Loteria Mortal                                    Veja 11/02/1998
Pol�mica sobre execu��o de mulher coloca em discuss�o a aplica��o da pena de morte

�s 6h30 da tarde de ter�a-feira passada, hora local, quando as testemunhas puderam entrar na sala adjacente � c�mara de morte da pris�o em Huntsville, no Estado do Texas, Karla Faye Tucker, uma morena de cabelos cacheados e 38 anos, j� estava presa � maca por cintos de couro. Agulhas pendiam de suas veias pouco abaixo do cotovelo, uma em cada bra�o. Segundo a rotina nas execu��es nos Estados Unidos, foi-lhe oferecida a oportunidade de expressar as �ltimas palavras. Com o rosto voltado para as testemunhas do outro lado do painel de vidro, ela disse estar indo encontrar Jesus "cara a cara" e pediu desculpa aos parentes do casal que matou a golpes de picareta, em 1983. A inje��o letal, que na realidade consiste de tr�s doses sucessivas de drogas diversas, foi aplicada logo depois. Primeiro, pentotal s�dico, que induz � inconsci�ncia. Em seguida, brometo de pancur�nio, um poderoso relaxante muscular que paralisa o diafragma e os pulm�es. Por fim, cloreto de pot�ssio, que p�ra o cora��o. As testemunhas viram Karla engasgar duas vezes e ouviram o som prolongado do ar escapando de seus pulm�es. �s 6h45, foi declarada morta.

O Estado do Texas executou 37 homens no ano passado, com o m�nimo de repercuss�o  o que chamou tanta aten��o, desta vez, foi o fato de uma mulher estar sendo conduzida � c�mara de morte. Desde 1976, quando a Suprema Corte restabeleceu a pena de morte depois de um hiato de quatro anos, 432 condenados j� foram executados em todos os Estados Unidos, mas s� uma mulher, em 1984 (o Texas n�o matava nenhuma desde o s�culo passado). Para a opini�o p�blica, pesaram a favor de Karla o fato de ter abra�ado com fervor a f� evang�lica na pris�o  ela at� se casou com um pastor, embora sem jamais consumar a uni�o  e o profundo arrependimento pelo crime. Al�m, naturalmente, de ser mulher, de boa apar�ncia e desenvoltura diante das c�maras de televis�o, que lhe deram fama nacional nas �ltimas semanas de vida. No dia da execu��o, mais de 3.000 telefonemas congestionaram as linhas no gabinete do governador, 80% deles pedindo a comuta��o da pena em pris�o perp�tua. Em v�o. Karla, que come�ou a fumar maconha aos 8 anos, tomou a primeira dose de hero�na aos 10 e foi introduzida na prostitui��o pela pr�pria m�e, n�o estava no corredor da morte por acaso. Com seu namorado na �poca, ela ajudou a mutilar barbaramente um casal para roubar ninharias. Consta em sua confiss�o que os golpes de picareta no corpo das v�timas a levaram ao orgasmo.

Apoio da maioria  Casos como o de Karla s�o exce��o. A maioria dos americanos continua acreditando que o melhor meio de proteger a sociedade � tirar a vida do criminoso. O apoio � pena de morte, segundo o Instituto Gallup, subiu de 42% em 1966 para 77% em 1996. Essa opini�o n�o se abala nem pela exce��o do caso dos Estados Unidos, �nico pa�s rico, de tradi��o ocidental, onde ainda existe a pena de morte, nem pelo modo caprichoso como se cumpre a senten�a. Embora 74 condenados tenham sido executados no ano passado, cerca de 3.400 permanecem no corredor da morte, alguns h� d�cadas. Criada para evitar a morte de inocentes, a legisla��o deixa espa�o para manobras que adiam a execu��o ou at� podem libertar o condenado. Se tivesse a senten�a mudada para pris�o perp�tua, Karla Tucker poderia pedir liberdade condicional em 2003.

Faz-se, portanto, justi�a, ainda que da forma mais brutal? "S� uma pequena porcentagem dos condenados � executada, criando uma loteria completamente injusta", sustenta o professor John J. DiIulio, da Universidade Princeton, partid�rio de leis severas contra o crime. "J� que n�o conseguimos aplic�-la de forma justa, devemos considerar sua aboli��o." O risco desse racioc�nio � que pode ser usado de maneira inversa: se o Estado s� consegue matar uma parcela dos condenados, o problema � simplesmente operacional.

Namoro de alto risco
A Justi�a isl�mica, na vers�o mais primitiva adotada no Ir� dos aiatol�s e outros pa�ses fundamentalistas, � severa com os criminosos. Manda cortar a m�o dos ladr�es e decapitar os assassinos  senten�as cru�is, mas que muitos ocidentais podem compreender, quando n�o aplaudir. Mais dif�cil � aceitar a senten�a dada contra o alem�o Helmut Hofer h� duas semanas. Acusado de manter rela��es sexuais com uma mu�ulmana, ele foi condenado � morte por apedrejamento por um tribunal de Teer�. O que agravou a pena foi sua condi��o de infiel. Um mu�ulmano na mesma situa��o teria se safado com uma senten�a de oitenta chibatadas.

A namorada, uma estudante de medicina de 27 anos, foi sentenciada a 99 chibatadas. Hofer, de 56 anos, que estava no Ir� a neg�cios, afirma que trocou um �nico beijo com a estudante. Al�m de entrar com recurso na Suprema Corte do Ir�, o alem�o tamb�m se ofereceu para resolver tudo casando com a mo�a. "Casamento s� se ele se converter ao islamismo", explica o coordenador da Sociedade Beneficente Mu�ulmana de S�o Paulo, xeque Armando Hussein Saleh. "De qualquer forma, pela lei isl�mica ele s� ser� executado se a promotoria apresentar quatro testemunhas visuais do ato sexual."
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