Fuma�a no Escuro
V eja 04/03/1998
Banido da vida real, o cigarro volta a embalar as aventuras dos mocinhos do cinema

Acuados pelas campanhas antitabagistas, confinados a fum�dromos desconfort�veis nos escrit�rios e discriminados em bares e restaurantes, os fumantes t�m passado maus bocados em quase todos os locais p�blicos que freq�entam. N�o havia um desses cultuadores da fuma�a azulada, contudo, que, indo ao cinema, n�o sentisse um al�vio secreto. Na semana passada, a divulga��o do relat�rio Smoking in Films, elaborado pelo departamento do governo brit�nico encarregado da educa��o em sa�de, o Health Education Authority, HEA, explicou por qu�. Entre 1990 e 1995, o n�mero de cenas em que atores apareceram fumando cresceu quatro vezes. Os ma�os de cigarro, em especial o Marlboro, refulgiram nos filmes com uma freq��ncia seis vezes maior. Mais um dado: se em 1990 apenas um em cada cinco protagonistas era visto fumando, cinco anos depois o cigarro j� envolvia a metade dos personagens principais. Para ter uma id�ia do que isso significa, basta assistir a filmes como Apollo 13. Dirigida por Ron Howard, a obra mostra cigarros em 53 cenas. Em O Casamento de Muriel, a apologia ao fumo � ainda mais evidente  podem-se contar 62 cenas em que o cigarro aparece. O excesso n�o � nada se comparado a Waterworld. A megaprodu��o estrelada por Kevin Costner tem 121 cenas enfuma�adas. O professor de cinema da Universidade Norte de Londres Kenneth MacKinnon, co-autor do estudo, mostra que o h�bito de fumar est� sendo associado � "imagem de rebeldia", segundo ele ideal para atrair � depend�ncia da nicotina os adolescentes e jovens. "A maioria dos jovens acaba encarando o v�cio como uma maneira de quebrar os padr�es estabelecidos", diz MacKinnon.

�dolo de adolescentes de todo o mundo, Leonardo DiCaprio fuma em Romeu e Julieta e em Titanic. Brad Pitt faz o mesmo em Sleepers. At� a lindona Julia Roberts entrou na n�voa de tabaco durante as filmagens de O Casamento de Meu Melhor Amigo, no qual seu personagem fuma num corredor de hotel, sob a placa que interdita o cigarro. A cena � uma afronta t�o grande � moralidade politicamente correta que os Estados Unidos exportam para o planeta que a pr�pria primeira-dama americana, Hillary Clinton, saiu de seus afazeres para contra-atacar. Num artigo publicado em v�rios jornais, escreveu: "Esse retrato de mulher moderna t�o associado ao tabagismo � particularmente preocupante, dado que mais e mais jovens est�o adotando esse h�bito mortal". Secundando a mulher do presidente, desde o ano passado, sindicatos de atores, diretores e produtores de cinema do pa�s acusam a ind�stria tabagista de usar o cinema para divulgar seus produtos.

Ritual  Paran�ias � parte, o certo � que a apari��o de cenas envoltas na fuma�a nicotinada tem crescido na exata medida em que aumentam as restri��es � publicidade de tabaco. Aquelas imagens de homens que praticavam esportes radicais, antes que come�asse o verdadeiro ritual de prazer  sugar o cigarro , podiam ser muito persuasivas como pe�as publicit�rias. Mas quando o Minist�rio da Sa�de passou a obrigar os fabricantes a encerrar as cenas com o cartaz de advert�ncia sobre os malef�cios do tabagismo, a coisa ficou mais dif�cil. No Brasil, outras medidas pioraram a situa��o da ind�stria. Toda a publicidade de r�dio e TV sobre cigarros est� confinada aos hor�rios de menor audi�ncia. E isso acontece em todo o mundo.

Segundo dados do HEA ingl�s, nos �ltimos anos a depend�ncia da nicotina vem crescendo em apenas um �nico grupo da popula��o: exatamente o dos adolescentes entre 16 e 24 anos. Para evitar que mais gente se junte aos quase 2 milh�es de jovens fumantes do pa�s, a entidade quer que a ind�stria do fumo reveja sua participa��o no cinema. "Isso tudo � um completo disparate", critica John Carlisle, diretor executivo da Associa��o dos Produtores de Tabaco. "Eles est�o tentando se transformar em uma nova esp�cie de censor, aquele que limita a cria��o art�stica em nome da boa sa�de." � um sinal dos tempos que seja a ind�stria do cigarro a principal voz a se levantar contra a nova censura. � curioso como se est� voltando a uma �poca em que cigarro era associado a uma coisa positiva no cinema. Quem quer que se lembre de Humphrey Bogart, em Casablanca, ou de Ava Gardner acendendo seu cigarro no de Gregory Peck, em As Neves do Kilimanjaro, sabe que nesses filmes cigarro era identificado com glamour. Agora, a inclina��o parece estar mais para rebeldia. D� exatamente na mesma. Entre os dois per�odos, viveu-se uma era em que cigarro, em cinema, s� podia confundir-se com os piores tipos, os caracteres vis, as personalidades decadentes. Nada como um cigarro depois do outro, ou melhor, um per�odo depois do outro.

As provas irrefut�veis
Cinema � assunto da cultura, pol�mico, portanto. Mas os pulm�es pertencem ao dom�nio da medicina. E nesse campo as evid�ncias s�o arrasadoras e definitivas. A ind�stria do tabaco fez o que p�de para escamotear os efeitos delet�rios do cigarro, mas, em mar�o de 1997, sofreu o mais duro dos golpes. Vieram a p�blico documentos internos da Liggett, fabricante do L&M. Neles, a pr�pria empresa reconhecia, secretamente, os malef�cios do fumo. A press�o antitabagista ganhou mais for�a ainda. Cresceram as restri��es � fuma�a em locais p�blicos fechados. Alvo de milhares de a��es judiciais por danos � sa�de causados pelo v�cio, as companhias tiveram de fazer uma s�rie de concess�es. Nos Estados Unidos, em troca de prote��o contra futuros processos na Justi�a, a ind�stria concordou em banir todos os desenhos de apelo infanto-juvenil dos an�ncios de cigarro  como aquele camelo simp�tico com fei��es f�licas, o Joe Camel, personagem das campanhas da RJR Nabisco. � uma guerra que j� surte efeitos nos pa�ses desenvolvidos, que acusam um decr�scimo nos dependentes de nicotina da ordem de 2% por ano.

Uma das sa�das encontradas pela ind�stria para garantir faturamento foi investir pesado nas popula��es mais pobres destaque para o Leste Europeu e a Am�rica Latina. O Brasil, por exemplo, nunca fumou tanto. Entre 1994 e 1995, o consumo anual de cigarros saltou 10%. E os brasileiros ainda fumam pouco se comparados a outros povos (veja quadro ao lado). As conseq��ncias s�o funestas. Trinta por cento de todos os c�nceres est�o associados ao fumo, assim como 85% das doen�as pulmonares e 50% dos problemas cardiovasculares. Recentemente, os cientistas passaram a centrar fogo no perigo da fuma�a do cigarro para quem n�o fuma, mas, em casa, no trabalho ou na festa, � obrigado a conviver com as baforadas alheias. A cada nova pesquisa descobre-se que os chamados fumantes passivos correm o risco de desenvolver doen�as associadas ao tabaco tal qual os fumantes. O mais recente estudo, divulgado h� duas semanas, revela: quadruplicam as chances de uma gr�vida dar � luz um beb� de baixo peso se ela se expuser � fuma�a do cigarro de terceiros.
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