Gays no Poder                                     Veja 17/11/1999
Cada vez mais homossexuais saem do arm�rio na pol�tica europ�ia

Rasgar a fantasia parece ser a palavra de ordem na pol�tica europ�ia. Cada vez mais homossexuais que assumiram ou foram for�ados a assumir sua condi��o preenchem cargos num campo antes proibido: a pol�tica. O que h� poucas d�cadas provocava revolta e em alguns lugares poderia ser punido at� com pena de pris�o, hoje est� longe de significar o fim da carreira. Ao contr�rio, muitos at� se beneficiam dessa condi��o. O deputado socialista espanhol Miguel Iceta foi eleito no m�s passado para o Parlamento catal�o apenas cinco dias depois de revelar publicamente ser homossexual. A coliga��o da qual fazia parte recebeu 50% a mais de votos em rela��o � elei��o anterior. Como explicar isso num pa�s t�o cat�lico como a Espanha? "Desde a democratiza��o da Espanha nos anos 70, muita coisa mudou", disse Iceta a VEJA. "Conclu� que j� n�o havia o menor risco de eu me prejudicar revelando minha op��o sexual." Joan Subirats, professor de ci�ncia pol�tica da Universidade Aut�noma de Barcelona, concorda que paira no ar uma nova mentalidade. "O interessante � que a rea��o n�o foi de esc�ndalo", observa. "Pelo contr�rio, foi positiva. Acho que mais gente vai sair do arm�rio de agora em diante."

"Pol�ticos europeus com carreiras consolidadas, n�o necessariamente ligados a grupos gays, est�o falando mais abertamente sobre suas prefer�ncias sexuais, e o p�blico tem respondido de forma muito clara: n�o � isso que importa, e sim sua honestidade", avalia Peter Clarke, professor de hist�ria da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Mesmo no campo dos conservadores ingleses, o assunto j� perdeu o poder delet�rio. Michael Portillo, ex-ministro de Margaret Thatcher e uma das estrelas da ala direita do Partido Conservador, foi escolhido pela agremia��o para concorrer a uma vaga na C�mara dos Comuns mesmo depois de ter revelado que manteve rela��es homossexuais nos tempos de universit�rio. N�o foi exatamente uma confiss�o espont�nea. O assunto estava para ser trombeteado pela implac�vel imprensa sensacionalista inglesa. "No passado, havia todo um mist�rio, um pacto para manter a vida dos pol�ticos homossexuais fora do alcance do p�blico. O que n�s estamos testemunhando agora � o fim dessa hipocrisia", diz o professor Peter Clarke.

Na Inglaterra, onde s� em 1967 o homossexualismo deixou de ser crime, o assunto vem sendo discutido � exaust�o desde a posse do primeiro-ministro trabalhista Tony Blair, h� dois anos e meio. Para passar uma imagem de moderno e pluralista, Blair caprichou na composi��o do minist�rio, com lugar para cinco mulheres, um cego e um homossexual assumido, Chris Smith, respons�vel pela pasta da Cultura. Esta �ltima escolha provocou pouco mais que alguns coment�rios maldosos aqui e ali. As rea��es n�o foram t�o discretas quando come�aram a pipocar na imprensa revela��es ou insinua��es sobre a conduta sexual de outros integrantes do minist�rio. A primeira baixa foi a do ministro para o Pa�s de Gales, Ron Davies, flagrado por jornalistas depois de assaltado por um garoto de programa em uma conhecida zona de prostitui��o masculina de Londres. Acabou sem a carteira, o carro, o celular e o cargo no governo. Renunciou. O esc�ndalo serviu para mostrar que h� um limite claro na toler�ncia: admitir-se homossexual � uma coisa cada vez mais aceit�vel. Ser flagrado como gay continua a ser potencialmente escandaloso.

Depois do vexame de Davies, foi a vez de Peter Mandelson, o todo-poderoso ministro da Ind�stria e Com�rcio, ter sua vida �ntima escarafunchada por um colunista. Mais tarde, revelou-se que, em visita oficial ao Rio de Janeiro em julho do ano passado, ele aproveitou para encontrar um namorado e excursionar pelas boates gays. Mandelson tamb�m deixou o governo, mas por causa de um esc�ndalo envolvendo a concess�o de empr�stimos p�blicos a juros camaradas para a compra de uma casa no chique bairro londrino de Notting Hill. Outro ministro, Nick Brown, da Agricultura, declarou publicamente sua homossexualidade depois de chantageado por um seman�rio que amea�ava divulgar fofocas contadas por um ex-namorado. Ele continua at� hoje no minist�rio. Todas essas revela��es, que no passado provocariam uma crise de propor��es gigantescas, n�o causaram mais que pequenos arranh�es na popularidade do governo Blair. Depois de alguns meses na geladeira, Mandelson foi reconduzido ao gabinete no m�s passado, como ministro para a Irlanda do Norte, sem maiores resist�ncias.

A liberalidade na pol�tica se estende a outros campos. Na semana passada, o ministro da Defesa da Inglaterra, Geoff Hoon, anunciou que as For�as Armadas v�o adotar um c�digo de conduta para homossexuais, antes discriminados. Em setembro, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos, na Holanda, j� havia decidido que gays e l�sbicas n�o podem ser expulsos das For�as Armadas. Os homossexuais franceses tamb�m comemoram sua vit�ria com a aprova��o, no m�s passado, do Pacto Civil de Solidariedade, a nova lei que reconhece a uni�o n�o formal entre pessoas do mesmo sexo. Com isso, casais gays ter�o direito de fazer declara��es de renda conjuntas, colocar o parceiro como dependente no plano de sa�de e deixar heran�a para o companheiro. Desde a legaliza��o desse tipo de uni�o pela pioneira Dinamarca, em 1989, outros sete pa�ses europeus j� adotaram leis semelhantes ou receberam veredictos favor�veis na Justi�a. A vit�ria mais recente foi a decis�o, tomada h� duas semanas pelo Supremo Tribunal ingl�s, de que casais homossexuais que tenham uma rela��o est�vel devem ser considerados uma fam�lia. Os militantes dos direitos dos homossexuais v�em na repercuss�o dos casos de gente famosa que sai do arm�rio algum lucro para a vida dos an�nimos. "Hoje � muito mais f�cil para um jovem se revelar � fam�lia e aos amigos", festeja David Allison, um dos coordenadores do grupo OutRage!, que milita pelos direitos homossexuais e tem sede em Londres.
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