Fera Amea�ada                              Veja 25/02/1998
Com fama injusta de assassinos, tubar�es entram na lista de esp�cies em extin��o

A boca enorme, repleta de dentes serrilhados, mordendo a perna de um inocente turista que se debate em v�o em busca do ar da superf�cie do mar, enquanto o peix�o o sacode para baixo. A imagem do filme Tubar�o, de 1975, est� imortalizada, impregnou-se no inconsciente coletivo e n�o h� estat�stica, estudo cient�fico ou document�rio que consiga resgatar o bom conceito dos tubar�es. O terror generalizado, no entanto, vai contra todas as evid�ncias  com a exce��o compreens�vel do relato de um sobrevivente. Nesta d�cada, a m�dia de ataques a pessoas, no mundo inteiro, tem sido de sessenta por ano. No m�ximo, quinze s�o fatais. A rec�proca n�o � verdadeira. Estima-se que entre 30 milh�es e 100 milh�es de tubar�es (ou ca��es) s�o pescados a cada ano. A popula��o de algumas esp�cies reduziu-se 80% na �ltima d�cada. Sete delas j� entraram para a lista vermelha dos animais amea�ados de extin��o.

As chances de algu�m morrer pela boca de um tubar�o s�o bem menores do que as de perecer num ataque de abelhas, no ataque de uma cobra venenosa, de um elefante, ou por um choque el�trico. A probabilidade de um tubar�o morrer fisgado por um anzol ou uma rede, ao contr�rio, � enorme. Al�m dos tubar�es pescados para o com�rcio da carne, da barbatana (uma especiaria cujo quilo chega a custar 100 d�lares), da mand�bula (pela qual colecionadores pagam mais d�lares quanto maior for), do couro e de alguns �rg�os internos que viram �leo, outros tantos s�o mortos por acaso. A organiza��o das Na��es Unidas para agricultura e alimento calcula que para cada tubar�o pescado outro � morto acidentalmente por barcos pesqueiros. Somando tudo, conclui-se que cada ser humano assassinado pela mand�bula de um tubar�o � vingado com o exterm�nio de 6 milh�es de peixes. "Estatisticamente, os ataques a pessoas s�o insignificantes", diz o bi�logo Otto Bismarck Gadig, um apaixonado por tubar�es desde a inf�ncia que agora prepara sua tese de doutorado sobre o assunto. "Mas o impacto psicol�gico e emocional de um �nico ataque � devastador", reconhece.

Gadig � um dos respons�veis pelo envio de dados brasileiros para o Arquivo Internacional de Ataques de Tubar�es, sediado na Fl�rida. Ele tem trabalhado mais nos �ltimos anos. Entre 1992 e o final de 1997, nas praias da regi�o metropolitana do Recife, foram registrados 25 ataques a banhistas e surfistas. Sete deles resultaram em morte. Foi um estranho boom. Em todo o s�culo XX, houve apenas 89 ataques comprovados no pa�s  menos de um caso por ano. "Acreditamos que esse aumento de ataques numa �rea antes tranq�ila se deva � degrada��o ambiental", explica Fabio Hazin, do Laborat�rio de Oceanografia Pesqueira da Universidade Federal Rural de Pernambuco, outro pesquisador com dedica��o extrema ao estudo dos tubar�es. Entre os fatores, est�o o aumento do tr�fego de embarca��es, a pesca de arrasto que atrai os peixes, e o maior n�mero de pessoas no mar."

Exterminadores  Os ataques dos tubar�es podem ser dram�ticos. Os anz�is e redes dos humanos, por�m, s�o mais exterminadores. Matar tubar�es com mais rapidez do que eles podem reproduzir-se significa colocar em risco a exist�ncia de uma diversidade maravilhosa de peixes. Existem mais de 400 esp�cies de tubar�es, do gigante tubar�o-baleia, com at� 18 metros de comprimento, ao tubar�o-pigmeu, que cabe na palma da m�o. Com a cabe�a em forma de martelo, achatados como uma panqueca, nas cores cinza, azul, rosa, branca, verde, com bolinhas brancas ou listras sobre o corpo, os tubar�es habitam todos os oceanos. No Brasil, v�rias esp�cies s�o comercializadas como ca��o. S� umas poucas atacam surfistas e banhistas, como tem ocorrido em Pernambuco. Das cerca de oitenta esp�cies que freq�entam a costa brasileira, pouco mais de dez s�o potencialmente uma amea�a �s pessoas. As que mais comumente atacam s�o o cabe�a-chata, o tigre e o galha-preta.

No litoral sul do Brasil, a esp�cie de tubar�o conhecida como bico-doce est� com sua densidade populacional reduzida a 10% do que foi dez anos atr�s. Ainda n�o se pode dizer que o bico-doce est� amea�ado de extin��o. "Mas � dif�cil que ele retome o n�vel populacional de antes", afirma Carolus Maria Vooren, professor de oceanografia da Universidade de Rio Grande. H� quarenta anos, na costa da Calif�rnia aconteceu algo semelhante com os bicos-doces de l�. A redu��o foi tanta que a pesca acabou por falta de peixe dispon�vel. At� hoje, a abund�ncia n�o foi recuperada. Na Calif�rnia e no sul do Brasil, o que acabou com os bicos-doces foi a pesca excessiva. Sua carne � exportada para pa�ses do Mediterr�neo e sua barbatana � uma das mais valorizadas. No auge da pesca, em 1987, mais de 500.000 tubar�es dessa esp�cie foram mortos no Brasil. "A redu��o radical dos bicos-doces � um sintoma do que acontece com outros tubar�es", afirma Vooren.

Falta de pesquisa  Recentemente, o governo de S�o Paulo encomendou a pesquisadores um levantamento das esp�cies amea�adas de extin��o no Estado. Na lista foram inclu�dos tr�s tubar�es, o branco, o peregrino (ou gigante) e o mangona. Quanto �s outras esp�cies, pouco se sabe, por absoluta falta de pesquisa. Nos �ltimos anos, em todo o pa�s cresceu muito a pesca com rede de arrasto e emalhe  t�cnica pela qual os tubar�es s�o pegos mesmo quando n�o h� a inten��o do pescador. Isso ocorre nas regi�es vizinhas da costa. As esp�cies de alto-mar nadam em relativa tranq�ilidade. Esse tipo de pesca aumentou a partir de 1985, quando a disponibilidade de atum caiu e os pescadores passaram a levar mais tubar�es para o porto. Hoje, a pesca dirigida ao tubar�o (ou ca��o) � mais concentrada nos Estados do sul, que exportam 100% das barbatanas que arrancam. As fibras de col�geno da barbatana, principalmente do tubar�o-martelo e do bico-doce, s�o ingredientes de uma sopa car�ssima no Oriente. Algumas voltam, importadas, aos restaurantes brasileiros. Somando esses que viram sopa e os pescados por engano junto com outros peixes, a produ��o nacional de tubar�es � de cerca de 30.000 toneladas por ano.

As feras do oceano s�o extremamente vulner�veis � a��o humana. "Os tubar�es entram em colapso rapidamente quando h� sobrepesca", diz Carlos Arfelle, do Instituto de Pesca, �rg�o ligado � Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de S�o Paulo. Isso acontece porque na maioria das esp�cies a fecunda��o � interna, a gesta��o de filhotes leva cerca de um ano e resulta em um ou dois embri�es. � muito tempo para pouco filho comparado a outros peixes que colocam milhares de ovos. Essa diferen�a aumenta o preju�zo com a morte de f�meas gr�vidas. O sistema reprodutor dos tubar�es � adequado �s perdas naturais, mas nunca se adaptar� ao predador humano. A Sociedade Brasileira para o Estudo dos Elasmobr�nquios (tubar�es e raias) apresentou ao Ibama algumas propostas para regulamentar a pesca, com o objetivo de evitar a repeti��o, em territ�rio brasileiro, do que j� aconteceu em outras partes do mundo. Por enquanto, a id�ia n�o passa de um projeto. Estados Unidos, Austr�lia, Canad� e Nova Zel�ndia s�o os �nicos pa�ses que j� adotam planos de manejo para a ca�a de tubar�es.

F�sseis vivos  Por que se preocupar com o fim dos tubar�es? H� motivos a escolher. O mais s�rio � que, por serem os maiores predadores dos mares, os tubar�es exercem uma fun��o fundamental no ecossistema marinho. Eles comem os peixes fr�geis, os debilitados e os mortos. � cruel, mas, dessa forma, evitam que futuras gera��es de outros peixes passem adiante genes ruins. Al�m disso, a remo��o de um animal do topo da cadeia alimentar, como � o caso do tubar�o, afeta toda a rede. Na Austr�lia e na Tasm�nia, por exemplo, a pesca excessiva de tubar�es, h� alguns anos, provocou uma explos�o na popula��o de polvos e um decl�nio na pesca de lagosta, alimento dos polvos.

Os tubar�es s�o f�sseis vivos, e tamb�m por isso merecem respeito. Seus ancestrais habitavam o planeta h� 400 milh�es de anos. S�o, portanto, duas vezes mais antigos que os dinossauros, que j� se foram, e 100 vezes mais antigos que os seres humanos. Os tubar�es sobreviveram a tantas eras porque s�o praticamente perfeitos como predadores. Tudo neles parece ser feito para a ca�a, a morte e a digest�o das presas: a forma de torpedo do corpo, o esqueleto de cartilagem, que por ser mais leve e flex�vel do que o osso lhe d� mais agilidade, os dentes, a vis�o, o olfato e os sensores el�tricos. Com suas duas narinas, eles s�o capazes de detectar odores a 100 metros de dist�ncia e perceber uma gota de sangue em 100 litros de �gua. Um "sexto sentido" apurado lhes permite ainda detectar sinais el�tricos de baix�ssima pot�ncia. Com isso, podem achar peixes escondidos na areia. Segundo acreditam alguns cientistas, tamb�m percebem o campo magn�tico da Terra. Usam essas informa��es para se localizar e navegar pelos oceanos. V�rias esp�cies nadam milhares de quil�metros e voltam �s mesmas regi�es em determinadas �pocas. "Isso mostra que eles t�m senso de tempo e espa�o", diz o professor Vooren. "S� isso j� deveria ser um motivo para preserv�-los."

Existem tamb�m raz�es pr�ticas para preocupa��o com a amea�a aos tubar�es. At� agora, n�o h� ne-nhuma comprova��o cient�fica de que suas cartilagens previnam c�ncer ou qualquer outra doen�a nos seres humanos, mas elas t�m sido usadas com sucesso na fabrica��o de pele artificial para v�timas de queimaduras. As c�rneas de tubar�o tamb�m j� foram experimentadas em transplantes, e o sangue cont�m agentes anticoagulantes. Ainda n�o se sabe direito por que, mas os tubar�es t�m baix�ssima incid�ncia de diversas doen�as e especialmente de c�ncer. Em alguns experimentos, agentes cancer�genos foram injetados e os peixes n�o desenvolveram a doen�a, ao contr�rio do que acontece em outros animais. A esperan�a � que o estudo desse mecanismo imunol�gico possa resultar em avan�os na medicina. Atualmente, a probabilidade de que uma pessoa seja salva pelos tubar�es � maior do que a de ser atacada por um deles durante um banho de mar. Para isso, � preciso que n�o desapare�am antes.
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