Conta de Maluco Veja 06/10/1999 Confus�o de medidas derruba sonda espacial e mostra como � urgente esquecer p�s e polegadas
A escola ensina que para qualquer opera��o que envolva padr�es diferentes de pesos e medidas � necess�rio fazer a convers�o para um �nico sistema de unidade. Sem isso, � confus�o na certa. Na semana passada, a ag�ncia espacial americana, a Nasa, admitiu que um erro prim�rio como esse pode ter sido a causa do desvio, e depois da perda, da sonda Mars Climate Orbiter, que custou 125 milh�es de d�lares. A nave foi enviada ao espa�o para estudar o clima de Marte e espatifou-se ao entrar desastradamente na atmosfera marciana. Para o constrangimento dos cientistas americanos, a �nica explica��o � a sonda ter recebido informa��es conflitantes dos controladores de v�o. Ou seja, ao se aproximar do planeta vermelho, foi abastecida de dados em metro e em quilograma, do Sistema M�trico Decimal, e tamb�m em p� e em libra, unidades do Sistema Imperial Brit�nico. A comiss�o de cientistas que investiga o caso acredita que os programas de computador da Nasa n�o foram capazes de detectar as diferen�as entre valores expressos em dois sistemas.
O melhor time de navegadores espaciais do mundo acabou com uma nave car�ssima por causa da teimosia dos Estados Unidos e de outros pa�ses de origem anglo-sax� em manter esse sistema de medidas criado h� oito s�culos e que j� deveria ter virado pe�a de museu. "Somente o sistema m�trico deveria ser usado", diz Lorelle Young, a presidente da Associa��o M�trica dos Estados Unidos. "Ele � a l�ngua de toda ci�ncia sofisticada." De fato, � inconceb�vel para uma cabe�a adaptada ao sistema decimal a quantidade de c�lculos necess�ria para trabalhar com medidas como polegadas, jardas e p�s. A dificuldade de associa��o r�pida � assombrosa. Um p� se divide em 12 polegadas. A jarda tem 3 p�s e uma milha equivale a 1.760 jardas. Para responder quantas polegadas existem em uma milha sem fritar os neur�nios s� apelando de imediato para uma calculadora. S�o 63.360 polegadas. E em tr�s quartos de milha? � melhor esquecer. Pelo sistema m�trico, para se chegar a quantos cent�metros existem em um quil�metro, � s� pensar nas 100 subdivis�es do metro e acrescentar mais os tr�s zeros da milhar. O resultado: 100.000 cent�metros em cada quil�metro. Em tr�s quartos de quil�metro? Na ponta da l�ngua: 75.000 cent�metros.
Para abastecer o carro, o ingl�s e o americano pedem o combust�vel em gal�o e n�o em litro, bebe cerveja em pint e n�o em mililitro. Mede o peso em libra ou on�a. Para a temperatura adota um estranh�ssimo sistema com ebuli��o a 212 graus batizado como Fahrenheit e completamente diverso dos graus Celsius que o resto do mundo usa. Quando se leva em conta a origem do sistemas ent�o, parece piada. Houve um tempo em que a jarda era a dist�ncia que ia do nariz � extremidade do bra�o esticado do rei no poder, senhor de todos os padr�es. O p� era exatamente do tamanho do p� real e a polegada ia pelo mesmo caminho, vinculada ao dedo do soberano. Hoje n�o � assim, �bvio. A polegada n�o � o ded�o da rainha Elizabeth II, mas sim 2,5 cent�metros. Para se chegar � jarda tamb�m n�o � preciso medir o bra�o real: fechou-se a quest�o em 91,4 cent�metros. E o p�, ent�o, � uma lancha de 30,4 cent�metros, que claramente n�o corresponde �s dimens�es do de sua majestade.
Os padr�es do chamado Sistema Imperial Brit�nico foram adaptados ao sistema m�trico para poder funcionar como medidas modernas. "Mesmo com os ingleses mantendo os conceitos antropom�rficos, o metro e as demais unidades do sistema decimal acabaram vencendo a batalha", afirma Giorgio Moscati, professor do Instituto de F�sica da Universidade de S�o Paulo e membro do Comit� Internacional dos Pesos e Medidas. E por qu�? Porque o metro j� nasceu com conceitua��o cient�fica e filos�fica e n�o apenas pr�tica. Ele surgiu como uma unidade de medida f�sica imut�vel, no caso, a d�cima milion�sima parte da dist�ncia entre o P�lo Norte e o Equador, medida pelo meridiano que passa por Paris. Foi um produto do iluminismo franc�s, para acabar com as medidas arbitr�rias da Antiguidade e da Idade M�dia ainda em vigor no s�culo XVIII. E at� se sofisticou. Hoje ele � calculado com base no espa�o percorrido pela luz no v�cuo em determinado per�odo de tempo, o que permite uma calibragem de instrumentos com precis�o indiscut�vel.
O problema � que, por motivos culturais diversos pa�ses, entre eles a maior pot�ncia do planeta, relutam em abrir m�o de suas medidas arcaicas. O que foi disputa entre as pretens�es imperiais da Fran�a e da Inglaterra nos �ltimos dois s�culos virou um problem�o cient�fico para o futuro, como prova a bobagem cometida pelos cientistas da Nasa na semana retrasada. "N�o d� para trocar as medidas de uma hora para outra", explica o professor Moscati. "Assim como a jarda � incompreens�vel para n�s, o metro n�o passa de uma abstra��o para a maioria dos americanos e ingleses", diz ele. O resultado � um conflito de comunica��o entre metade do planeta que pensa de um jeito e o outro lado que pensa de outro, insustent�vel numa sociedade globalizada. Para resolver pendengas como essa, na pr�xima segunda-feira a Confer�ncia Geral dos Pesos e Medidas se re�ne mais uma vez em Paris, na Fran�a. Os especialistas discutir�o exatamente quais s�o as maneiras de acelerar o processo de unifica��o que adotar� definitivamente o sistema internacional de unidades, SI, que regulamenta o metro, o quilograma, o litro e os graus Celsius como padr�o. "A unifica��o no padr�o m�trico decimal � inevit�vel", afirma Moscati, que participar� da reuni�o. Os Estados Unidos aderiram ao sistema internacional em 1959. H� quatro anos, por for�a da Uni�o Europ�ia, a Inglaterra resolveu dar adeus definitivo � velharia baseada em p�s, polegares e narizes reais. Em ambos os pa�ses, o sistema m�trico convive com o imperial, mas a maioria da popula��o s� faz contas no estilo antigo. Por isso as trapalhadas como a ocorrida na Nasa. A confus�o est� longe de acabar. |