Ganhou e N�o Levou                          Veja 05/05/1999
Os inventores brasileiros e suas m�quinas maravilhosas n�o reconhecidas mundialmente

A medida que o final do s�culo se aproxima, surgem as inevit�veis listas dos g�nios respons�veis pelos maiores avan�os tecnol�gicos da humanidade. Embora seja sempre revestido de certo rigor, esse tipo de elei��o raramente deixa de refletir as prefer�ncias de quem o organiza. "Escolher � ser parcial", diz Harold Bloom, estudioso americano autor de O C�none Ocidental, um tratado erudito sobre os livros que, para ele, s�o os pilares da cultura atual. E � mesmo. Na lista dos maiores cientistas do mil�nio da revista francesa Recherche, quem predomina? �bvio. Os cientistas franceses. Em sua edi��o especial do mil�nio, a revista Time d� mais destaque � quase desconhecida ambientalista americana Rachel Carson do que ao legend�rio defensor dos mares, o ocean�grafo franc�s Jacques Cousteau. � do jogo. VEJA oferece a seguir uma rela��o de inventores e pioneiros que s� n�o entraram nas listas estrangeiras por uma falha de rela��es p�blicas.

Avia��o
1- Santos Dumont: 23 de outubro de 1906 � A bordo do 14 Bis, uma nave com fuselagem de bambu, pano e um motor de 50 cavalos, Santos Dumont se eleva acima de 2 metros e percorre 60 metros num gramado de Paris

2- Wilbur e Orville Wright: 17 de dezembro de 1903 � Wilbur � o piloto do primeiro v�o de doze segundos do Flyer, nave motorizada feita de madeira e pano, em Kitty Hawk, Carolina do Norte

Quem venceu: enquanto Santos Dumont se exibia para a plat�ia parisiense, os irm�os Wright tratavam de viabilizar comercialmente sua id�ia. Conseguiram a patente e fizeram um contrato com o Ex�rcito americano

Uma das hist�rias mais fabulosas � a do padre ga�cho Roberto Landell de Moura. No final do s�culo passado, ele aproveitou um per�odo de estudos em Roma para aprofundar-se nas pesquisas sobre a possibilidade de enviar sons e sinais pelo ar, a grandes dist�ncias e sem a ajuda de fios. Landell voltou ao Brasil em 1886, foi morar em Campinas, interior de S�o Paulo, e continuou pesquisando. Logo desenvolveu um aparelho formado por uma v�lvula e tr�s eletrodos. O grande teste da engenhoca ocorreu numa transmiss�o efetuada na capital do Estado. O sinal do invento de Landell, transmitido da Avenida Paulista, foi captado no bairro de Santana, a 8 quil�metros de dist�ncia. Um rep�rter do Jornal do Com�rcio e um representante do governo brit�nico testemunharam o feito, realizado em 1894. S� sete anos depois o italiano Guglielmo Marconi transmitiria o "S" do c�digo morse de uma esta��o telegr�fica da Inglaterra para outra, nos Estados Unidos. Sua experi�ncia � tida como o marco inicial da radiotransmiss�o. "� muito comum encontrar na Hist�ria v�rios pesquisadores desenvolvendo em locais diferentes a mesma tecnologia", afirma o jornalista Reynaldo Tavares, autor do livro Hist�rias que o R�dio N�o Contou. "Marconi e o padre Landell s�o exemplos disso, e o italiano levou o cr�dito porque contou com todo o apoio do governo italiano para suas experi�ncias."

Pacto com o dem�nio � Enquanto seu rival italiano ficava famoso, Landell de Moura era perseguido no interior do Brasil. O padre conseguiu registrar no pa�s e nos Estados Unidos patentes para "um aparelho apropriado � transmiss�o da palavra a dist�ncia, com ou sem fios, atrav�s do espa�o, da terra e da �gua". Mas n�o escapou da desconfian�a da diocese paulista e dos moradores de Campinas. Foi acusado de bruxaria, pois era dado a falar com "vozes do al�m", e seu laborat�rio foi destru�do. Em 1905, perdeu a grande chance de mudar sua sorte e a da tecnologia de ponta do pa�s ao ser recebido por um assessor do presidente Rodrigues Alves. O inventor queria tomar emprestados dois navios da Marinha para uma demonstra��o p�blica de seu aparelho. A conversa corria bem at� que Landell, entusiasmado, afirmou que sua cria��o seria usada no futuro at� para transmiss�es interplanet�rias. Antes de mand�-lo de volta para casa, o assessor escreveu o seguinte despacho ao presidente: "Excel�ncia, o tal padre � maluco". Um dia depois, Landell recebia em casa um telegrama de Rodrigues Alves recusando educadamente o empr�stimo dos navios.

Debates a respeito da paternidade de novas id�ias ocorrem n�o apenas por quest�es de nacionalismo. Muitas vezes acontecem coincid�ncias mesmo e pessoas diferentes desenvolvem projetos semelhantes ao mesmo tempo (veja quadro). Foi o que ocorreu com a fotografia. No come�o do s�culo passado v�rios inventores estudaram m�todos para fixar imagens em papel. Cada pesquisador deu uma contribui��o importante ao processo, mas foi o artista franc�s Louis-Jacques Mand� Daguerre quem levou a fama. Em 1837, depois de batizar seu invento de "daguerre�tipo", ele convenceu o governo de seu pa�s a comprar a patente do aparelho.

M�quina de escrever
3- Francisco Jo�o de Azevedo: 1861 � O padre paraibano construiu um prot�tipo que era acionado por um sistema de pedais, como as antigas m�quinas de costura

4- Christopher Latham Sholes: 1867 � Sholes, tip�grafo americano, construiu um modelo de madeira e metal, com porta-tipos independentes acionados por um sistema de teclas e arames.

Quem venceu: a m�quina de Azevedo funcionava, mas foi Sholes quem produziu o modelo que serviu de base � produ��o industrial do equipamento

Aventura na selva � Na mesma �poca, um compatriota de Daguerre radicado no Brasil realizou experi�ncias muito parecidas �s de seus colegas europeus. Nascido em Nice, o franc�s Hercule Florence mudou-se para o Brasil aos 20 anos. �timo desenhista, foi convidado a participar de uma expedi��o cient�fica ao interior do pa�s organizada pelo c�nsul da R�ssia, Georg Heinrich von Langsdorff. A aventura ficou c�lebre por seus resultados desastrosos. Depois de partir de Minas Gerais, em 1825, a comitiva percorreu 15.000 quil�metros em quatro anos. Entre outros contratempos, Langsdorff enlouqueceu no meio do caminho e um dos integrantes morreu afogado. As perip�cias da viagem ficaram conhecidas gra�as �s anota��es de Florence em seu di�rio. Anos depois, j� morando em Campinas, no interior de S�o Paulo, o franc�s come�ou a pesquisar meios de reproduzir seus estudos sobre zoologia. Em 1833, ele descreve no di�rio uma experi�ncia com o registro da imagem de uma janela feito por uma caixa preta, um sistema de espelhos e um papel embebido numa solu��o de nitrato de prata. Quando soube das experi�ncias na Europa do patr�cio Daguerre, desabafou no di�rio: "Imprimi por meio de sol sete anos antes de se falar em fotografia. J� tinha lhe dado esse nome, entretanto couberam a Daguerre todas as honras".

Os grandes inventores distinguiram-se de seus rivais n�o s� por causa de id�ias geniais. Al�m da criatividade, possu�am um formid�vel talento para o marketing pessoal e eram espertos homens de neg�cios. O tip�grafo americano Christopher Latham Sholes, tido como o criador da m�quina de datilografia, � um mestre do g�nero. A id�ia de escrever por um meio mec�nico surgiu no s�culo XVIII, quando a rainha Anne, da Inglaterra, concede a primeira patente de uma m�quina de escrever. O autor do pedido, Henry Mill, por�m, n�o consegue tirar sua id�ia do papel. V�rios outros inventores desenvolveram prot�tipos, mas � o americano Sholes que, em 1867, consegue produzir o primeiro modelo que funciona. Sholes vende seu projeto para a Remington, fabricante de armas que investe pesado na produ��o industrial do novo artefato. A empresa contratou o escritor Mark Twain como garoto-propaganda, distribuiu cartazes com a foto da filha de Sholes trabalhando na m�quina e organizou os primeiros cursos de datilografia.

R�dio
5- Roberto Landell de Moura: 1894 � O padre ga�cho fez uma transmiss�o de voz da Avenida Paulista para Santana, bairro em S�o Paulo a 8 quil�metros de dist�ncia. Depois da experi�ncia, registrou patente de sua inven��o no Brasil e nos Estados Unidos. Na d�cada de 80, alunos de engenharia remontaram o aparelho. E ele funcionou perfeitamente

Guglielmo Marconi: 1901 � O f�sico italiano envia pelo ar o sinal "S", do c�digo morse, da Inglaterra para os Estados Unidos, cobrindo uma dist�ncia de 3 500 quil�metros pelo Oceano Atl�ntico. A experi�ncia � considerada at� hoje o marco inicial da radiotransmiss�o mundial

Quem venceu: Landell n�o foi levado a s�rio por seus compatriotas na �poca. Enquanto isso, Marconi contou com a ajuda do governo italiano para divulgar seu intento

Invento roubado � Seis anos antes da inven��o de Sholes, por�m, um padre paraibano, Francisco Jo�o de Azevedo, j� circulava por exposi��es no Brasil com um modelo de m�quina de escrever que funcionava perfeitamente. Professor de cursos t�cnicos de geometria, desenho e mec�nica, o padre concebeu seu projeto nas oficinas de uma f�brica de armamentos do Ex�rcito. A geringon�a era um m�vel de jacarand� equipado com teclado de dezesseis tipos e pedal. Tinha a apar�ncia de um piano. Cada tecla da m�quina de Francisco acionava uma haste comprida com uma letra na ponta. Combinando-se duas ou mais teclas era poss�vel reproduzir todo o alfabeto, al�m dos outros sinais ortogr�ficos. O pedal servia para o datil�grafo mudar de linha no papel. A m�quina era um sucesso por onde passava. Chegou a ser mostrada numa exposi��o do Rio de Janeiro, na presen�a do imperador Pedro II. Nesse evento, o padre recebeu uma medalha de ouro dos ju�zes em reconhecimento a seu projeto revolucion�rio. Depois a id�ia foi esquecida. Ataliba Nogueira, bi�grafo do padre Azevedo, sustenta que seus desenhos foram roubados por um estrangeiro, desestimulando-o a continuar no desenvolvimento da inven��o. Ainda assim, os primeiros cursos de datilografia no Brasil exibiam na parede retratos do padre para homenagear o patrono da m�quina de escrever. As escolas financiadas pela Remington faziam o mesmo, s� que com o retrato de Sholes.

Os maiores aviadores brasileiros tamb�m tiveram problemas para ser reconhecidos. � o caso de Jo�o Ribeiro de Barros, que entrou na corrida para se tornar o pioneiro das travessias transatl�nticas. Barros realizou sua viagem a bordo do hidroavi�o Jah� no dia 28 de abril de 1927. Antes de decolar da Ilha de Cabo Verde, na �frica, enfrentou problemas como sabotagens e intrigas com a tripula��o. No auge da confus�o, chegou a receber um telegrama do presidente Washington Lu�s desaconselhando a viagem. Barros ignorou a ordem e foi recebido com festa no Brasil, depois de seu pouso em Fernando de Noronha. As gl�rias da travessia pioneira, por�m, foram atribu�das ao americano Charles Lindbergh, que completou a rota Paris�Nova York 23 dias depois da fa�anha do piloto brasileiro. Em sua aventura, por�m, Lindbergh cumpriu quase o dobro da dist�ncia coberta pelo Jah�. Barros escolheu a rota mais f�cil, que j� havia sido percorrida por outros pilotos europeus.

Fotografia
6- Hercule Florence: 1833 � Florence, desenhista franc�s que morava em Campinas, reproduz a imagem de uma janela utilizando uma caixa equipada com uma lente e um papel embebido em nitrato de prata

7- Louis-Jacques Mand� Daguerre: 1837 � O franc�s Daguerre aperfei�oa o sistema de seu s�cio, Joseph-Nic�phore Niepce, pioneiro na reprodu��o de imagem por processos qu�micos, e vende a patente do "daguerre�tipo" ao governo franc�s

Quem venceu: Florence estava entre os pioneiros que pesquisaram os princ�pios da fotografia, mas Daguerre foi o primeiro a comercializar o invento

A mem�ria do aviador brasileiro s� � cultuada em sua cidade natal, Ja�, no interior de S�o Paulo. Existe um busto de Barros decorando a pra�a principal do lugar e o anivers�rio de 72 anos do feito, ocorrido na semana passada, mereceu animadas comemora��es no munic�pio, com lan�amento de um CD com o hino em homenagem ao piloto. O avi�o de Barros e muitos de seus objetos pessoais, por�m, encontram-se abandonados no Museu de Aeron�utica, em S�o Paulo. O Jah� foi atacado por cupins e j� serviu de abrigo para fam�lias de mendigos. Por isso, a fam�lia do aviador luta na Justi�a desde 1992 para recuperar a posse do esp�lio. "Nossa fam�lia reconhece que outros aviadores percorreram antes a rota entre Cabo Verde e Fernando de Noronha, mas est� claro que o Jah� foi o primeiro avi�o pilotado por algu�m das Am�ricas a fazer a travessia do Atl�ntico", afirma Jos� Ribeiro de Barros Filho, sobrinho do aviador. "� uma injusti�a hist�rica atribu�rem o feito a Lindbergh."

Por ironia, o �nico inventor brasileiro com talento para divulgar ao mundo suas fa�anhas tamb�m n�o conseguiu ser reconhecido. No dia de seu famoso v�o por Paris a bordo do 14 Bis, Santos Dumont contava com uma plat�ia de centenas de pessoas, entre elas v�rios membros de uma respeitada institui��o, o Aeroclube da Fran�a. A fa�anha repercutiu nos jornais europeus e transformou Dumont num her�i brasileiro. Fora do pa�s, por�m, seu feito foi ofuscado pelo v�o dos irm�os Wright. Eles sobrevoaram por doze segundos um campo da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, em 1903 � portanto, tr�s anos antes do 14 Bis. Mas apenas cinco pessoas testemunharam o feito e at� hoje paira sobre ele a suspeita de que os americanos usaram uma catapulta para facilitar a decolagem de seu avi�o, Flyer. Os Wright n�o deram import�ncia �s cr�ticas e foram incans�veis no desenvolvimento comercial de seu projeto. Em 1906 j� detinham a patente do invento. Dois anos depois assinaram um contrato de fornecimento de aeroplanos para o Ex�rcito americano. Quando fizeram sua primeira apresenta��o p�blica, em 1908, em Paris, v�rios outros modelos mais pesados do que o ar j� haviam sobrevoado a cidade. Enquanto isso, Santos Dumont realizou mais alguns testes bem-sucedidos com o 14 Bis e passou a desenvolver um pequeno avi�o batizado de Demoiselle. No verbete dedicado ao brasileiro, a Enciclop�dia Brit�nica diz que o Demoiselle foi o ancestral dos modernos ultraleves. Enfim, algum reconhecimento.


Mera coincid�ncia
No Brasil h� quem defenda que o "pai da avia��o" n�o foi Santos Dumont, muito menos os americanos irm�os Wright. O verdadeiro criador teria sido o paraense J�lio C�sar Ribeiro de Souza. Figura pouco citada at� mesmo em livros brasileiros, Souza construiu em 1881 um dos primeiros bal�es dirig�veis do mundo, o Vict�ria. Segundo os jornais e documentos da �poca, o modelo com 10 metros de comprimento e duas asas foi o primeiro a andar em linha reta. Na experi�ncia, ocorrida em Paris, o aparelho voou a uma velocidade de 8 metros por segundo. Entusiasmado com o sucesso do Vict�ria, o piloto registrou a patente em onze pa�ses. Alguns anos depois, sem dinheiro e revoltado com o que considerava ter sido um roubo da inven��o, j� que na Europa todos passaram a usar um sistema semelhante ao seu, Souza conseguiu dinheiro emprestado do governo do Par� para fazer alguns protestos na Fran�a. Seus esfor�os n�o deram em nada e ele morreu aos 43 anos em seu Estado, sem dinheiro e sem gl�ria.

Uma das maiores coincid�ncias cient�ficas cruzou a hist�ria dos ingleses Charles Darwin e Alfred Russell Wallace em meados do s�culo passado. Percorrendo caminhos diferentes, os dois desenvolveram ao mesmo tempo trabalhos semelhantes sobre a teoria da evolu��o das esp�cies. Em seus estudos, Wallace andou pelo Pac�fico Sul e mais tarde pela Amaz�nia, onde recolhia esp�cimes raros para vender na Europa. As pesquisas levaram-no a escrever um manuscrito em que abordava a sele��o natural como o motor da evolu��o. Em vez de mandar a obra para ser publicada, enviou-a para aprecia��o de Darwin, com quem j� mantinha correspond�ncia. Depois de l�-la Darwin decidiu pela publica��o dos pr�prios estudos, que vinha protelando havia vinte anos. Sem m�goa, Russell reconheceu que sua maior contribui��o � ci�ncia foi ter for�ado Darwin a divulgar sua teoria. O mais comum nesses casos, no entanto, � a conflagra��o de conflitos. Recentemente a disputa entre o m�dico americano Robert Gallo e seu colega franc�s Luc Montagnier em torno da primazia na descoberta do v�rus da Aids foi parar nos tribunais, com preju�zo para a reputa��o de ambos.
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