Jefferson ou J�ssica?                Veja 01/12/1999
Ele saiu da cidadezinha mineira como homem, voltou mulher e virou celebridade


J�ssica, de volta a Inconfidentes:
champanhe e flores na recep��o 










Inconfidentes, no sul de Minas Gerais, � uma cidadezinha t�pica do interior do Brasil. Tem 6.000 habitantes, ruas de paralelep�pedos e uma igreja em frente � pra�a central. Na semana passada, seus moradores deram um exemplo de civilidade. Reuniram-se para receber de bra�os abertos, em clima de festa, o cabeleireiro Jefferson Leandro Dal�, de 23 anos, que retornava de Belo Horizonte, onde se submeteu a uma cirurgia de mudan�a de sexo. Saiu como homem e, um m�s depois, voltou como mulher. Foi o �ltimo passo numa virada que come�ou h� cinco anos, quando Jefferson adotou o nome J�ssica e assumiu de vez sua por��o mulher. Era uma por��o enorme. Na chegada de J�ssica, toda orgulhosa num vestido novo, uma pequena multid�o de amigos e curiosos se aglomerou na porta do sal�o de beleza de sua m�e para recepcionar a conterr�nea. Andando com dificuldade por causa da cirurgia, ela desfilou pelas ruas da cidade como uma estrela. "Se antes j� fazia sucesso, agora v�o chover homens em sua horta", previu Jarbas Massari, comerciante e morador de Inconfidentes h� 44 anos, com aquela simplicidade interiorana que faz o encanto das pequenas cidades do sul mineiro.

Tratando-se de uma cidade de interior, onde a popula��o sempre � mais conservadora do que nas capitais, era de esperar alguma agressividade contra o transexual. O que se viu foi o oposto. Do padre ao prefeito, passando pelas beatas mais empedernidas, h� uma quase unanimidade no munic�pio em apoio � decis�o de J�ssica de ter se bandeado com todos os apetrechos para a trincheira do sexo oposto. No dia da cirurgia, seus conterr�neos fizeram uma corrente de ora��o. "Rezamos todos juntos para que ela pudesse virar uma mulher", explica Beatriz Henriques, a dona Triz, beata-mor da cidade. Apesar de deixar claro que a Igreja Cat�lica � contra a troca de sexo, at� o padre Ot�vio de Oliveira Rocha endossou: "J�ssica tinha uma anomalia que precisava ser corrigida de alguma forma. As portas da minha igreja continuar�o abertas para ela". A boa vontade de Inconfidentes com a metamorfose de J�ssica encontra explica��o em sua �ndole pacata. Ela sempre evitou roupas vulgares e n�o tem namorados na cidade. "J�ssica sempre foi muito s�ria. N�o � um homem que virou mulher, mas uma mulher que ganhou identidade", teoriza o prefeito D�cio Bonamichi, que cedeu uma ambul�ncia para a volta de Belo Horizonte. A recep��o a J�ssica revela tamb�m uma mudan�a de costumes entre os brasileiros. "Esse epis�dio mostra que muitos assuntos ligados � sexualidade est�o deixando de ser tabu", diz o ginecologista e sex�logo mineiro Gerson Lopes.

Com exorcista � O lado feminino de J�ssica come�ou a predominar cedo. Quando crian�a, preferia estojos de maquiagem a jogos de bot�o, como � t�pico nesses casos. Seu pai, um agricultor morto h� sete anos, esfor�ou-se para interferir. Chegou a matricular o garoto em aulas de jud�. V� esperan�a. O menino, se bem que s� na esfera rom�ntica, interessava-se mesmo pelos coleguinhas. Para os especialistas, esse � um sinal claro de que o caso n�o era de simples homossexualismo. "O transexualismo � o desejo obsessivo da pessoa de pertencer ao sexo oposto. Diferentemente dos homossexuais, eles em geral se mostram mais comedidos e n�o s�o prom�scuos", explica Lopes. Numa fase, o garoto foi morar com uma tia em S�o Jos� dos Campos, no interior de S�o Paulo, que se ofereceu para "consertar" seus trejeitos femininos. "Minha tia me levou at� em exorcista", lembra. Longe de casa, tingiu os longos cabelos de loiro, trocou as cal�as compridas por saias e aderiu aos sapatos de salto. Desde ent�o, freq�enta consult�rios de psiquiatra. "Gastava todo o meu dinheiro com m�dicos e horm�nios", conta. "Queria ser uma mulher como realmente me sentia e n�o um travesti como as pessoas me viam."

A cirurgia de J�ssica foi realizada no Hospital Universit�rio S�o Jos� pelos m�dicos Ces�rio Almada e Otto Chaves. Trata-se de uma t�cnica conhecida como transgenitaliza��o e foi desenvolvida h� cerca de trinta anos. N�o h� mutila��o. A parte cavernosa do p�nis � transformada nos pequenos e grandes l�bios da genit�lia feminina, e a pele do membro masculino � invertida, formando o canal vaginal. Isso permite que ela continue a ter sensibilidade no �rg�o sexual. Um pequeno peda�o da uretra � utilizado para simular o clit�ris. Depois de dois meses, o paciente � liberado para manter rela��es sexuais. No Brasil, a t�cnica � empregada desde 1997 e os candidatos � cirurgia t�m de provar que s�o transexuais, ser acompanhados por psiquiatra durante dois anos e conseguir autoriza��o na Justi�a. No caso de J�ssica, todo esse esfor�o foi recompensado. Em Inconfidentes, n�o faltam candidatos a marido. "Ela tem tudo para virar um partid�o", diz o estudante Mariel Diniz, 18 anos.
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