Doce Vietn�
No Fant�stico de 18/06/1997, a hist�ria real vira um videoclipe compungido em que as "boas" inten��es ficam acima dos fatos
Uma das constantes do telejornalismo � transformar as not�cias em pequenos cap�tulos de um melodrama intermin�vel. O que vale � o sentimentalismo: � preciso comover a plat�ia, pois, como se sabe, p�blico emocionado � p�blico cativo. Por isso, na TV, emo��o � mais importante que informa��o.
Mas poucas vezes essa receita lacrimosa foi t�o escancarada como numa reportagem que foi ao ar no Fant�stico de 8 de junho - t�o escancarada que merece coment�rio. Nela, uma v�tima da Guerra do Vietn�, Kim Phuc, faz as pazes com o seu agressor, o capit�o John Plummer. Kim talvez seja a face mais famosa da guerra. Em junho de 1972, aos 9 anos, ela apareceu numa foto hist�rica: corre nua por uma estrada, chorando, fugindo do bombardeio que se v� ao fundo. Agora, passados 25 anos, ela vai encontrar os personagens da sua trag�dia de inf�ncia: o fot�grafo, a m�dica, o capit�o que ordenou o bombardeio. Quem apresenta � Cid Moreira: "O Fant�stico acompanhou essa viagem marcada por risos, emo��o, l�grimas e pelo sentimento do perd�o".
Kim rev� a todos e, no fim, abra�ada ao capit�o que despejou as bombas incendi�rias sobre ela, diz que o perdoou. Ao contr�rio dos outros, o capit�o n�o chora no v�deo, mas Kim cuida de avisar ao p�blico que, longe das c�maras, os dois choraram juntos. Como numa novela mexicana: os personagens choram sem parar e, no fim, perdoam-se. Tudo fica bem.
Na tela, imagens do passado (Kim desesperada sob as bombas napalm) se fundem com o presente (Kim aconchegada nos bra�os do capit�o) para produzir um final feliz, tipicamente melodram�tico. A hist�ria real vira um videoclipe compungido e, no fim das contas, o vencedor, antes truculento, readquire sua humanidade. At� chora!
Por que � que a televis�o n�o promove o mesmo espet�culo com um sobrevivente dos campos de concentra��o de Hitler reconciliando-se com seu ex-carcereiro? Porque, no melodrama do telejornalismo que hoje vigora, os nazistas s�o vil�es -- a imoralidade do gesto ficaria evidente. E por que uma v�tima do Vietn� pode aninhar-se no ombro de quem quase a matou com napalm? Porque, segundo o mesmo melodrama, os americanos s�o os mocinhos. Por isso, o perd�o de Kim n�o � o perd�o que liberta o ofendido, mas aquele que se destina a redimir o ofensor. O capit�o, pobrezinho, n�o fez por mal. Obedecia a ordens. Ningu�m teve culpa.
O jornalismo lida com fatos, mas, nesse tipo de show, as "boas" inten��es ficam acima dos acontecimentos. Dizem que hoje o p�blico sofre um bombardeio de informa��o, mas � mentira. O p�blico sofre um bombardeio de l�grimas. De crocodilo. |