As �rvores mais Antigas do Brasil
Pouco estudados, os milenares jequitib�s est�o amea�ados de extin��o

Imagine seres ainda vivos que tenham nascido antes, muito antes do surgimento do Imp�rio Romano ou do advento do cristianismo. Produto da fic��o? N�o, obra da natureza. Sobreviventes da devasta��o promovida ao longo dos s�culos nos cinco continentes, �rvores milenares podem ser encontradas em reservas e parques florestais de pa�ses como Estados Unidos e Austr�lia. No Brasil, a esp�cie mais longeva � a do jequitib�  e tamb�m uma das mais desprotegidas. O jequitib� mais bonito de Minas Gerais, localizado na cidade de Carangola, queimou durante dez dias no m�s passado. O fogo consumiu o interior do tronco, formando uma cratera dentro da qual a equipe da Pol�cia Florestal circulava facilmente. "Caberiam mais de dez pessoas", espanta-se o sargento Gerson dos Santos Teixeira, que trabalhou de sol a sol jogando �gua na �rvore de 54 metros de altura. O fogo foi criminoso, a pol�cia garante, mas ainda n�o h� suspeitos. Tamb�m n�o se sabe com certeza se o jequitib�, com seus estimados 1.500 anos de vida, conseguir� sobreviver. "A �rvore est� muito debilitada. O vazio do tronco afetou o sistema de condu��o de seiva e a sustenta��o. S� nos resta esperar sua rea��o", afirma o bi�logo Braz Cosenza.

No in�cio de outubro, um galho com meio metro de di�metro despencou do alto do jequitib� Patriarca, em Santa Rita do Passa-Quatro, no interior de S�o Paulo, considerada a �rvore mais velha do Brasil. O c�lculo da idade � do bi�logo Manuel de Godoy  segundo ele, o jequitib�-rosa tem 3.020 anos. "Quando Jesus Cristo veio � Terra, ele j� era um senhor de 1.000 anos", comenta ele. Na copa dessa �rvore portentosa, de 39 metros de altura, vivem tucanos, macacos e cerca de 20.000 outras plantas. Toda essa hist�ria pode estar seriamente amea�ada. O engenheiro florestal Heverton Jos� Ribeiro, respons�vel pelo parque estadual de Vassununga, onde o jequitib� est� localizado, suspeita que o galho apodreceu e caiu por causa da a��o de brocas, insetos que devastam �rvores. "As brocas talvez ataquem outros galhos e tamb�m pode haver infiltra��o de �gua na ferida, facilitando a a��o de fungos e cupins", explica.

             O bi�logo Godoy, em 1972, quando fez uma das primeiras medi��es:
             A �rvore mede 39 metros, o equivalente a um pr�dio de treze andares
             A copa tem altura de 19,40 metros e di�metro de cerca de 40 metros
             O tronco mede 19,60 metros
             2,40 metros de di�metro a 13 metros do solo
             Para abra��-la � preciso reunir dez homens
             A 1,65 metro do solo, o di�metro da �rvore � de 3,6 metros e a circunfer�ncia, de 11,5 m.
             A raiz mais funda vai a 18 m de profundidade e a mais comprida atinge at� 30 m p/ o lado
            O peso total � de 264 toneladas
            O Patriarca e o disco de um jequitib� de 179 anos com os an�is marcados.
 

Monumentos  Os jequitib�s s�o �rvores nativas da Mata Atl�ntica brasileira, existentes apenas na Regi�o Sudeste e em alguns Estados vizinhos. Deveriam ser considerados monumentos nacionais, como acontece com as famosas sequ�ias americanas e com um pinus da regi�o de Serra Nevada, na Calif�rnia  do alto de seus 4.800 anos, ele � o ser vivo mais antigo do mundo. A maior parte dos jequitib�s, por�m, foi cortada para se transformar em material de constru��o e mobili�rio ou, ent�o, simplesmente derrubada para dar lugar a planta��es. Hoje, as �rvores remanescentes pertencem ao clube das esp�cies vegetais em via de extin��o. � poss�vel que elas pere�am sem nem mesmo ter sido objeto de estudos mais cuidadosos. At� sua longevidade � motivo de controv�rsia. Embora seja poss�vel aferir a idade de uma �rvore com m�todos cient�ficos, eles nunca foram empregados com a acuidade necess�ria no caso dos jequitib�s.

O m�todo mais aceito pelos bot�nicos � a contagem dos an�is de crescimento no tronco da �rvore. No Hemisf�rio Norte, os cientistas j� comprovaram que, em todas as esp�cies l� existentes, cada anel � formado ao longo de um ano. A parte mais escura do anel � tra�ada durante as esta��es mais frias, quando a �rvore entra em uma esp�cie de repouso metab�lico. A melhor maneira de cont�-los � por meio da introdu��o de uma sonda na planta, que retira um peda�o do tronco, da casca at� o centro, no qual os riscos s�o vis�veis. Ao ser transplantado para as �rvores tropicais, no entanto, o m�todo embolou. "Como aqui as esta��es n�o s�o bem definidas, acreditava-se que os an�is n�o seguiam um padr�o de tempo regular", afirma M�rio Tomazello Filho, chefe do laborat�rio de an�is de crescimento do departamento de ci�ncias florestais da USP de Piracicaba. Para acabar com as d�vidas, antes de usar o m�todo � preciso confirmar em uma �rvore viva se os an�is se formam a intervalos de doze meses. "J� foi provado que isso acontece com algumas esp�cies brasileiras, mas nunca com o jequitib�", diz Ver�nica Angyalossy Alfonso, do Instituto de Bioci�ncias da USP.

Apaixonado pelo jequitib� de Vassununga desde os 16 anos, quando organizou uma expedi��o at� a �rvore, que, diziam os mais velhos, precisava de doze homens para ser abra�ada, o bi�logo Manuel de Godoy decidiu estabelecer sua idade. As medi��es da �rvore come�aram na d�cada de 70. Em 1988, ele pegou tr�s discos de troncos de jequitib�s mortos, contou os an�is de cada um e mediu os di�metros. Colocou os dados no computador e estabeleceu uma rela��o entre idade e largura do tronco. Com esse par�metro, concluiu que os 3,6 metros de di�metro do Patriarca correspondiam a 3.020 anos de idade. Contra o c�lculo feito por Godoy j� foram levantadas v�rias suspeitas. Tomazello diz que a m�dia de crescimento do di�metro do tronco de uma peroba, por exemplo, � de 5 mil�metros por ano. Pelos n�meros de Godoy, o Patriarca teria crescido pouco mais de 1 mil�metro por ano. "Como esse incremento anual � muito pequeno para uma esp�cie tropical, sup�e-se que ele seja mais jovem", afirma o professor de Piracicaba. O estudo de Godoy pode n�o ter rigor cient�fico, mas � o �nico existente at� agora. "Pretendemos encomendar uma avalia��o conclusiva", promete o engenheiro agr�nomo Jos� Eduardo Bertoni, do Instituto Florestal de S�o Paulo. "At� que provem o contr�rio, por�m, o jequitib� tem 3.020 anos."
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