A Trai��o no Reino Animal                 Veja 16/08/2000
Ao contr�rio do que se pensava, a promiscuidade � a regra entre as f�meas da maioria das esp�cies

Os h�bitos sexuais da vi�va-negra australiana s�o, poder�amos dizer, do tipo atra��o fatal. Ap�s o coito, o macho atira-se na boca da parceira, cujo corpo � bem maior que o seu. Ela ent�o o devora, numa esp�cie de repasto nupcial. Durante d�cadas, o comportamento tr�gico, que se v� em v�rias outras esp�cies de aranhas em todos os continentes, intrigou os cientistas. S� recentemente, � luz de uma s�rie de revela��es sobre os rituais de reprodu��o no reino animal, se percebeu a raz�o do sacrif�cio do macho. Ao servir de refei��o � f�mea, ele a mant�m ocupada pelo dobro do tempo do coito, evitando a aproxima��o de um concorrente. � um recurso extremo para garantir a perpetua��o de sua heran�a gen�tica. Isso � necess�rio porque a f�mea da vi�va-negra � vol�til demais e n�o rejeitaria o ass�dio imediato de outro macho. O comportamento est� longe de ser exc�ntrico. H� muito se sabe que as f�meas de certas esp�cies s�o bastante prom�scuas. A novidade que est� causando frisson entre os bi�logos � a constata��o de que a promiscuidade � a regra no reino animal, n�o a exce��o. A monogamia � estatisticamente rara entre os bichos. Ocorre em apenas tr�s de cerca de 4 000 esp�cies de mam�feros. Durante muito tempo, os bi�logos acreditavam que os p�ssaros, em sua maioria, eram mon�gamos. A tecnologia do DNA revelou que v�rias esp�cies de p�ssaros que se acreditava serem mon�gamos de fato incorrem em consider�vel infidelidade. Em algumas dessas esp�cies acontece de muitos dos filhotes serem filhos n�o do macho no ninho, mas de um vizinho com o qual a f�mea copulou clandestinamente.

Essas pesquisas est�o esclarecendo muito do mist�rio que at� agora envolvia o sexo entre animais. Ficou mais f�cil entender os variados � e alguns bem bizarros � mecanismos desenvolvidos pelos machos para assegurar que os filhotes sejam realmente seus. O coito entre moscas varejeiras dura quarenta minutos, mas o inseto permanece grudado na f�mea por outros vinte minutos para evitar que ela se entregue a um rival. O cachorro utiliza-se do mesm�ssimo expediente. Antes de depositar seus espermatoz�ides, os caranguejos do tipo maria-farinha produzem uma secre��o que endurece como cimento, bloqueando a passagem do esperma de outros machos. As lib�lulas possuem o p�nis coberto por sali�ncias que t�m como objetivo remover o s�men deixado na f�mea pelos machos que anteriormente copularam com ela. Genitais adaptados s�o a garantia de sucesso na corrida reprodutiva, e tudo isso tem a ver com a infidelidade das f�meas. "Gera��es de bi�logos partiram do princ�pio de que as f�meas s�o sexualmente mon�gamas", diz o bi�logo Tim Birkhead, da Universidade de Sheffield, na Inglaterra. "Agora est� claro que eles estavam errados. Na maior parte das esp�cies, as f�meas copulam rotineiramente com muitos machos."

Em um livro rec�m-lan�ado, Promiscuity (Promiscuidade), Birkhead lista uma infinidade de casos estudados recentemente. H� dados de cair o queixo. Certas f�meas, como a dos chimpanz�s, chegam a copular at� 1 000 vezes, com parceiros diferentes, at� que fiquem gr�vidas. Com o aux�lio das novas t�cnicas de determina��o de paternidade, descobriu-se que, em certas ninhadas de p�ssaros, mais de 75% dos filhotes n�o s�o descendentes do macho que ajuda a cri�-los. Entre os primatas, mostram os estudos, quanto mais prom�scuas as f�meas, mais desenvolvidos s�o os �rg�os sexuais dos machos. Como a fidelidade � mais freq�ente entre os gorilas, eles t�m os test�culos relativamente pouco desenvolvidos. J� os chimpanz�s, cujas parceiras s�o muito vol�veis, s�o especialmente bem-dotados.

Quando tomam posse de uma nova f�mea, os felinos, como le�es e gatos, matam os filhotes que ela teve com outro macho. A t�tica da poligamia feminina � usada para evitar a matan�a, j� que os machos se confundem e n�o t�m como saber quais filhos s�o seus e quais s�o dos rivais. Em algumas esp�cies, v�rios machos, cada um deles com raz�es para se considerar pai, ajudam a f�mea a cuidar dos filhotes. O estudo das atividades sexuais dos animais leva a conclus�es interessantes, mas pouco contribui para compreender o comportamento dos humanos. "Entre as pessoas, os fatores culturais s�o preponderantes na determina��o do comportamento sexual", diz Carlos Alberts, professor de zoologia e comportamento animal da Universidade Estadual Paulista. A pergunta que n�o quer se calar �: por que as f�meas s�o prom�scuas? Um benef�cio � que quem acasala mais vezes tem mais chance de engravidar. H� tamb�m quest�es de ordem pr�tica. Grilos trocam sexo por comida. Ao cortejar a f�mea, o macho leva uma refei��o para a pretendida. Entre os ping�ins, a mercadoria � uma pedra usada na constru��o do ninho que vai abrigar os herdeiros encomendados. A promiscuidade da f�mea n�o traz maior n�mero de rebentos (como ocorre com a infidelidade do macho), mas filhos melhores. F�meas de algumas esp�cies parecem capazes de rejeitar o esperma indesejado e s� se tornar prenhe daquele que lhes parece melhor. Para os mais rom�nticos, essas descobertas lembram o amargo gosto de uma trai��o.
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