C�pia Perfeita                                       Veja 10/02/1999
Stephen Fry, numa excelente interpreta��o de Oscar Wilde

O escritor irland�s Oscar Wilde (1854-1900) foi a Madonna de seu tempo. Na segunda metade do s�culo passado, bem antes da inven��o da televis�o, Wilde j� sabia que um visual extravagante podia ser um atalho para o sucesso. A grande estrela de seu guarda-roupa era um casaco verde-garrafa. Certa vez, deixou at�nita uma plat�ia envergando, entre outras pe�as, cal�as cors�rio, sapatilhas lustrosas e la�os no punho. "Estranho que meias de seda possam perturbar tanto uma na��o", diria depois sobre o epis�dio. Tudo isso fazia dele um alvo f�cil para desenhistas. Tamb�m no teatro brincavam com sua imagem, imitando sua maneira l�nguida de dizer versos empunhando um l�rio. Wilde, que adorava aparecer, respondia com seu talento para epigramas. Caricaturas, dizia, s�o "o tributo que a mediocridade presta ao g�nio". Ou seja, esse tipo de s�tira n�o o incomodava. A pergunta �: como um homem que prezava a originalidade acima de tudo reagiria a um ator que o personificasse realmente bem? � divertido imagin�-lo assistindo a Wilde (Inglaterra, 1997), em cartaz em S�o Paulo e no Rio de Janeiro, no qual o comediante brit�nico Stephen Fry o encarna � perfei��o. N�o apenas as semelhan�as f�sicas entre Fry e Wilde s�o incr�veis. O ator conseguiu ir al�m dos trejeitos superficiais e comp�s um personagem complexo, com um misto de arrog�ncia e gentileza, ousadia e vulnerabilidade � qualidades identificadas por Richard Ellmann, o melhor bi�grafo de Wilde, como marcas registradas do escritor. Eis uma boa aposta: se pudesse ver o filme hoje, o "divino Wilde" primeiro se assustaria. Depois, ficaria encantado.

Toda a for�a de Wilde est� centrada em Fry. Numa de suas entrevistas, o ator, muito cotado para o Oscar deste ano, disse que "havia nascido para desempenhar o papel". Entretanto o filme, dirigido por Brian Gilbert, tem outros m�ritos. O elenco de apoio est� �timo, sobretudo Jude Law como o petulante lorde Alfred Douglas, maior amor (e grande tormento) na vida de Wilde. As roupas extravagantes usadas pelo escritor s�o recriadas com espantosa fidelidade. Mas o principal � que um perigo foi evitado: o de transformar o filme em libelo homossexual. Por ter assumido abertamente sua "conduta impr�pria", Oscar Wilde foi julgado e condenado a dois anos de pris�o na Inglaterra vitoriana. Em certo sentido, foi um m�rtir da causa gay. Mas um filme que se limitasse a contar essa hist�ria seria injusto com o personagem. Al�m disso, ningu�m precisa de mais um drama de tribunal ou melodrama sobre encarcerados. Procurando descrever o autor de O Retrato de Dorian Gray por diversos �ngulos, Wilde faz justi�a ao homem que sem mod�stia, mas com raz�o, disse de si pr�prio: "Eu despertei a imagina��o de minha �poca, e ela criou um mito e uma lenda ao meu redor".
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