade. Voltou para dentro do arm�rio. O namoro dos anos seguintes com a vendedora Eva Braun n�o seria mais que uma farsa conveniente. Nesse ponto os bi�grafos s�o un�nimes: nunca houve sexo entre eles.

FINAL ROM�NTICO

O colega de alojamento Gustl: supostos amantes

"Estava com pena de Adolf � suas roupas de baixo completamente encharcadas, ele tiritava de frio. Peguei um dos panos, abri-o sobre o feno e disse a Adolf para tirar a camisa molhada e a cueca e se enrolar nele. Foi o que ele fez. Nu, Adolf deitou-se sobre o tecido. Juntei as pontas e o envolvi firmemente. Depois, peguei um outro pano para cobri-lo. Ent�o me deitei ao lado dele. Adolf n�o fazia quest�o que houvesse mais algu�m ali. Divertia-se com a nossa aventura e aquele final rom�ntico lhe agradava bastante. Afinal, est�vamos bem quentinhos."

Depoimento de August Kubizek, em O Segredo de Hitler

"Desde o in�cio, suspeitamos que fosse homossexual. Era extremamente exc�ntrico, revelando at� mesmo tra�os efeminados. Nunca tinha um prop�sito claro ou convic��es firmes. Em 1915, est�vamos alojados na cervejaria Le Febre, em Fournes, onde dorm�amos sobre feno. Hitler costumava passar as noites com Schmidt, sua prostituta masculina. Certa vez, ouvimos um ru�do no feno. Um de n�s acendeu a lanterna e grunhiu: 'Vejam s� aquelas duas'. De outra vez eu estava com uma garota no Caf� Rathaus quando entrou 'Adi' com seu amigo Schmidt. Hitler me abordou: 'Ol�, voc� sabe onde posso encontrar um lugar para dormir?' Minha garota reclamou: 'Se voc� se d� com esse tipo de gente, n�o fico mais com voc�.' "

Depoimento de Hans Mend

"Os �xitos de R�hm n�o se deviam apenas � sua fama como oficial competente, mas tamb�m � sua pol�tica de administra��o de pessoal. As posi��es-chave dentro da SA eram ocupadas preferencialmente por homossexuais, que convidavam amigos para ocupar outros cargos. Em pouco tempo a SA ganhou fama de ser uma associa��o homossexual. Em entrevista h� alguns anos o cr�tico de arte Christian Adolf Isermeyer recordou-se: 'Conheci tamb�m gente da SA. Em 1933 ainda promoviam festas ruidosas em Berlim. Estive numa delas. A festa era bem-comportada, mas totalmente gay, s� havia homens. A SA era hipergay naquela �poca'. A inclina��o homoer�tica da SA acabou por se tornar um flanco aberto para a dire��o do partido, alvo f�cil para advers�rios pol�ticos."
Trecho de O Segredo de Hitler
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