Baleia Assassina                             Veja 21/06/2000
Trag�dia que inspirou Moby-Dick vira um grande sucesso editorial nos Estados Unidos

Cachalote: exemplar com
26 metros de comprimento
afundou navio 








O ataque de uma baleia branca gigantesca, dotada de mal�cia e intelig�ncia tipicamente humanas, contra o barco do capit�o Ahab constitui-se no cl�max de Moby-Dick, o cl�ssico da aventura criado pelo americano Herman Melville em 1851. Para escrever sua obra, Melville inspirou-se no desastre do navio Essex, destru�do por um cachalote. A realidade, nesse caso, superou a fic��o. A verdadeira e dram�tica hist�ria do Essex e a inacredit�vel luta pela sobreviv�ncia de seus tripulantes, recontada agora em livro, tornaram-se rapidamente um best-seller nos Estados Unidos. A obra deve ser lan�ada no Brasil at� dezembro pela Companhia das Letras, que j� adquiriu os direitos de publica��o. Nas 302 p�ginas de In the Heart of the Sea (No Cora��o do Mar, em portugu�s), o pesquisador Nathaniel Philbrick recupera o tr�gico encontro da velha baleeira americana com um cachalote de 26 metros de comprimento no meio do Oceano Pac�fico. O epis�dio ocorreu em novembro de 1820. Para surpresa dos vinte marinheiros a bordo, o animal avan�ou feito um touro enfurecido contra a embarca��o. Depois de se chocar estrondosamente com o barco, o gigantesco cet�ceo fez meia volta, recuperou o f�lego e repetiu o ataque. O navio afundou e seus homens salvaram-se em tr�s pequenos botes. A grande diferen�a entre a realidade e a fic��o � que, no caso do Essex, o naufr�gio foi apenas o ponto de partida para testar at� onde pode ir o animal humano na batalha pela sobreviv�ncia.

Pelos tr�s meses seguintes, a tripula��o do Essex experimentou todos os limites de exaust�o, fome e sede. A terra firme mais pr�xima, as Ilhas Marquesas, a 1.800 quil�metros do local do naufr�gio, tinha a fama de ser habitada por canibais. Afastada mais que o dobro dessa dist�ncia, a costa da Am�rica do Sul acabou sendo a alternativa de salva��o escolhida pelos marinheiros. Quando a provis�o de comida se esgotou, os tripulantes passaram a agir como os selvagens. Os primeiros companheiros mortos de inani��o serviram de alimento aos demais. Os n�ufragos arrancavam a cabe�a e consumiam imediatamente o f�gado e o cora��o. Em seguida, retalhavam o corpo em pequenos peda�os, que eram mastigados crus, na maior parte das vezes. No auge do desespero e sem nenhum cad�ver dispon�vel, os n�ufragos passaram a escolher por sorteio quem seria abatido para alimentar os demais. At� o resgate, seis homens foram canibalizados. De um total de vinte tripulantes do Essex, somente oito conseguiram sobreviver. Quando foram localizados em alto-mar, em dois barcos remanescentes, dois deles ainda chupavam os ossos dos companheiros. Em 1840, essa hist�ria fant�stica chegou aos ouvidos de um jovem tripulante de uma embarca��o baleeira. Era o futuro escritor Herman Melville. Entusiasmado pela inacredit�vel saga da embarca��o, ele escreveria onze anos depois o cl�ssico Moby-Dick.
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