A Vida como Ela �                         Veja 29/07/1998
H� um s�culo, Adolfo Caminha chocava os leitores com seus personagens amb�guos

Na foto abaixo, cena do porto carioca na virada do s�culo e o escritor Adolfo Caminha: retrato do submundo

Pois �, o ex�rcito dos puritanos alertas gritou "epa!" e tirou do ar com uma �nica explos�o o distinto par de l�sbicas de Torre de Babel. Se as personagens Leila e Rafaela n�o fossem bonitas, ricas e felizes, poderiam continuar nas telas, como o caricato Cintura da miniss�rie Hilda Furac�o, a provar que o grande p�blico s� aplaude os homossexuais dos quais pode rir. Essa tentativa frustrada de tratar o tema a s�rio na TV coincide com mais uma volta �s livrarias de Amaro e Aleixo, os amantes que escandalizaram o Brasil em 1895, quando o cearense Adolfo Caminha (1867-1897) lan�ou Bom-Crioulo (editora Artium, 138 p�ginas, 19 reais), tido como "o primeiro romance gay brasileiro". Curtinho, f�cil de ler (mas n�o de julgar), ele emerge de um s�culo de censura velada ou oficial intermitente e chega junto com A Normalista (idem, 257 p�ginas, 24 reais), do mesmo autor, como parte de um projeto de resgate de obras e escritores marginalizados da nossa marginalizada literatura.

Adolfo Caminha foi um escandaloso na vida e na arte. Oficial da Marinha em Fortaleza, teve de mudar-se para o Rio de Janeiro e abandonar a carreira por ter "roubado" a esposa de um oficial do Ex�rcito e por insistir em viver �s esc�ncaras com ela. Como escritor, abra�ou o naturalismo, a escola liter�ria da vida como ela �, mais copo de c�lera do que sonho de valsa. A Normalista, de 1893, narra a hist�ria de Maria do Carmo, uma estudante sonhadora na provinciana Fortaleza, despertada para o sexo pelas m�os de seu tutor e padrinho, que a deflora. Bom-Crioulo, com a��o situada no Rio menos de uma d�cada depois da Aboli��o, atreve-se a colocar em cena o negro Amaro, o bom crioulo do t�tulo, que seduz o branco Aleixo. Para o leitor de hoje, o resgate de Caminha, principalmente o de Bom-Crioulo, � interessante sob mais de um aspecto, porque cada pequeno detalhe puxa de nossa mem�ria informa��es aprendidas e esquecidas. D� prazer escav�-las e lig�-las com coisas da atualidade. Est�-se falando da baixa sociedade do Rio, com sua mistura de imigrantes pobres, negros desocupados e forasteiros do Norte e do Sul. Ou ent�o do passeio entre palavras ca�das em desuso ou ainda correntes, como "rolo" e "frege", sin�nimos de confus�o e desordem.

�, sobretudo, o car�ter dos personagens, interpretado � luz da psicologia anterior a Freud, que passa uma impress�o de algo pr�-hist�rico e causa grande estranhamento. Em Bom-Crioulo, o negro bom e m�sculo vira mau, mas ama de fato. O branco efeminado, por sua vez, troca o amante pela senhoria do corti�o, mas permanece na clave feminina, pois a mulher � um virago. Basta ler o fecho de A Normalista para sentir a ambig�idade que nos faz vacilar no julgamento dos caracteres. Esse � o parapeito que evita a queda de ambos os romances no moralismo chinfrim, com amores proibidos condenados a ep�logos infelizes, am�m. Os finais, � melhor n�o contar. Suficiente dizer que os livros se salvam. E Caminha tamb�m, mais moderno do que parece.

No s�culo passado, as novelas sa�am nos jornais e chamavam-se folhetins. No g�nero, o Alu�sio de Azevedo de cl�ssicos como O Corti�o mesmerizava os leitores com sua l�gica. Menos coerente, Caminha seria demais para o p�blico dos folhetins, tanto quanto o romance das l�sbicas de Torre de Babel � para o da TV. Nada disso impede, por�m, que a vida continue a ser como sempre foi.
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