Eu Sou Gay                                         Veja 16/02/2000
Ouvir essa frase pode ser um pesadelo, mas diz�-la � quase sempre um momento de al�vio na vida de quem n�o quer mais esconder da fam�lia e dos amigos sua verdadeira op��o sexual


Na foto abaixo, Luiz Paulo Marinho rodeado pela fam�lia: o pai ficou chocado com a revela��o 

"N�o vejo a minha vida de outro jeito. Eu amo uma mulher e s� porque eu sou mulher n�o posso? Quero saber que regra � essa", diz Fabiana Fl�via Ferreira, de 23 anos, estudante de engenharia de S�o Vicente, litoral paulista, e assumida desde os 17.

"Eu j� tinha os meus casos, os meus rolos e minha cabe�a era homossexual. Mas via meu pai falando que preferia um filho aleijado a um gay", lembra o empres�rio carioca Luiz Paulo Marinho, 32 anos, homossexual assumido h� cinco.

"Ele me disse na caradura: 'M�e, eu sou homossexual'. Fiquei com �dio. Senti meu sangue subindo � cabe�a. Peguei a primeira coisa que vi e corri atr�s dele para machuc�-lo. Passamos seis meses sem nos falar morando na mesma casa", diz a oper�ria paulista Cleusa Amaral, m�e de C�sar Marchia, hoje com 28 anos. A revela��o ocorreu h� doze anos.

Houve um tempo em que s� de pensar que os pais desconfiavam de sua prefer�ncia amorosa os jovens tremiam. Muitos optavam por sair de casa para viver uma vida afastada, em que a sexualidade poderia ser exercida em sua plenitude. N�o h� estat�sticas sobre a quantidade de gays que decidem "sair do arm�rio", a g�ria usada entre eles para designar a revela��o da pr�pria prefer�ncia sexual. Na opini�o dos especialistas de alguma forma ligados ao fen�meno, no entanto, a sensa��o � de que nunca houve tanta gente fazendo isso como nos dias de hoje. A lista de motivos para compreender a mudan�a de comportamento � extensa. Um deles � que, morando mais tempo na casa dos pais, os filhos ficam vulner�veis � vigil�ncia dos mais velhos. O telefone toca e a voz pertence sempre a algu�m do mesmo sexo, a filha s� sai com amigas e o filho nunca apresenta a namorada. Mentir ficou mais complicado. Outra raz�o � que nunca se teve tanta abertura para falar sobre sexo em casa. S�o novelas, filmes, propagandas, um bombardeio de informa��es que viabilizam um di�logo mais franco.

"� dif�cil achar um lado bom da Aids, mas a doen�a levou as fam�lias a tratar da sexualidade com mais clareza", comenta a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade da Faculdade de Medicina da Universidade de S�o Paulo. Na avalia��o da psiquiatra, al�m das mudan�as na estrutura familiar, a sociedade est� mais evolu�da para aceitar os gays. H� boates, restaurantes, bares, livrarias, locadoras de v�deo, ag�ncias de turismo, hot�is, tudo destinado a homossexuais. A comunidade gay est� crescendo tanto que j� clama por servi�os at� outro dia impens�veis. Em S�o Paulo, um grupo de professores, a maioria homossexual, montou um cursinho pr�-vestibular voltado a estudantes gays. Na semana passada, tamb�m em S�o Paulo, anunciava-se a cria��o de um spa para "entendidos".

Dilema � O desejo sexual � um vulc�o que permanece adormecido at� o momento em que a crian�a ingressa na puberdade. A partir da� fica dif�cil ignorar os impulsos que parecem, a um s� tempo, estranhos e atraentes. O sexo torna-se uma fixa��o. Quando a confus�o de horm�nios e sentimentos provoca uma inseguran�a t�pica da adolesc�ncia, alguns s�o perturbados por uma d�vida adicional. Que situa��o angustiante a do garoto que observa as formas do amigo na carteira ao lado, na sala de aula, e sente uma coisa estranha. Ou a da menina que v� a amiga tomando banho no vesti�rio do clube e passa dias fantasiando. Essa experi�ncia acontece na vida de milh�es de pessoas e nunca � irrelevante.
A maior parte dos que enfrentam a d�vida sobre a pr�pria sexualidade esconde o dilema de amigos e dos pais. Muitos descobrem pouco a pouco que aquilo n�o significa uma defini��o pela homossexualidade, apenas uma hesita��o em situa��es espec�ficas. Esses em geral se acomodar�o ao padr�o da maioria e seguir�o em frente, encontrando satisfa��o nos jogos er�ticos com o sexo oposto. Vencem o fantasma. Tornam-se pais, m�es, av�s e av�s. Entre os que chegam � conclus�o de que, sim, desejam o amigo do mesmo sexo e, sim, s�o homossexuais, a esmagadora maioria vai fazer tudo que puder para esconder a verdade dos que n�o sejam seus companheiros de prefer�ncia sexual. Essas pessoas fazem uma conta psicol�gica envolvendo perdas e ganhos sociais e concluem que sair do arm�rio pode custar caro demais. Algumas at� se casam, t�m filhos e administram o desejo homossexual com escapadas regulares. Os estudos mostram que elas vivem com uma carga de stress muito mais elevada do que o resto da sociedade. N�o conseguem livrar-se de um forte sentimento de culpa.

Os gays de vida dupla experimentam duas sensa��es, opostas e de igual intensidade. Nas noitadas, vivem experi�ncias prazerosas, mas mergulham na culpa ao voltar para casa. Pessoas assim costumam possuir uma baix�ssima auto-estima e julgar a pr�pria vida por meio de palavras fortes, como "fraude", "farsa" e "embuste". A repress�o dos sentimentos leva os enrustidos a usar uma m�scara que n�o lhes cabe, a de heterossexuais. S�o expostos a constrangimentos freq�entes, seja em casa, seja no ambiente de trabalho, ao ouvirem refer�ncias desairosas sobre os homossexuais. "Desde pequeno, os primeiros palavr�es que se aprendem para xingar s�o bicha e veado. � muito desconfort�vel conviver com essas express�es martelando a cabe�a", diz o universit�rio brasiliense Caio Varella, de 26 anos, que se assumiu gay aos 18 anos.

Mentira social � Pedro Zarur, 29 anos, editor de livros em S�o Paulo, concluiu um dia que n�o queria mais levar � frente o segredo. "Reuni minhas irm�s mais velhas e disse que estava namorando." "Qual o nome dela?", elas perguntaram. Eu disse: "N�o � ela. � ele". A fei��o de cada uma delas naquele momento ficou gravada em minha mem�ria", recorda Pedro, que abriu o jogo h� dois anos. Pessoas como o estudante Caio e o editor Pedro mantiveram por muito tempo a mentira social. Mas, depois de fazer a tal conta psicol�gica, apostaram que, para eles, os ganhos envolvidos na decis�o de abrir o jogo justificavam os riscos. No fundo, no fundo, eles (e elas) querem assumir sua op��o n�o apenas � noite, mas tamb�m � luz do sol. Querem passear com seu namorado (ele) ou a namorada (ela), convidar os parentes para as festas do casal. Constituir uma fam�lia, em alguns casos � sabendo que v�o enfrentar os dias mais dif�ceis de suas vidas.
Apesar do choque inicial, a rea��o positiva que receberam dos pais fez com que boa parte dos gays assumidos se sentisse muito mais confort�vel depois da revela��o. "Prefiro que ele confie em mim para que possa ser aut�ntico e n�o precise mentir o tempo todo", afirma a m�e do empres�rio carioca Luiz Paulo Marinho, Therezinha Marinho da Silva, de 65 anos. O al�vio n�o significa que a revela��o possa ser feita sem um terremoto emocional. Para os gays e l�sbicas, assumir a sexualidade em p�blico significa contar justamente o que os outros escondem. "Imagine uma pessoa contando que gosta de apanhar durante o ato sexual. Ia virar motivo de coment�rios do tipo 'l� vem aquele que gosta de umas palmadas'.", diz o psic�logo Hugues Fran�a Ribeiro, da Universidade Estadual Paulista, especializado no atendimento de jovens homossexuais. "De um certo modo, o mesmo acontece com os gays. Quando contam que gostam de pessoas do mesmo sexo, j� se pode visualizar uma cena. E isso � desconfort�vel para a maioria de seus amigos e parentes."

O primeiro desafio dos gays e l�sbicas � aceitar seu desejo sexual. Nessa fase, eles s�o tomados por uma onda de questionamentos. Isso vai passar? Ser� que n�o � doen�a da qual posso me livrar? "Eu precisei sair do pa�s para entender o que estava acontecendo comigo. Na Europa vi como era normal, encontrei outras pessoas que desestigmatizaram a homossexualidade", diz a empres�ria Laura Bacellar, 39 anos, propriet�ria em S�o Paulo da editora GLS, que publica livros dirigidos ao p�blico gay. Laura se assumiu l�sbica aos 18 anos. Ao perceber que a op��o sexual n�o � passageira, o garoto e a garota entram num momento tenso, o da inicia��o propriamente dita, em que se misturam as ang�stias da primeira vez dos heterossexuais com uma sensa��o de que algo muito estranho e indesej�vel (mas ao mesmo tempo irresist�vel) est� por acontecer. "Quando descobri que no ambiente das boates e dos bares gays eu podia ser eu mesmo sem me preocupar com nada, sem fingimentos, n�o quis mais saber de outra coisa. Eu comecei a ir sempre, todo fim de semana", diz o estudante paulista Alex Santos Silva, 18 anos, assumido h� tr�s anos.

Nada diz que � gen�tico
Trava-se um debate intenso em torno das raz�es que orientam a op��o sexual das pessoas. De acordo com uma pesquisa do Ibope, 41% da popula��o brasileira acredita que o homossexual j� "nasce assim", ou seja, o comportamento estaria definido no c�digo gen�tico. Todos os estudos s�rios sobre o assunto desautorizam as afirma��es nesse sentido. O mais importante trabalho que difundia a tese da origem gen�tica revelou-se sem consist�ncia cient�fica, o que foi admitido pelo pr�prio autor, o pesquisador Michael Bailey, da Universidade Northwestern, em Chicago. Bailey encontrou uma forma aparentemente apropriada de analisar as rela��es entre a sexualidade e a gen�tica. Ele pesquisou a op��o sexual de g�meos univitelinos, cujo material gen�tico, sabe-se, � id�ntico. No grupo estudado, em 52% dos casos de homossexualismo, n�o apenas um dos irm�os era gay, mas os dois. Ao comparar g�meos fraternos, concebidos a partir de dois �vulos, a taxa de coincid�ncia havia ca�do para 22%. Se havia mais irm�os gays entre g�meos id�nticos do que entre g�meos fraternos, por que n�o acreditar que algo no reino do DNA poderia estar orientando a op��o sexual?

A conclus�o do doutor Bailey come�ou a desabar quando, no curso de suas investiga��es, ele descobriu mais casos de irm�os gays entre adotivos do que entre irm�os de sangue. Como se pode falar em coincid�ncia gen�tica com adotivos? Diante dessa descoberta, Bailey voltou aos g�meos. Para evitar furos estat�sticos, ampliou o universo pesquisado, enviando question�rios para todos os g�meos registrados num pa�s. Como os Estados Unidos s�o grandes demais, escolheu a Austr�lia. Por carta, ele enviou as perguntas. Entre os id�nticos, recebeu trinta respostas admitindo a homossexualidade. Em apenas tr�s casos, os dois irm�os eram gays. Nos outros 27, apenas um se relacionava com pessoas do mesmo sexo. Nos dezesseis casos de homossexualismo entre g�meos fraternos, n�o havia coincid�ncia. S� um dos irm�os era gay. "A tese mais aceita atualmente � de que a orienta��o sexual � resultado de influ�ncias biol�gicas, psicol�gicas e socioculturais, sem um peso maior para uma ou outra", diz a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade da Faculdade de Medicina da Universidade de S�o Paulo.

Resolvido o conflito interno, � chegada a hora de contar para a fam�lia. A maioria n�o se abre nunca, como j� se viu, e uma parcela ponder�vel dos jovens espera anos para fazer isso. O motivo da demora n�o est� relacionado ao grau de elabora��o que se vai imprimir � not�cia, mas ao natural medo que se tem dos pais. Em geral, o an�ncio � feito de maneira um tanto atabalhoada. "Minha m�e sabia que eu andava com gays e vivia me perguntando se eu ainda estava com eles. Um dia ela me perguntou: 'Por que voc� n�o melhora isso?' Eu respondi: 'Como melhorar? Eu sou um deles, mam�e' ", conta Luiz Paulo, o empres�rio carioca.

Num primeiro momento, a rea��o dos pais diante da revela��o da homossexualidade dos filhos � entrar em estado de choque. "Meu maior medo era que ele ficasse desmunhecando, me envergonhando por a�. Como isso n�o aconteceu, fui ficando mais tranq�ilo", diz o comerciante Antonio Santos Silva, pai de Alex. Hoje, a conviv�ncia dos dois tornou-se harmoniosa porque est� combinado que eles evitam discutir o assunto. "Eu n�o comento sobre a minha sexualidade com meu pai, como ele n�o comenta a dele comigo", afirma Alex. Essa aceita��o vem com dificuldade. Em geral, os pais absorvem qualquer altera��o nos planos tra�ados para os filhos, menos quando o assunto � homossexualidade. Se a filha resolveu estudar geografia em vez de medicina, sem problemas. Se o filho quer largar a faculdade para morar no Nepal, pode-se compreender. Alguns pais dizem que saberiam entender at� mesmo se os filhos partissem para as drogas ou o �lcool, tenta��es (revers�veis) do mundo moderno. S� n�o se conformam com o fato de aquela "crian�a" sentir atra��o f�sica por algu�m do mesmo sexo. Restabelecidos do choque inicial, os pais s�o tomados pela culpa. "Onde foi que eu errei?", perguntam. N�o h� quem n�o se sinta respons�vel pelo fato de o filho ou a filha ser homossexual.

"Uma fase" � A etapa seguinte � a da nega��o, em que poderosos mecanismos de defesa s�o acionados. Um dos mais fant�sticos, observam os psic�logos, � acreditar que a homossexualidade "� uma fase", como se fosse uma atitude ligada � rebeldia da adolesc�ncia. Uma das express�es mais representativas desse est�gio �: "Mas ele n�o tem nada de gay", sugerindo que o homossexual � aquele personagem estereotipado e cheio de fricotes que aparece nos programas de televis�o. Felizmente, na maioria dos casos, vem a fase da aceita��o, quando os pais se conformam com a realidade e, com alguma freq��ncia, se adaptam bem a ela. Um caso exemplar � o das fam�lias de Fabiana Ferreira e da empres�ria Cristiane Lorca, de 33 anos. Namoradas h� tr�s anos, elas participam de todos os eventos familiares e organizam festas em casa para os parentes. "Temos um relacionamento maravilhoso com os nossos pais. Quando eles n�o nos v�em juntas ficam at� preocupados", diz Fabiana.

� um fen�meno dos �ltimos anos a necessidade que um n�mero crescente de jovens sente de compartilhar tudo com os pais. Desde a primeira experi�ncia sexual � primeira tragada no cigarro. O que pode parecer um progresso louv�vel na rela��o familiar � de fato uma divis�o de culpas e responsabilidades. "Ao expor toda sua vida privada, toda sua sexualidade aos pais, os filhos est�o quase pedindo uma autoriza��o para exerc�-la", afirma a psic�loga Rosely Say�o. "A revela��o n�o � um grito de independ�ncia. � de depend�ncia. � como dizer: 'Eu sou assim', 'Eu fa�o isso e voc� vai ter de gostar de mim' ". No fundo, a confiss�o de ser gay pode ser quase um teste. Em muitos casos, o filho espera saber at� que ponto os pais o amam, o aceitam e o ter�o perto deles. "Durante a inf�ncia, os filhos vivem para agradar aos pais. Quando decidem contar que s�o gays, os jovens estar�o desagradando profundamente a eles. E o fazem para checar em �ltimo grau se aquele amor � de fato mais forte do que o preconceito", diz a psic�loga paulista Ceres Alves de Ara�jo.

Desde muito cedo os gays aprendem a conviver com a discrimina��o, e isso acontece mesmo antes de assumir a homossexualidade. A garota ou o garoto desenvolvem um sistema de prote��o que se baseia na agressividade. A melhor defesa passa a ser o ataque. Quem j� n�o se perguntou por que os gays e l�sbicas costumam adotar certos trejeitos que provocam estranheza na maioria das pessoas? A necessidade de afirmar a sexualidade e o medo da rea��o negativa da sociedade fazem com que alguns gays optem pelo extremo, que � estereotipar o comportamento. � como se ele quisesse dizer: "Perceba como eu sou. E tem mais: eu n�o vou mudar". Para os heterossexuais, essa agressividade ganha contornos ainda mais contundentes. "� agressivo ver algu�m muito diferente de voc� e mais agressivo ainda se aquilo passa pela sexualidade", afirma a psiquiatra Carmita Abdo.
A estranheza do heterossexual em rela��o aos homossexuais aumentaria muito se ele tivesse contato com o chamado mundo GLS (que re�ne gays, l�sbicas e simpatizantes). Para quem est� acostumado a freq�entar danceterias heteros, dar uma espiada num clube GLS � uma experi�ncia inesquec�vel. S�o centenas de homens ou mulheres envolvidas numa dan�a de alta conota��o sexual. Na maioria desses endere�os, v�em-se beijos acrob�ticos e m�os passeando pelo corpo alheio sem encontrar obst�culos. A compara��o � inevit�vel. Por que, de modo geral, as casas noturnas heteros s�o mais comportadas do que as GLS? O motivo � que a liga��o dos homossexuais com o erotismo � mais intensa. Como a sociedade n�o permite que casais gays possam ter manifesta��es de carinho em p�blico, eles acabam exercitando todas as fases da conquista e do prazer num lugar fechado. Obrigados a reprimir os impulsos durante o dia, os gays passam por uma esp�cie de catarse noturna. � por esse motivo que as roupas e a decora��o nesses ambientes costumam evocar refer�ncias er�ticas.

A homossexualidade permeou a hist�ria da humanidade alternando pap�is. �s vezes, a pr�tica era estimulada. Na Gr�cia antiga, Plat�o escreveu muito sobre o assunto. Safo, poeta e l�sbica, tamb�m exaltou o amor l�rico entre iguais. Entre os s�culos V e IV a.C., a bissexualidade era tida como coisa normal no mundo grego. Em outros momentos, a rela��o homossexual foi considerada criminosa. At� o s�culo XIX, as autoridades inglesas executavam em p�blico pessoas apontadas como homossexuais. Na literatura, o tema sempre foi fonte de inspira��o. As parcerias dos poetas franceses Arthur Rimbaud e Paul Verlaine resultaram em bel�ssimas odes ao corpo masculino e ao amor gay. Nunca, por�m, a pr�tica gay recebeu a aceita��o social de que goza hoje em dia. Os desfiles de "orgulho gay" em Nova York chegam a reunir 1 milh�o de pessoas. Parada semelhante realizada em S�o Paulo, no ano passado, juntou 35.000 ativistas. Os organizadores da pr�xima falam em 100.000. Esperam com isso pressionar o Congresso a aprovar o projeto de uni�o civil est�vel de homossexuais, que h� quatro anos est� para entrar na pauta de vota��o. Essa experi�ncia j� funciona com sucesso na Dinamarca, Su�cia, Noruega, Isl�ndia, B�lgica e Holanda. At� na It�lia, apesar da oposi��o da Igreja Cat�lica, os governos municipais de Pisa e Floren�a aprovaram leis semelhantes.
Com essas mudan�as positivas, os gays se sentem mais � vontade para encarar o desafio de tornar p�blica sua orienta��o sexual. A press�o em torno deles n�o diminui depois que abrem o jogo em casa. Entre os colegas de trabalho, podem ser mais ou menos aceitos em sua peculiaridade, mas haver� sempre barreiras. Os gays reclamam, com raz�o, que a carreira profissional deles nunca mais vai ser a mesma depois que o chefe ou patr�o fica sabendo das novidades. N�o espanta que tantos prefiram trilhar o caminho do segredo eterno. "Com tantas limita��es, os homossexuais com coragem suficiente para enfrentar olhares de desaprova��o e piadinhas de mau gosto podem ser considerados sobreviventes", diz a psic�loga Ceres de Ara�jo.

 
Afinal, quantos s�o os gays?
Por muito tempo se acreditou numa estat�stica divulgada nos anos 60 segundo a qual 10% da popula��o do planeta � formada por gays e l�sbicas. H� in�meras pesquisas sobre a suposta incid�ncia gay, mas a grande maioria n�o merece ser levada a s�rio. Primeiro, porque muitos dos entrevistados n�o revelam sua verdadeira op��o. Sabe-se que, quando o assunto � sexo, as pessoas mentem at� mesmo se n�o forem identificadas.

Al�m disso, os crit�rios para definir o que � ser homossexual variam conforme o estudo. Aceita-se para efeitos sociais que gay � aquela pessoa que se relaciona com as do mesmo sexo. Ocorre que, em alguns estudos, tamb�m � gay aquele que teve uma �nica experi�ncia homossexual durante a vida. Diante da falta de rigor nos conceitos, os n�meros ficam prejudicados. Os dados mais confi�veis at� hoje s�o os do relat�rio Kinsey, detalhado levantamento sobre a sexualidade americana feito na d�cada de 40. Segundo o trabalho, de 4% a 5% da popula��o masculina adulta s�o homossexuais durante toda a vida. Outros 13% s�o predominantemente homossexuais, mas se relacionam com pessoas do sexo oposto.
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