Cobaias Humanas                              Veja 28/07/1999
Sem saber, pessoas foram usadas em testes radiativos pelo governo dos Estados Unidos

Os alunos da escola estadual Fernald, no interior do Estado de Massachusetts, ou seus pais, n�o tinham como saber que, naqueles anos 40 e 50, os imperativos da Guerra Fria interferiam diretamente em sua vida. Os garotos, deficientes mentais, estavam sendo usados como cobaias humanas pelo governo dos Estados Unidos, sob o signo da amea�a de uma guerra at�mica contra Moscou. A escola servia na merenda mingau de aveia contaminada com is�topos radiativos. As For�as Armadas americanas queriam avaliar as conseq��ncias da radia��o no organismo � n�o sabiam exatamente qu�o nefastas eram, mas deviam supor, tanto que a experi�ncia era mantida em rigoroso sigilo. Casos assim, de espantosa crueldade, est�o vindo � tona aos poucos desde que, sob press�o das evid�ncias fornecidas por sobreviventes e familiares desses laborat�rios clandestinos, o presidente Bill Clinton decidiu, em 1994, abrir os arquivos e incentivar um levantamento completo de tudo o que foi feito no pa�s em nome da ci�ncia e � margem da �tica.

"� um assunto muito doloroso para os Estados Unidos", disse a VEJA o diretor do Centro de �tica Biom�dica da Universidade de Virg�nia, Jonathan Moreno. "Nos anos 40 havia poucas leis que regulamentassem os testes com seres humanos, e a amea�a da Uni�o Sovi�tica parecia imensa. Os cientistas do governo estavam entre a cruz e a espada." Moreno � autor de Undue Risk: Secret State Experiments on Humans (Risco Indevido: Experimentos Secretos Governamentais em Seres Humanos), uma cuidadosa investiga��o a ser publicada em outubro nos Estados Unidos pela editora W.H. Freeman & Company. O tema � constrangedor porque normalmente se associa essa esp�cie de pr�tica �s grandes tiranias do s�culo, como a Alemanha nazista e a Uni�o Sovi�tica, �s quais os americanos serviram de contraponto democr�tico. Foi com a revela��o das atrocidades cometidas por m�dicos nos campos de concentra��o nazistas que se adotaram normas mundiais contra experi�ncias das quais seres humanos participavam compulsoriamente. Em sil�ncio, os Estados Unidos ignoraram essas decis�es. Nos anos 40 e 50, cidades inteiras foram expostas deliberadamente aos efeitos da radia��o.

Moreno integrou a equipe que recebeu carta branca do governo Clinton para investigar esse e outros programas nucleares secretos postos em pr�tica entre 1944 e 1974. Os horrores compilados pelo comit� levaram o presidente, em outubro de 1995, a pedir desculpas p�blicas � na��o. "N�o h� como desculpar o que foi feito", diz Moreno. "Mas � preciso analisar os fatos � luz da realidade da �poca." Eram tempos de medo e a sobreviv�ncia da esp�cie humana parecia depender do controle da tecnologia at�mica. O fato de muitas experi�ncias terem vitimado minorias �tnicas, contudo, evidencia a perversidade da l�gica que as orientou, segundo a qual algumas vidas humanas valem mais do que outras. Em maio de 1997, Clinton voltaria a se desculpar por um repulsivo programa de estudo do Servi�o de Sa�de P�blica federal. Para observar, a longo prazo, os efeitos da s�filis em pacientes negros, alguns foram privados de tratamento sem saber, entre os anos 30 e 70. Moreno revela outro caso, envolvendo �ndios navajos empregados, na d�cada de 50, em minas de ur�nio, ent�o o principal combust�vel at�mico. Os navajos n�o foram informados sobre os malef�cios da radia��o e n�o tiveram direito a cuidados como um simples sistema de ventila��o. Como resultado, muitos morreram de c�ncer.

Arsenal gen�tico � Outros casos que s� agora se tornam p�blicos incluem inje��o de plut�nio nas veias de pacientes em hospitais, que de nada desconfiavam, e o envio de soldados para locais de teste de bombas at�micas logo ap�s as explos�es. Ao contr�rio do dom�nio do ciclo do �tomo, necess�rio para o desenvolvimento das armas nucleares, as experi�ncias com agentes qu�micos e biol�gicos s�o relativamente baratas e dif�ceis de detectar. Elas continuam a campear, sobretudo em pa�ses pobres governados por ditadores. O exemplo t�pico � o Iraque. Milhares de prisioneiros curdos serviram a testes individuais de armas qu�micas e bacteriol�gicas, sendo amarrados a estacas e alvejados com bombas recheadas de subst�ncias armazenadas em laborat�rios. Em experi�ncias de puro horror, militares iraquianos despejaram o conte�do de seus arsenais de armas qu�micas letais sobre aldeias do Curdist�o, dizimando a popula��o.

Menos conhecidas s�o as hist�rias de requintado horror desveladas pela Comiss�o da Verdade e da Reconcilia��o da �frica do Sul. Amontoaram-se relatos de uso de armas de proveta contra oponentes do regime racista enterrado h� cinco anos. Os esfor�os de desenvolvimento de microrganismos manipulados em laborat�rio que esterilizassem a popula��o negra, mas n�o a branca, apontam para um novo cap�tulo na hist�ria das armas de guerra: o arsenal gen�tico. O conhecimento em detalhes das irresponsabilidades do passado responde, antes de tudo, � demanda por justi�a, mas tamb�m � curiosidade cient�fica. Os Estados Unidos guardaram por mais de uma d�cada os registros das atrocidades cometidas pelos japoneses contra prisioneiros chineses antes e durante a II Guerra Mundial. Homens, mulheres e crian�as foram infectados com as bact�rias causadoras de peste bub�nica, antraz, febre tif�ide e c�lera. Depois de doentes, eram expostos a vivissec��es sem anestesia. Ao contr�rio dos Estados Unidos e da Alemanha � pa�s que j� pagou mais de 80 bilh�es de d�lares em indeniza��es �s v�timas do nazismo � o Jap�o se nega a admitir tais barbaridades.

Mais de cinq�enta anos depois, a cole��o de crueldades perpetradas em nome de pesquisas duvidosas pelos m�dicos nazistas comandados por Josef Mengele no campo de concentra��o de Auschwitz parece n�o ter fim. No ano passado, o m�dico alem�o Hans M�nch, num depoimento � imprensa de seu pa�s, contou que em Auschwitz era freq�ente deixar crian�as morrer de fome para estudar a morte natural. Pesquisas m�dicas em humanos s�o imprescind�veis, seja para testar medicamentos, seja para compreender os mecanismos de certas doen�as. Da� a chegar ao argumento inaceit�vel de que os ganhos sociais compensam os danos aos indiv�duos � um passo. Para evitar abusos, � preciso que existam pessoas que se disponham voluntariamente aos testes, como ocorre hoje em algumas bases militares americanas, mas sob risco calculado e permanente vigil�ncia de organismos civis.
  Acontece
Passagens do Cotidiano
Fatos, contos e cr�nicas da rotina di�ria
.
.
A pousada na reserva florestal de Campos do Jord�o
N�o existe oferta melhor na est�ncia mais alta do Brasil! Conforto e sossego a apenas 4,5 km do centro!
Venha desfrutar de um ver�o refrescante, onde as temperaturas jamais excedem a 23 graus!
Fa�a um tour fotogr�fico pela pousada clicando aqui
P�gina Inicial
Hosted by www.Geocities.ws

1