| Pobres At�micos Veja 03/06/1998 Paquist�o detona bombas para "empatar o placar" com a �ndia e aumenta a inseguran�a de todo o mundo O mundo acordou para um pesadelo na manh� de quinta-feira passada: o Paquist�o, um dos pa�ses mais miser�veis do planeta, anunciou sua entrada no pequeno grupo dos donos de armas nucleares detonando cinco bombas num rinc�o des�rtico. Como os paquistaneses vivem em permanente estado de beliger�ncia com a vizinha �ndia, outra na��o que se preocupou em estocar bombas nucleares antes de ser capaz de alimentar decentemente todos os seus habitantes, armou-se no sul da �sia uma situa��o de confronto como n�o se via desde os tempos mais perigosos da Guerra Fria. Invocando o nome de Al�, o Todo-Poderoso, o primeiro-ministro Nawaz Sharif anunciou que "empatamos o placar com a �ndia". O 5 a 5 referia-se ao mesmo n�mero de testes nucleares realizados pela �ndia h� duas semanas. Para agravar o cen�rio apocal�ptico esbo�ado no subcontinente indiano, o governo paquistan�s informou tamb�m que j� estava colocando ogivas nucleares nos seus m�sseis apontados para o inimigo do outro lado da fronteira. Foi a experi�ncia indiana, arrogantemente assumida, que acelerou a corrida nuclear dos pobres. Os Estados Unidos tentaram de tudo para dissuadir o Paquist�o de responder na mesma moeda at�mica: promessas de ajuda, amea�as de san��es, telefonemas insistentes do presidente Bill Clinton para Sharif durante a madrugada que antecedeu os testes. Sharif n�o quis pagar o pre�o do desgaste diante de uma opini�o p�blica em estado de surto desde os testes indianos. "Deixem que nos imponham san��es", disse um comerciante de Karachi, a maior cidade do pa�s, onde a popula��o comemorou as bombas reais com fogos de artif�cio, tiros para o alto e dan�a nas ruas � igualzinho aos indianos, duas semanas antes. "O Paquist�o agora � uma pot�ncia nuclear. N�o somos covardes e n�o nos curvamos � �ndia." Para refor�ar o papel de v�tima, o governo do Paquist�o inventou um suposto plano indiano de ataque preventivo contra suas instala��es nucleares, pretexto invocado para apressar os testes e decretar o estado de emerg�ncia pelo qual s�o suspensas garantias constitucionais que, de qualquer maneira, n�o costumam ter vida longa no pa�s. Sonhos de grandeza � Como no caso da �ndia, choveram sobre o Paquist�o condena��es internacionais e san��es econ�micas. Nada disso servir� para moderar os dois pa�ses, com tr�s guerras no curr�culo e um estado de beliger�ncia permanente na regi�o fronteiri�a de Cachemira. As san��es certamente v�o machucar � tanto que Sharif acompanhou o an�ncio dos testes nucleares com um plano de austeridade nacional. Como a imensa maioria dos paquistaneses n�o tem o que cortar, resta o consolo da "auto-estima" recuperada a poder de bombas. Do alto de sua economia de an�o, apesar dos sonhos de grandeza, o Paquist�o � muito mais dependente de ajuda internacional do que a �ndia. Com uma renda per capita de 470 d�lares (menos da metade da do Piau�, o Estado mais pobre do Brasil), o pa�s consome com gastos militares um ter�o do Or�amento nacional. J� em 1965, o ent�o primeiro-ministro Zulfikar Ali Bhutto, o pol�tico mais popular da hist�ria do Paquist�o (o que n�o o impediu de ser deposto e enforcado), havia declarado: "Se a �ndia construir sua bomba, vamos comer grama, passaremos at� fome, mas tamb�m faremos a nossa". Fome j� existe, e de sobra. Bomba tamb�m. Desde o fim da d�cada de 80, quando os Estados Unidos e a Uni�o Sovi�tica, j� a caminho do ocaso, iniciaram um processo verdadeiro de conten��o de seus arsenais nucleares, a humanidade vinha se sentindo mais segura. O uso das armas nucleares como um instrumento leg�timo da estrat�gia de poder come�ava a parecer coisa do passado. Com o fim da Guerra Fria, pa�ses que aspiravam ter a bomba, como o Brasil, e at� aqueles que j� a tinham, como a �frica do Sul, desistiram da aventura nuclear. Os dois vizinhos asi�ticos, no entanto, persistiram. Com uma bomba testada desde 1974, a �ndia deu um grande passo adiante ao realizar as novas explos�es e reivindicar o status de pot�ncia nuclear. Fez isso porque quer mais prest�gio internacional � e tamb�m por ter um governo ultranacionalista, declaradamente disposto a botar lenha na fogueira at�mica e, de quebra, faturar pontos na pol�tica interna. O Paquist�o, que seguia a t�tica de montar um programa nuclear completo, evitando apenas os testes para n�o levar a paulada das san��es internacionais, se sentiu na obriga��o de assumir, com a maior visibilidade poss�vel, a condi��o de dono de bomba. O clima, de patriotadas movidas a bomba e ret�rica belicista, � de dar medo. N�o se pode apostar muita coisa na modera��o no subcontinente indiano. Se americanos e sovi�ticos mantinham um di�logo permanente, n�o h� sombra de negocia��es entre a �ndia e o Paquist�o. A amea�a imediata � para os dois pa�ses, em estado de quase guerra desde a independ�ncia, em 1947. O fato de seus arsenais serem compostos de ogivas de menor poder explosivo �, ironicamente, outra m� not�cia. Se os Estados Unidos e a Uni�o Sovi�tica precisavam segurar o dedo no gatilho devido � certeza de aniquila��o m�tua, indianos e paquistaneses podem acreditar que � poss�vel sobreviver a uma guerra nuclear em pequena escala. Como s�o vizinhos, eles tamb�m n�o precisam de foguetes de longo alcance para pulverizar seus alvos. � nesses m�sseis que o Paquist�o anunciou estar instalando as ogivas nucleares. O projeto do m�ssil, rebatizado de Ghauri, foi comprado prontinho na Cor�ia do Norte. O Ghauri utiliza tecnologia dos antigos Scuds sovi�ticos e pode atingir alvos a at� 1.500 quil�metros. O pr�prio nome da arma ilustra o �dio dos mu�ulmanos paquistaneses contra os antigos compatriotas hindu�stas. Ghauri foi o guerreiro mu�ulmano do s�culo XII que, com o avan�o isl�mico, derrotou o �ltimo rei hindu de Delhi. O rei se chamava Prithviraj, e � por isso que o m�ssil indiano de maior alcance foi batizado de Prithvi. A inimizade religiosa e o �dio fratricida entre indianos e paquistaneses explodiram em larga escala por ocasi�o da independ�ncia da �ndia, em 1947. Com o desmanche do dom�nio colonial ingl�s, a solu��o parecia ser criar um pa�s para a popula��o mu�ulmana, o Paquist�o. O resultado foi um brutal deslocamento de refugiados � imensas massas humanas procurando o territ�rio correspondente a sua religi�o � que deixou 2 milh�es de mortos. Apenas um ano depois, Paquist�o e �ndia entraram em guerra pela regi�o de Cachemira, onde os mu�ulmanos s�o maioria. Dividida entre os dois pa�ses e a China, que se apossou de uma parte, a regi�o � convulsionada do lado indiano por um movimento rebelde mu�ulmano. Os dois Ex�rcitos rivais trocam tiros com freq��ncia na fronteira. � a�, justamente, que pode acontecer o impens�vel: soldados indianos entram em territ�rio paquistan�s para perseguir guerrilheiros, o outro lado reage, os combates ficam mais violentos. Usa-se, ent�o, uma arma nuclear t�tica, com raio de destrui��o restrito ao campo de batalha. Est� criado o pretexto para que um dos lados, qualquer um deles, mande um m�ssil despejar sua carga devastadora sobre uma grande cidade do inimigo. Este, naturalmente, parte para retalia��o � altura. � isso o holocausto nuclear que ficou mais pr�ximo. Os homens por tr�s das bombas A rivalidade entre o Paquist�o e a �ndia se deve, em grande parte, ao antagonismo religioso, mas os cientistas � frente dos programas nucleares de ambos os pa�ses s�o mu�ulmanos. Abdul Qadeer Khan, o pai da bomba paquistanesa, nasceu na �ndia e sua fam�lia seguiu o �xodo mu�ulmano quando o subcontinente foi dividido, em 1947. Mu�ulmano praticante num pa�s de maioria hindu�sta, Abdul Kalam � um nacionalista feroz, apaixonado pelo projeto de transformar a �ndia em pot�ncia. A milit�ncia e os cabelos revoltos, que lhe d�o a apar�ncia enganosa de um poeta rebelde, fizeram dele figura popular no pa�s. Os indianos o chamam carinhosamente de "homem-m�ssil", uma homenagem ao criador do foguete Prithvi, cuja miss�o � levar a bomba nuclear at� o vizinho Paquist�o. O paquistan�s Khan � uma personagem bem diferente, que comanda um laborat�rio secreto batizado com seu pr�prio nome. Sua reputa��o � de cientista brilhante, mas capaz de qualquer vilania para atingir seu objetivo. Anos atr�s precisou fugir �s pressas da Holanda, onde est� condenado � pris�o por roubo de tecnologia nuclear. No in�cio de maio, soube-se por um documento apreendido em Bagd� que ofereceu ao Iraque tecnologia para fabricar a bomba at�mica � a dissemina��o da "bomba isl�mica" � um dos fatores de alto risco do atual quadro. Desde que explodiu suas bombas, Khan � o homem mais popular do pa�s. |
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