| Folia, sempre Folia Veja 25/02/1998 Nos quatro dias do Carnaval, uma hist�ria de prazeres Luzes do Samb�dromo acesas, arquibancadas repletas, c�meras de televis�o assestadas contra as partes rotundas de mulatas e atrizes e o tum-tum-tum onipresente dos tambores. Quando os desfiles se iniciarem, no s�bado, o pa�s estar� de novo diante da mais espetacular ilus�o brasileira, os quatro dias da folia do Carnaval. Antrop�logos e soci�logos j� tentaram sem �xito explicar a magnitude do desvario que se apossa da popula��o nesta �poca do ano. Uma bobagem. A cabrocha do bairro carioca da Tijuca define melhor o esp�rito nacional nesses dias, cantando: "Explode cora��o na maior felicidade, � lindo o meu Salgueiro, contagiando e sacudindo esta cidade". Sempre foi assim na ess�ncia hedonismo, hedonismo e hedonismo. As formas � que eram outras. � que os ciclos do Carnaval n�o se contam em meses, mas em s�culos, � merc�, portanto, de tudo o que o pa�s passou nesses longos per�odos. A express�o mais primitiva do que viria a tornar-se o Carnaval data de 1600. Naquele ano, no Rio de Janeiro, brincou-se pela primeira vez o Carnaval sob a forma de entrudo, ainda sem m�sica ou dan�a. A exemplo de outros pa�ses de coloniza��o ib�rica, o entrudo no Brasil acontecia antes do in�cio da Quaresma e durava tr�s dias, do domingo at� a ter�a-feira gorda. A divers�o, esquisita, era reunirem-se foli�es armados de baldes e latas cheias de �gua. Folguedo simples, dos colonos portugueses migrou diretamente para a senzala, onde, com o passar dos anos, se tornou cada vez mais agressivo. As pessoas corriam pelas cidades e sujavam-se com farinha, �gua podre e detritos. Fugindo da confus�o, os nobres fechavam-se em suas casas ou refugiavam-se no campo, enquanto a escravaria rugia nas ruas. Horrorizada, a senhorinha branca exigiu que os selvagens fossem contidos. Quatro anos depois do primeiro entrudo, o governo impediu sua realiza��o. A a��o n�o teve muita efic�cia, e os folguedos continuaram, apesar das sucessivas proibi��es, at� sua extin��o natural, substitu�dos por festas mais gostosas. � folia pela folia, sem causas outras que n�o ela mesma. Da mesma forma que neste ano, na avenida, passistas, mestres-salas e porta-bandeiras evoluir�o entoando estrofes que pedem o fim da delinq��ncia, a prote��o da Amaz�nia ou, pasme-se, as reformas constitucionais mero pretexto para a p�ndega, e quem levar isso mais a s�rio � o crioulo doido , em 1641, a aclama��o de dom Jo�o IV ao trono de Portugal acabou por tornar-se o pretexto para o que muitos historiadores consideram o marco zero do Carnaval carioca. In�meras "prociss�es", era essa a palavra usada, importada dos rituais cat�licos, invadiram as ruas, ao som de m�sicas, as pessoas fantasiadas e mascaradas. Todo ano, as prociss�es sa�am felizes na folgan�a ruidosa dos negros matusquelas. Mais de um s�culo depois, em 1763, os rein�is brancos quiseram se apossar da festa, sofisticando-a. O pretexto, ent�o, foi homenagear o nascimento de dom Jos�, primog�nito de dona Maria I. Com um dinheiro que faltava aos negros escravos e forros, os comerciantes patrocinaram os primeiros carros aleg�ricos, seguidos pelas ruas por um ruidoso cortejo de baianas, j� vestidas como reza a tradi��o das atuais escolas de samba. E, de novo, os brancos tentaram fazer a pr�pria festa. Em meados do s�culo XIX aconteceu, no hotel It�lia, no Rio, o primeiro baile de sal�o. Os foli�es abastados achavam o nicho em que se protegeriam da plebe rude, dan�ando ao som de habaneras, valsas, quadrilhas e de schottisch. Em 1845, a chegada da polca aos sal�es de dan�a causou sensa��o. Sua entrada no Carnaval carioca foi t�o forte que um ano depois j� havia uma sociedade dedicada a esse g�nero musical. Nas ruas, a venda de m�scaras de inspira��o francesa sinalizava o surgimento de um Carnaval moderno. Comandados por um tocador de bumbo, os foli�es das classes mais pobres seguiam divertindo-se em blocos chamados de Z� Pereira. Lan�a-perfume O Carnaval dos ricos, separado do Carnaval dos pobres, e a trilha sonora da festa, um caos. Riqu�ssimo, entretanto, se comparado � monotonia dos sambas-enredo de hoje em dia. O prot�tipo da can��o carnavalesca apareceu quase no final do s�culo XIX, quando Chiquinha Gonzaga comp�s a marcha � Abre Alas para o Cord�o Rosa de Ouro. Mas havia muito mais. Os Carnavais do fim do s�culo levaram os foli�es a entoar par�dias de trechos de �pera, chulas de palha�o de circo, polcas e mazurcas. A novidade nos desfiles e cord�es eram o confete e a serpentina, rec�m-surgidos por aqui. Tudo muito comportado nos sal�es com matin�s, a festa lascada corria nos terreiros de samba, ainda um ritmo restrito aos negros da zona portu�ria e da cidade nova. No in�cio do s�culo, mais uma vez, os remediados tentaram fazer sua festa particular, movida a gasolina. Surgiam os corsos, carreatas (para usar um termo vindo da pol�tica) de bacanas, que podiam ter um autom�vel. Encarapitados nos cap�s e capotas dos ve�culos, homens e mulheres mascarados e fantasiados com muita roupa, ali�s jogavam confetes e serpentinas uns nos outros, enquanto molhavam o lencinho no inebriante lan�a-perfume. Uma del�cia, mas que tinha dia e hora marcada para acabar. Corso, coisa t�pica de um tempo em que havia pouqu�ssimos autom�veis, n�o funciona em metr�pole com tr�nsito congestionado. O entrudo e o Carnaval de 1928: tradi��o ib�rica d� lugar aos bailes e ao uso de fantasias e m�scaras Nessa mesma �poca, j� se prepara a fus�o total de cores, classes e sexos que fazem a caracter�stica do Carnaval moderno. O samba carioca estreou em disco em 1917 com o lan�amento de Pelo Telefone, de Mauro de Almeida e Donga. Come�ava a morrer a distin��o entre a m�sica de sal�o e a de terreiro. Tudo tocando em todo lugar, os sambas consumidos vorazmente por quem podia comprar disco ent�o apenas uns poucos , e a festa se democratizou, apesar das resist�ncias. Com a decad�ncia dos bailes de sal�o e a quase extin��o dos bailes de gala, ocorreu um fen�meno previs�vel. "A m�sica de Carnaval acabou", reclama o cr�tico e historiador Jos� Ramos Tinhor�o. "O samba-enredo n�o representa mais nada." A m�sica de Carnaval j� produziu j�ias como Ta� ou Chiquita Bacana, mas o acervo de bobagens n�o est� restrito aos sambas-enredo. Basta lembrar a indig�ncia de versos como Eu mato, eu mato, quem roubou minha cueca pra fazer pano de prato, ou Olha a cabeleira do Zez�. Ser� que ele �, ser� que ele �? A diferen�a � que, no passado, havia grandes compositores fazendo m�sicas de Carnaval. Hoje, n�o h� mais nenhum nesse ramo. A indig�ncia, portanto, se estabeleceu por uma raz�o l�gica. Cr�tica azeda Da folia de antigamente pouca coisa restou. Uma delas � o tra�o ir�nico do caricaturista J. Carlos, que durante d�cadas imortalizou cenas do Carnaval carioca como as que ilustram esta reportagem. Os desfiles de escola de samba, iniciados na d�cada de 30, que percorriam as principais vias p�blicas, foram confinados a samb�dromos em S�o Paulo, Rio de Janeiro e Manaus para n�o atrapalhar o tr�nsito , e adquiriram a dimens�o espetacular de hoje. Financiadas pelas prefeituras, com o apoio de grandes redes de TV, apoiadas em investimentos maci�os do turismo, as escolas de samba se institucionalizaram. S�o empresas com contabilidade e patroc�nios. Os intelectuais e nost�lgicos costumam lamentar a perda de "autenticidade" dos sambistas e da cultura popular que eles representavam. Dizem que as c�meras conspurcaram o brilho original, por valorizar mais as socialites peladas do que a cabrocha da favela, e outras coisas do g�nero. � uma vis�o de turista mal informado, de cr�tico azedo. Do ponto de vista do sujeito pobre, aquele que s� tem dinheiro para comprar uma fantasia simples (no m�ximo 200 reais), o Samb�dromo � epis�dio curt�ssimo nos quatro dias de folia. Da concentra��o at� a dispers�o, apenas vinte minutos de um samba que perdeu o sincopado, em geral na correria, porque sen�o a escola perde pontos na cronometragem, um dos quesitos b�sicos de avalia��o. Depois do desfile espetacular, o z�-pereira que n�o tem dinheiro para comprar um lugar na arquibancada do Samb�dromo, nem para adquirir uma segunda fantasia (para desfilar por outra escola), vai para o samb�o beber, dan�ar e namorar at� a Quarta-Feira de Cinzas. S� porque � a maior felicidade. Como sempre foi desde que o Brasil � Brasil. Ta� (Pra Voc� Gostar de Mim) Autor: Joubert de Carvalho Ta� Eu fiz tudo pra voc� gostar de mim �, meu bem N�o faz assim comigo, n�o Voc� tem Voc� tem Que me dar seu cora��o Meu amor, n�o posso esquecer... Se d� alegria, faz tamb�m sofrer A minha vida foi sempre assim S� chorando as m�goas que n�o t�m fim Essa hist�ria de gostar de algu�m J� � mania que as pessoas t�m Se me ajudasse Nosso Senhor Eu n�o pensaria mais no amor Sucesso durante e depois do Carnaval de 1930, a marchinha serviu para projetar sua int�rprete, a cantora Carmen Miranda Chiquita Bacana Autores: Jo�o de Barro e Alberto Ribeiro Chiquita bacana L� da Martinica Se veste com uma casca De banana nanica N�o usa vestido N�o usa cal��o Inverno pra ela � pleno ver�o Existencialista Com toda raz�o S� faz o que manda o seu cora��o... Imortalizada na voz de Emilinha Borba, a marchinha faz uma cr�tica dos costumes da �poca e ganha o concurso oficial do Carnaval de 1949 Retrato do Velho Autores: Haroldo Lobo e Marino Pinto Bota o retrato do velho outra vez Bota no mesmo lugar O sorriso do velhinho Faz a gente trabalhar, oi! Eu j� botei o meu E tu n�o vais botar? J� enfeitei o meu E tu vais enfeitar? (bis) O sorriso do velhinho Faz a gente se animar, oi! Premiada no concurso da prefeitura do Rio, a marchinha brincava com a volta de Get�lio Vargas ao poder, que aconteceu �s v�speras do Carnaval Carnaval carioca do in�cio do s�culo: corso, homens fantasiados de mulher e lan�a-perfume |
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