Agress�o � Inf�ncia                          Veja 17/02/1999
O drama dos pais ao saber que monitor de acampamento de f�rias � preso por pedofilia


Primeiro foi o �dio. Depois, o pavor. O inferno da empres�ria paulista Rosangela come�ou numa sala da acanhada delegacia de Bragan�a Paulista, no interior de S�o Paulo. Cercada por policiais, ela assistia a um v�deo gravado na col�nia de f�rias onde tr�s de seus cinco filhos passaram duas semanas em julho passado, o Acampamento Atibaia, a 69 quil�metros da capital paulista. No in�cio, as imagens corriam aceleradas. Era tudo muito confuso. De repente, voltaram � rota��o normal. Na tela, Rosangela viu o filho de 11 anos. O garoto estava nu, debaixo do chuveiro. Constrangido, cobria os �rg�os genitais com as m�os. Ao fundo, a m�e ouviu uma voz masculina. O homem tentava tranq�ilizar o menino. Dizia que a c�mara estava desligada. Aquilo era s� uma brincadeira. O rapazinho acreditou. Tirou as m�os. Lentamente, a imagem foi se fechando no p�nis do garoto. Na cena seguinte, ele est� de costas. Close. "Nunca pensei que um acampamento para crian�as escondesse segredos t�o repugnantes", revolta-se Rosangela. O choque foi ainda maior quando ela soube que a voz era do "tio Leo" � o bi�logo Leonardo Chain, de 27 anos, monitor da col�nia de f�rias. O pior estava por vir. Quando conversou com o filho sobre o v�deo, o menino contou que numa madrugada despertou assustado. Tinha medo de escuro. Tio Leo, que estava acordado, para acalm�-lo prop�s que dormissem na mesma cama. O garoto aceitou. "Meu filho n�o me disse mais nada", conta a m�e. Rosangela teme por aquela noite.

Desde janeiro passado, Chain est� preso sob acusa��o de atentado violento ao pudor. Foi denunciado pelo dono do acampamento, o professor de educa��o f�sica Mario Assi. No carro do bi�logo, Assi encontrou farto material pornogr�fico: dezenove fitas de v�deo, 143 fotografias, al�m de quarenta cuecas infantis. Algumas imagens causam ojeriza. Os protagonistas s�o sempre meninos com idade entre 10 e 15 anos. Num v�deo, o monitor aparece fazendo sexo oral num garoto de aparentes 12 anos.

"Nunca pensei que um acampamento para crian�as escondesse segredos t�o repugnantes."
Rosangela, m�e de um menino de 11 anos que aparece nu num dos v�deos feitos por Chain
Complexo de inferioridade � O Acampamento Atibaia n�o � uma reedi��o da Escola Base � em 1994, a falsa acusa��o de abuso sexual contra crian�as de 4 anos, alunas de uma escola de S�o Paulo, destruiu a vida de tr�s casais inocentes. Primeiro, porque a den�ncia contra Chain foi feita pelo dono da col�nia de f�rias, que teria todo o interesse em evitar um esc�ndalo. Segundo, porque Chain n�o apenas confessa a autoria dos crimes como tamb�m legitima seu comportamento. "Na Gr�cia antiga, a pedofilia era comum. Plat�o nunca foi condenado pelo que eu fiz", afirmou aos policiais. "O problema � que a sociedade atual n�o aceita o ped�filo." Ped�filo, do grego paid�philos, aquele que gosta de crian�as.

O abuso sexual de meninos e meninas n�o � um fen�meno raro. Um relat�rio da Organiza��o das Na��es Unidas conta em 500.000 os envolvidos em pedofilia. No Brasil s�o registrados cerca de 3.000 casos de abuso contra crian�as todos os anos. Na pr�tica, estima-se, o n�mero �, no m�nimo, quatro vezes maior. Muitos dos pais n�o denunciam para evitar a exposi��o p�blica de seus filhos. Para poupar os meninos do constrangimento, VEJA optou por identificar os pais e as m�es ouvidos nesta reportagem apenas pelo primeiro nome.

O que faz com que um rapaz bonit�o, de classe m�dia alta, inteligente, formado pela Universidade de S�o Paulo, como Chain, acabe se envolvendo com a pedofilia? Estudos psiqui�tricos feitos a partir do perfil de quem adota esse tipo de comportamento apontam, geralmente, para tra�os bastante definidos. Aparentemente s�o pessoas desprovidas de qualquer agressividade, incapazes de praticar atos de viol�ncia aberta. Mas s�o tamb�m pessoas com um grande complexo de inferioridade, que s� conseguem exercer um m�nimo de sedu��o e autoridade com garotos e garotas. Os advogados do bi�logo alegam que ele sofre de dist�rbios mentais. Se n�o se provar a doen�a, ele pode ser condenado a at� 22 anos de cadeia.

Chain se diz integrante de um movimento muito difundido na Inglaterra e na Alemanha, conhecido como Boylovers � em portugu�s, amantes de meninos. Os participantes alegam seguir regras de conduta bem r�gidas. Afirmam n�o usar da viol�ncia e n�o for�ar ningu�m a nada. Numa l�gica absurda, defendem que se deve primeiro conquistar a amizade das crian�as e s� dar vaz�o aos desejos com a permiss�o delas, como se crian�as tivessem discernimento e defesas psicol�gicas suficientes para serem tratadas dessa maneira adulta. Tio Leo era o monitor querido. Durante seis meses freq�entou a casa do administrador de empresas Sergio, pai de dois meninos e uma menina. O mais velho, de 11 anos, foi filmado enquanto tomava banho. A primeira visita aconteceu logo ap�s as f�rias de julho. O bi�logo alegou que queria mostrar as fotos da estada no acampamento. No mesmo dia, agendou com os meninos uma partida de futebol para a semana seguinte. E assim foi. "Estranhei que um rapaz de 27 anos gostasse tanto de sair com adolescentes", lembra Sergio. No Brasil h� 300 acampamentos de f�rias, que recebem, todos os anos, 1 milh�o de crian�as. Longe de casa, a meninada geralmente cria um v�nculo emocional e de cumplicidade com os "tios" e "tias" mais divertidos. Felizmente, os casos de abuso s�o absoluta minoria, uma trag�dia estatisticamente muito improv�vel.

Felicidade e pureza � A atra��o por crian�as, sobretudo aquelas no limiar da puberdade, n�o � um assunto novo nem pouco explorado. Est� nas est�tuas gregas dos efebos, nas fotografias de meninas em poses sensuais do matem�tico, escritor e pastor anglicano Lewis Carroll, autor de Alice no Pa�s das Maravilhas, nos quadros que retratam garotas ing�nuas e lascivas do pintor franc�s contempor�neo Balthus ou no romance Lolita, do russo Vladimir Nabokov, levado duas vezes para o cinema. "Os adolescentes s�o a imagem da felicidade e da pureza, sem a culpa que, em geral, est� associada ao sexo adulto", define o psicanalista Jorge Forbes. "Da� o fasc�nio que despertam em muitos adultos."

Pelo C�digo Penal brasileiro, fazer sexo com uma pessoa de menos de 14 anos, mesmo com o aval dela, � crime: viol�ncia presumida. Mas mesmo isso est� mudando. Alguns ju�zes defendem que hoje os adolescentes s�o mais maduros do que os da d�cada de 40, quando o c�digo foi promulgado. Aten��o: fala-se aqui de adolescentes, n�o de crian�as. Em 1996, o ministro Marco Aur�lio de Mello, do Supremo Tribunal Federal, inocentou da acusa��o de estupro e viol�ncia presumida um homem que manteve um relacionamento amoroso com uma menina de 12 anos. Entre outras declara��es que usou para explicar a raz�o de ter consentido na rela��o carnal, a menina disse que fez aquilo porque "pintou uma vontade". O ministro julgou que ela tinha consci�ncia do que estava acontecendo. Em 1998, a Inglaterra reduziu a idade m�nima legal para manter rela��es homossexuais de 18 para 16 anos. Dif�cil � convencer pais e m�es que confiaram a guarda de suas crian�as a gente como tio Leo de que ele representa qualquer coisa relacionada a essa suposta "modernidade".
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