| A Solid�o do N�o Saber Veja 08/04/1998 Medo e criatividade � as duas marcas da popula��o analfabeta nos grandes centros urbanos Por tr�s de uma prosaica carta cheia de saudade para Inhapi h� todo um Brasil migrante de semi-analfabetos que se ajudam, se ap�iam, progridem e aprendem a viver na cidade grande � Comadre, estou precisando escrever uma carta para a minha m�e, l� no Norte. A mi�da Francisca, que n�o sabe escrever, e a corpulenta Sofia, que fez at� a 4� s�rie, s�o comadres de Inhapi, Alagoas. Levam a vida m�dia dos 3,5 milh�es de nordestinos que moram na regi�o metropolitana de S�o Paulo. Elas se entendem sem precisar falar muito. Numa tarde recente de domingo, instaladas na laje superior do sobrado de uma delas, na periferia de Ermelino Matarazzo, Zona Leste da capital, Sofia e Francisca d�o in�cio a uma comunica��o silenciosa, de fina sintonia. "Gra�as a Deus, ningu�m precisa me dar assunto, n�o. Deus me livre!", orgulha-se Sofia, a escrevedora, ao contar que ningu�m precisa ditar-lhe o que quer ver escrito. "Eu j� sei o que colocar, fa�o tudo sozinha. S� homem � que n�o me pede para fazer carta, acho que � porque eles t�m cisma de n�o saber escrever." Sofia tem seus pruridos. "N�o gosto de caderno pequeno, s� de caderno universit�rio. Preencho um lado todinho e depois o outro � sempre tem muito assunto para botar em carta." De fato. Sem que a comadre Francisca precise dizer mais nada, Sofia ajeita na coxa o caderno de espiral, concentra-se e n�o levanta mais a cabe�a. Num ritmo cont�nuo, fluvial, vai preenchendo linha por linha, frente e verso, tudo sem pontua��o. Acrescenta um inspirado Vire a carta, mas n�o o pensamento, no p� da primeira p�gina. Ao final de quinze minutos, p�ra e anuncia que vai ler, para a comadre ter certeza de que a carta ficou ao gosto. Come�a uma leitura sincopada, de repentista, com interpreta��o: Saudade da minha querida mam�e que est� t�o distante....pe�o uma b�n��o para eu ser bem feliz na vida...mam�e, eu n�o durmo s� pensando na senhora e na tia... No meio da leitura, a escrevedora lembra da pr�pria m�e, do pai � "ele sumiu, foi muito ingrato com n�s todos, mas � meu pai e est� vivo, ent�o d� saudade" � e sua voz vai amiudando, os olhos transbordando. De mansinho, Sofia come�a a chorar em cima de uma carta que nem sequer � sua. Chora de saudade, saudade da vida, saudade de tudo. Francisca, sentada a seu lado, chora junto, e forte. Sofia retoma a leitura. Um instante, dona Luiza... termino por falta de assunto... Ao final, dobra a folha com precis�o milim�trica, para faz�-la caber num envelope, endere�ado com um Vai para Senhora Luiza Terreza da Concei��o. Se tudo correr bem, a carta chegar� em tr�s, quatro dias, entregue pelo carteiro de Inhapi, que n�o sabe ler. Ser� recebida com a cerim�nia devida. "O envelope, sozinho, j� produz alegria imediata, sorriso", atesta o padre Valdiran Santos, tamb�m alagoano, mas de Arapiraca, igualmente migrado para S�o Paulo, ele mesmo escrevedor de cartas para pelo menos cinq�enta fam�lias nordestinas da capital. Roli�o e bem-humorado, padre Valdiran, de 35 anos, conta que celebrou missa em Juazeiro do Norte, em outubro passado, para 1.530 romeiros nordestinos. Ao perguntar se algu�m, ali, tinha parente em S�o Paulo, a igreja em peso levantou a m�o. Destes, a grande maioria ter� migrado sem as ferramentas b�sicas de alfabetiza��o para funcionar numa cidade grande. "O analfabeto � visto, por eles mesmos, como um cego que tem de ser guiado, acompanhado", constata o padre alagoano. "� como um passarinho que tem de receber alimenta��o no bico. A primeira vez que ele se arrisca a sair voando sozinho � como cair num precip�cio." Existe todo um c�digo para eludir a condi��o do analfabeto. "N�o quero que meus filhos sejam cegos como eu" (= n�o sei ler), "Minha filha n�o vai ser sofrida" (= minha filha estuda), "Estou com saudade da m�e, nunca mais tive not�cia" (= o senhor escreveria uma carta para mim?). "Dora", o personagem interpretado por Fernanda Montenegro no magistral filme Central do Brasil, de Walter Salles (veja cr�tica ), levantaria meio superc�lio em tom de reprova��o com o caldo de solidariedade, esperan�a, f�, partilha, acolhida, tempo para ouvir o outro e instinto de sobreviv�ncia que torna o migrante um desbravador na cidade grande. O analfabetismo adulto, da mesma forma que a loucura, � definido pela sociedade de acordo com sua �poca, seu tempo. Hoje em dia, pelos crit�rios deste final de s�culo, um em cada cinco adultos dos Estados Unidos e da Europa pode ser considerado analfabeto funcional. Ou, um "iletrado", express�o que diferencia o analfabeto absoluto daquele que n�o tem o padr�o m�nimo de conhecimento para operar na sociedade constru�da sobre a escrita. A pr�pria necessidade de conhecimento varia de acordo com cada sociedade, e por isso n�o h� crit�rio universal para designar pessoas com dificuldade de adequa��o ao dia-a-dia. Dependendo do pa�s, os crit�rios mudam. Na Pol�nia e no Canad�, por exemplo, � considerado funcionalmente analfabeto todo adulto com menos de oito anos de escolaridade. Na Su��a, o fato de um quarto dos efetivos do Ex�rcito n�o saber calcular uma porcentagem � um dado alarmante. No Canad�, 44% da popula��o jamais escreveu uma carta de mais de uma p�gina e 77% nunca p�s os p�s numa biblioteca. Visto que a aquisi��o de conhecimento � um processo cumulativo, quanto mais alto o patamar inicial, mais alto se chega. � o que os especialistas em educa��o chamam de s�ndrome de S�o Mateus: como na B�blia, os melhores se tornam melhores, e os mais fracos, mais fracos ainda. A escrevedora Sofia, por exemplo, que jamais leu um livro, tem uma B�blia em casa mas n�o consegue avan�ar na sua leitura, por demais complicada. A pr�pria Francisca procurou socorro no Telecurso 2000. Tamb�m n�o deu. "Eu estudava de dez a quinze minutos, mas as explica��es s�o muito r�pidas. Aprendi os n�meros e algumas letras. Mas as letras eram dif�ceis � a gente tem de aprender a juntar." Muitas vezes, mesmo quem sabe escrever ainda assim recorre a escrevedoras volunt�rias, como as que atuam no programa Minha Rua, Minha Casa, debaixo do viaduto do Glic�rio, deteriorada zona do centro de S�o Paulo. A volunt�ria Sheila Mermelstein, por exemplo, tem � sua frente um ex-radialista de Porteirinha, Minas Gerais, hoje morador de rua, que vem pedir-lhe uma carta para a tia. Ao final, Antonio pergunta: "Posso ler? A senhora desculpa, mas � s� pra ver". A pr�pria defini��o de analfabeto adotada pela Unesco quarenta anos atr�s � "aquele que n�o consegue ler e escrever um texto curto e simples sobre algo do seu dia-a-dia" � foi revisada em 1978. Hoje � mais complexa: "� analfabeto funcional aquele que n�o consegue desempenhar fun��es na comunidade ou no grupo em que a escrita � necess�ria, nem consegue melhorar seu meio atrav�s do recurso � leitura e da habilidade de fazer contas". No fundo, sabe-se com precis�o onde come�a o analfabetismo, mas n�o se sabe onde termina sua fronteira. Trata-se de um mundo que, propriamente falando, n�o existe. Ele � composto de imagens borradas, um territ�rio que se situa logo abaixo da superf�cie do complexo tecido que comp�e as sociedades industriais. Suas fronteiras n�o s�o claras, nem sua verdadeira extens�o. Freq�entemente surgem dados controversos sobre o n�mero de pessoas que habitam esse mundo. � um mundo dentro do mundo, t�o discreto, camuflado e silencioso que � quase invis�vel. � primeira vista, os homens e as mulheres que o freq�entam s�o como n�s. Mas na pr�tica eles vivem nas franjas da sociedade. Vivem, como resume o te�rico franc�s Jean-Pierre V�lis, � margem da civiliza��o. N�o � pouca gente. Segundo estudo divulgado em 1997 pelo Instituto Unesco, quase 23% dos adultos de hoje s�o incapazes de ler, escrever ou efetuar opera��es simples de matem�tica � um total de 960 milh�es de adultos. Detalhe: esse n�mero n�o diminuiu nas �ltimas duas d�cadas. Coisa de pa�s pobre? N�o, como se descobriu com a publica��o do pioneiro estudo Am�rica Iletrada, de Jonathan Kozol, em 1985: um em cada oito americanos n�o sabia ler, dos quais 41% eram brancos, 22% negros e 22% hisp�nicos. Na Su��a dos bancos e dos rel�gios, os iletrados somam 30.000 pessoas � excluindo-se, sempre, os imigrantes, e, segundo o iugoslavo Dusan M. Savicevic, da Universidade de Belgrado, uma educa��o de apenas quatro anos b�sicos n�o oferece alfabetiza��o permanente. O conhecimento claudicante tende a regredir e a se cristalizar num iletrismo funcional. Por essa �tica, o Brasil ainda se situa num dos patamares mais desoladores do mundo. Se, pelos dados da �ltima Pesquisa Nacional por Amostra de Domic�lios, PNAD (1996), quase 15% da popula��o brasileira com 15 anos ou mais, ou seja, 16 milh�es de pessoas, � analfabeta absoluta, o n�mero de cidad�os incapacitados para efetuar tarefas mais complexas pode chegar a cerca de 40%. Todo um mundo a ser descoberto. Na semana passada, ap�s passar apenas onze dias na Grande S�o Paulo, o mineiro Jos� Linus da Concei��o, nascido no Vale do Jequitinhonha, h� 25 anos, n�o ag�entou o tranco � voltou assustado para a terra natal, onde n�o tem cinema, onde nunca viu TV, onde jamais usou telefone. Sem instru��o, a vida de Z� se resumia a mexer com lavoura, tirar cascalho, pegar areia, ou de vez em quando domar um animal do mato. Veio tentar a sorte na cidade grande, incentivado pela irm� ca�ula, Cida, que fez o mesmo trajeto cinco anos antes, sozinha. Cida foi busc�-lo na rodovi�ria, instalou-o na periferia, na casa de uma comadre, e, no primeiro domingo de cidade grande, decidiu lev�-lo a um shopping center e ao cinema � Titanic. Z� ficou t�o atordoado com tudo, com as multid�es, o filme, o tr�nsito, o barulho, o medo de ser atropelado, que pediu para voltar. Cida, de apenas 21 anos, sabe o que � isso. Quando desembarcou na mesma rodovi�ria, tinha apenas 15 anos, nenhum documento, um beb� rec�m-nascido, que deixou com a m�e, e garra. "S� vim a saber o que era um ginecologista aqui em S�o Paulo, depois de j� ter um filho. Na minha cidade n�o tem m�dico. Achei que devia conhecer o mundo, j� que o mundo n�o ia chegar l� em Chapada do Norte." Cida, que trabalha desde os 4 anos de idade e cursou at� a 4� s�rie, � a cara do migrante decidido a acertar, a entender intuitivamente, a se adequar, e progredir. "Nos quatro primeiros meses em S�o Paulo, meu �nico passeio era do meu quarto at� a padaria, da padaria ao meu quarto. Depois aprendi a ir at� o Parque do Ibirapuera, que � maior do que a minha cidade. Comi muita b�ia fria, por n�o saber o que era um forno de microondas, e varri muito carpete com vassoura, de vergonha de perguntar como funcionava um aspirador de p�. Trem, at� hoje, me d� medo � aquelas ferragens todas d�o vontade de sair correndo. J� chorei muito, perdida na rua, olhando para todos os �nibus sem id�ia de qual pegar." Hoje, Cida tem intimidade absoluta com a cidade, e tamb�m escreve cartas para quem "n�o tem leitura". Freq�enta a Pastoral do Migrante, tornou-se assertiva, e sabe defender seus direitos. Ainda recentemente, mediu for�as com o guarda de uma escola judaica que a chamou de "neguinha". E jamais perdoar� a patroa que lhe disse, assim, na lata, que n�o lhe confiaria as chaves da casa porque ela era esperta demais para estar em S�o Paulo h� t�o pouco tempo. Na fic��o de Central do Brasil, um dos personagens-chave � o analfabetismo. Na vida real, tamb�m: 960 milh�es de adultos s�o analfabetos. H� 103 milh�es de pessoas com mais de 15 anos. Destes, 21,8 milh�es t�m menos de quatro anos de estudo e 52 milh�es, menos de oito anos de estudo � patamar que, no Canad� e na Pol�nia, ainda � considerado analfabetismo funcional. Existem 40 milh�es de analfabetos Mesmo para quem n�o tem estudo algum, como Odete Rodrigues Ferreira, cinco filhos e abandonada pelo marido, hoje com 68 anos, a sobreviv�ncia na cidade grande costuma ser regra, n�o exce��o. Odete chegou a S�o Paulo sem nenhum documento de identidade e "era tratada como bicho do mato". Ao arrumar seu segundo emprego de faxineira, muitos anos atr�s, precisou preencher uma ficha cadastral. Passou semanas decorando item por item da ficha, com a ajuda da filha estudante. "Decorei que primeiro vem o nome, depois o sobrenome, depois a idade, depois a data e local de nascimento, n�mero da carteira, e assim por diante", conta ela. "Consegui fazer ficha em tr�s ag�ncias de emprego, com tudo decorado." Hoje, na parede de sua sala de estar, a analfabeta Odete tem pendurado um diploma: o de ter trabalhado como faxineira durante dez anos numa empresa. Detalhe: duas de suas filhas est�o na faculdade, outra concluiu o 2� grau e a quarta concluiu o 1�. Odete continua sem saber ler um manual de instru��es, preencher um formul�rio, compreender uma bula, entender os termos de um contrato, achar alguma palavra num dicion�rio. Francisca, a da carta para Inhapi, perdeu a conta das vezes em que foi enganada pelos cobradores de �nibus, ou na feira, com troco errado. Aprendeu que todos os �nibus de S�o Paulo n�o v�o para o mesmo lugar, como l� no Norte. Ainda hoje anota o n�mero do �nibus na m�o, e tem medo de esquecer o nome do rem�dio que o m�dico lhe receita. "Acho terr�vel n�o saber as letras", diz. Mas � sua maneira, mesmo sem decifrar os signos da l�ngua, aprendeu a transformar sua pr�pria condi��o de vida. |
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