| Bomba, Bomba, Bomba Veja 20/05/1998 Com cinco explos�es nucleares, a �ndia assusta velhos inimigos e provoca os poderosos do mundo Foi uma opera��o r�pida. Na tarde de segunda-feira passada, caminh�es do Ex�rcito entraram em Khetolai, vilarejo perdido numa regi�o des�rtica do noroeste da �ndia, e retiraram toda a popula��o � apenas 500 pessoas. Poucas horas depois, a terra tremeu tr�s vezes, com intervalos de cinco segundos. Os p�ssaros entraram em p�nico, voando �s cegas, como acontece nos terremotos, e uma nuvem de areia se ergueu � dist�ncia. Passou logo, mas o trov�o sa�do da periferia do poder internacional chacoalhou o mundo. Com orgulho ostensivo, sem meias palavras como tem sido praxe nesses casos, o primeiro-ministro Atal Behari Vajpayee assumiu: a �ndia havia acabado de detonar tr�s artefatos nucleares em testes subterr�neos. Na quarta-feira, o pa�s repetiu a dose, com mais dois testes, reafirmando a face da "�ndia que diz n�o" e desafia as regras do jogo estabelecidas pela nova ordem mundial. O contraste entre as rea��es internas, de comemora��o e festa, numa onda de reafirma��o do orgulho nacional, e o rep�dio registrado no resto do planeta demonstraram quanto a �ndia est� disposta a desafiar essa ordem. O vizinho e inimigo Paquist�o entrou em surto, amea�ando ir em frente com suas pr�prias experi�ncias nucleares. A China, que o atual governo indiano aponta como a principal amea�a ao pa�s, fechou o tempo. San��es e corte de ajuda econ�mica choveram de todos os cantos, mas a irrita��o bateu forte mesmo nos Estados Unidos, que, enterrada a Guerra Fria, t�m como prioridade de pol�tica externa cortar as asas da prolifera��o nuclear. Lamentando o "erro terr�vel" cometido pela �ndia, o presidente Bill Clinton decretou uma s�rie de puni��es, exigidas por lei. Para agravar o mau humor americano, a CIA, humilhada, viu-se obrigada a investigar a "mancada da d�cada": com todo seu formid�vel aparato tecnol�gico de espionagem, n�o conseguiu detectar os preparativos para as explos�es subterr�neas. Pobre orgulhoso � N�o foi por falta de aviso. O mundo sabe h� d�cadas que a �ndia investe pesado num programa nuclear terceiro-mundista. Em 1974, exatamente na mesma regi�o de Pokaran e no mesmo feriado dedicado a comemorar o dia em que Buda atingiu o estado superior de ilumina��o, o governo da ent�o primeira-ministra Indira Gandhi j� tinha testado a bomba. Ao assumir o governo, em mar�o, o Partido Bharatiya Janata, ancorado num perigoso angu ideol�gico onde se misturam o nacionalismo extremado e a reafirma��o da identidade hindu�sta, divulgou um programa em que a �nica meta objetiva era "introduzir armas nucleares" no arsenal militar indiano. Desde ent�o, o Paquist�o � a por��o mu�ulmana do subcontinente indiano, nascido da partilha conduzida pela Inglaterra, ao encerrar seu dom�nio colonial, com o v�o objetivo de evitar uma guerra � vinha denunciando freneticamente as inten��es do vizinho. O governo do Partido Bharatiya Janata � inst�vel e vive pendurado numa coaliz�o prec�ria, motivos suficientes para se suspeitar de uma jogada pol�tica movida a �tomos. Mas a verdade � que o pa�s em peso ap�ia a aventura nuclear. Numa pesquisa de opini�o, o �ndice de aprova��o aos testes bateu em espantosos 91%. At� um neto de Mohandas Gandhi, o santo pacifista da independ�ncia indiana, se manifestou a favor. "Agora, n�s somos um global player", jactou-se Pramod Mahajan, assessor pol�tico do primeiro-ministro, empregando express�o de uso corrente na diplomacia brasileira (no caso, para classificar a expressividade econ�mico-comercial do Brasil). Nas ruas, o sentimento era o mesmo, embora declarado em termos mais simples. "Temos orgulho da nossa �ndia", comemorou o lojista K.L. Munjal, resumindo a rea��o mais comum. "Podemos ser pobres, mas mostramos que estamos entre os melhores do mundo." A imagem do pobre orgulhoso, e ainda por cima perseguido pelos poderosos do mundo, � muito presente. "O orgulho nacional estava ferido", disse a VEJA o soci�logo Dhirubhai Sheth, do Centro de Estudos das Sociedades em Desenvolvimento, em Nova Delhi. "As pessoas perceberam que a conten��o e a responsabilidade n�o contribu�ram para melhorar a posi��o internacional da �ndia nem a sua seguran�a." A rela��o tormentosa com os vizinhos pesa muito nessa equa��o. "Paquist�o e �ndia vivem aos tiros e tapas na fronteira. Tamb�m faz sentido que a �ndia tenha medo da China", diz um diplomata brasileiro ao analisar a diferen�a de comportamento com o Brasil, que desativou seu programa nuclear diante da nova realidade internacional, enquanto os indianos foram em frente. "A �ndia sente-se permanentemente amea�ada, enquanto nosso maior problema de fronteira � o contrabando de cigarros." Estrat�gia do grito � Com 5.000 anos de Hist�ria e 970 milh�es de habitantes, a �ndia se considera no direito de ocupar um lugar entre os grandes do mundo. O pa�s se sentiu prejudicado com o fim da Guerra Fria. Durante a era bipolar, os governantes indianos se beneficiaram da ajuda sovi�tica, mas assumiram uma posi��o independente, liderando o hoje semidefunto Movimento dos Pa�ses N�o-Alinhados. A inten��o era aglutinar, como uma esp�cie de grupo de press�o gigantesco, na��es populosas, maculadas por vergonhosos �ndices de mis�ria, mas com grandes investimentos em setores considerados estrat�gicos do ponto de vista econ�mico ou militar. A receita chegou a seduzir as divis�es diplom�ticas de muitos pa�ses que, mais ou menos, se encaixavam no modelo, incluindo o Brasil. O mundo mudou e parte da fal�ncia desse estado de coisas ficou evidente quando as elites governamentais n�o-alinhadas perderam prest�gio em meio a casos de corrup��o e evid�ncias de senilidade de suas economias estatizadas. Foi o que aconteceu com o Partido do Congresso � de Jawaharlal Nehru, sua filha Indira Gandhi e seu neto, Rajiv �, que governou a �ndia durante 44 anos. Desde 1991, ano em que Rajiv teve o mesmo destino de sua m�e, assassinado num atentado, nenhum governo dura muito. Ao mesmo tempo, a desamparada economia de inspira��o socialista entrou em colapso � a abertura relativamente controlada dos �ltimos anos tem beneficiado a classe m�dia em diversas regi�es, mas ainda est� longe de mostrar resultados abrangentes. Detonando bombas, o Partido Bharatiya Janata, que j� desafiava a tradi��o democr�tica indiana ao embaralhar pol�tica e religi�o, volta a tentar a estrat�gia do grito dos miser�veis. O sucesso de p�blico (interno) ficou patente. De uma maneira perversa, mas real, tamb�m atingiu os objetivos internacionais. Bem ou mal, o primeiro-ministro Vajpayee conseguiu chamar a aten��o que queria. Ele voltou a protestar contra a exclusividade do clube nuclear, formado pelos membros do Conselho de Seguran�a da ONU (Estados Unidos, Gr�-Bretanha, Fran�a, R�ssia e China). Vajpayee, como o presidente Fernando Henrique Cardoso, pleiteia acesso a esse f�rum dos poderosos. No campo nuclear, no entanto, o presidente brasileiro adotou o caminho inverso. Depois de se negar longamente a acatar as regras do jogo internacional sobre o assunto, o Brasil deu uma guinada que encantou a Casa Branca. No ano passado, Fernando Henrique enviou ao Congresso a proposta de ades�o ao Tratado de N�o-Prolifera��o de Armas Nucleares (at� hoje esperando ser votada) e abriu as portas para inspe��es da Ag�ncia Internacional de Energia At�mica, �rg�o da ONU. O sorriso de Buda � Todo habitante do planeta Terra tem o direito de se sentir inseguro quando os estoques at�micos aumentam, especialmente numa regi�o como a �sia Meridional, considerada pelos especialistas o ponto onde se concentra o maior risco de uma guerra com armas nucleares. A aventura indiana, no entanto, tem de ser vista em suas reais dimens�es. A amea�a de guerra at�mica � bastante remota: nem �ndia nem Paquist�o t�m tecnologia suficiente para construir armas nucleares de longo alcance, sem contar a dose de insanidade que seria necess�ria para us�-las. Duvida-se at� mesmo de que seus m�sseis, em fase experimental, consigam cruzar a fronteira comum. Resta ver, tamb�m, por quanto tempo ser� poss�vel desviar a aten��o dos indianos de seus verdadeiros problemas. Com 2,5% da �rea do planeta, o pa�s re�ne mais de 15% da popula��o mundial. Segundo previs�es, a �ndia desbancar� a lideran�a demogr�fica da China por volta de 2035, quando chegar � marca de 1,4 bilh�o de seres humanos, na dureza da vida no campo ou espremidos em cidades deficientes de condi��es b�sicas como o saneamento. Quase metade dos indianos n�o sabe ler nem escrever. A renda per capita � de 350 d�lares. H� cerca de 75 milh�es de crian�as malnutridas abaixo dos 5 anos de idade. Enquanto isso, o governo esbanja gastos para manter o terceiro maior contingente militar do planeta e fabricar armas nucleares. Tamb�m n�o � prudente, contudo, desprezar o fanatismo que emergiu na �ndia. O Estado nascido do pacifismo de Gandhi se rende perigosamente ao fundamentalismo hindu�sta, uma novidade em parte contradit�ria, em se tratando de uma religi�o descentralizada, pouco dogm�tica, com milhares de belos e misteriosos deuses, mas sem a mensagem universal do cristianismo ou do islamismo. A minoria mu�ulmana � minoria em n�meros indianos: s�o 120 milh�es de pessoas � tem todos os motivos para se intimidar com essa onda. H� 24 anos, quando realizaram o primeiro teste nuclear, os cientistas indianos mandaram uma mensagem em c�digo para Indira Gandhi: "Buda est� sorrindo", numa refer�ncia � data religiosa. O uso da imagem do Iluminado n�o poderia ser mais pervertido. |
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