A Festa do Mil�nio                              Veja 21/07/1999
Os del�rios e as extravag�ncias da festa que vai parar o planeta na celebra��o do ano 2000

O r�veillon deste ano ser� a maior celebra��o coletiva da hist�ria da humanidade. Cem milh�es de pessoas v�o romper o ano fora de casa. Para a ind�stria do turismo, ser� uma f�bula. O evento vai movimentar cerca de 50 bilh�es de d�lares, incluindo passagens a�reas, hospedagens, refei��es, compras e ingressos para festas diversas. E bota festa nisso. De Sidney ao Rio de Janeiro, de Londres a Buenos Aires est�o programadas comemora��es para ficar na Hist�ria. Oficialmente, o novo mil�nio s� come�a � meia-noite do dia 1� de janeiro de 2001. Mas quem se interessa pelo calend�rio oficial? Em todos os lugares as pessoas est�o encantadas pela magia do n�mero cheio. Ficou convencionado que o novo mil�nio come�a mesmo no ano 2000. E pronto. A data ser� comemorada por mais de 2 bilh�es de pessoas. Outros 4 bilh�es, que representam dois ter�os da popula��o mundial, adotam calend�rios diferentes, caso dos chineses, dos mu�ulmanos e dos judeus. Mesmo nos lugares onde predominam essas culturas haver� eventos para marcar a data. Por essa raz�o, nenhuma comemora��o reuniu tanta gente e movimentou tanto dinheiro.

Saf�ri na �frica � Muito provavelmente voc� est� entre os milh�es de pessoas que ainda n�o decidiram o que fazer no pr�ximo r�veillon. Ainda h� lugares em navios de cruzeiro, hot�is, avi�es com destino a diversas regi�es do planeta com programa��o de festas memor�veis para a noite de 31 de dezembro deste ano (veja as alternativas no quadro). Quem tem cacife para escolher um destino no exterior est� sendo aconselhado a fugir de Roma, Jerusal�m, Paris e Cairo. A lota��o est� esgotada nesses centros tur�sticos e o congestionamento na virada do ano vai bater recordes. Qualquer que seja a escolha, por�m, prepare o bolso. Os pre�os est�o uma loucura. Voc� venderia seu apartamento para celebrar a chegada do novo mil�nio? Esse � o pre�o do mais caro r�veillon do planeta. Por 100.000 d�lares (cerca de 185.000 reais pela cota��o da semana passada), um casal ter� direito a passar tr�s dias na su�te de luxo do hotel Ritz de Paris, com direito a um autom�vel Jaguar com motorista � disposi��o, mordomo exclusivo 24 horas, champanhe Taittinger e ta�as de cristal Baccarat, massagens di�rias, �lbum de fotos e limusine do aeroporto para o hotel, al�m de dois rel�gios de ouro Bulgari de presente. At� agora, dois casais de brasileiros compraram o pacote, mas seus nomes s�o mantidos em sigilo. Que tal um programa mais simples, como passar o fim de semana do ano novo num hotel tr�s estrelas em Nova York? Ainda assim, n�o sair� por menos de 3.000 d�lares.

No segundo lugar no ranking das extravag�ncias, atr�s apenas do pacote milion�rio do Ritz de Paris, est� a volta ao mundo no Concorde. A viagem do avi�o supers�nico come�a na v�spera do Natal em Nova York, tem paradas em Los Angeles, Hava�, Sidney, Hong Kong, Nova Delhi, Qu�nia e Cairo. Custa 75.000 d�lares por pessoa e inclui saf�ri e passeio de bal�o na �frica, visita ao Taj Mahal, na �ndia, e �s pir�mides no Egito. Pela metade do pre�o, � poss�vel passar a noite do r�veillon no Castelo de St. Catherine, em Bath, na Inglaterra. Igualmente inacredit�veis s�o os cach�s cobrados por algumas estrelas da m�sica popular para fazer shows ao redor do mundo na noite m�gica da virada do mil�nio. A americana Barbra Streisand vai ganhar 13 milh�es de d�lares para se apresentar no MGM Grand Casino, de Las Vegas. Est�o quase esgotados os 13.000 ingressos colocados � venda, com pre�os que variam de 600 a 2.500 d�lares. Rod Stewart, que faz show no Rio Hotel, tamb�m em Las Vegas, vai receber 3,5 milh�es de d�lares.

Por que uma simples data no calend�rio mexe tanto com a imagina��o das pessoas? Em primeiro lugar porque chegar ao ano 2000 � testemunhar um evento carregado de simbolismo na hist�ria da humanidade. "N�meros redondos sempre exerceram um enorme fasc�nio sobre as pessoas", comenta o historiador Richard Landes, do Centro de Estudos do Mil�nio, uma organiza��o americana ligada � Universidade de Boston. "Eles geralmente est�o associados � supera��o de obst�culos e ao in�cio de novas etapas." No caso da virada do mil�nio, � o momento em que cada ser humano medita a respeito de suas conquistas e fracassos no tempo que passou e dos sonhos e desafios que ter� pela frente. Chegar a um novo mil�nio � uma demonstra��o poderosa de vit�ria sobre as guerras, as doen�as, as injusti�as, a pobreza e uma infinidade de males que sempre amea�aram a esp�cie humana. "O calend�rio � o par�metro que usamos para dar sentido a uma seq��ncia de eventos e manter viva a esperan�a de aprimoramento", diz o cientista Stephen Jay Gould, autor de um livro sobre o assunto lan�ado recentemente nos Estados Unidos.

Expectativa e ang�stia � Felizmente, os habitantes do planeta Terra que se preparam para entrar no ano 2000 t�m mais motivos para comemorar do que para lamentar. A humanidade nunca viveu um per�odo t�o pr�spero e abundante. Mesmo nos pa�ses mais pobres da �frica e da �sia, hoje h� mais oportunidades e melhores condi��es de vida do que em todos os s�culos anteriores. Pegue-se o ano 1000. Naquela �poca, o planeta era habitado por 300 milh�es de pessoas � pouco mais que toda a popula��o americana atual. Vivia-se num est�gio t�o pobre e atrasado que a maioria delas nem sequer ficou sabendo da chegada do novo mil�nio. Cat�strofes clim�ticas e epidemias devastavam continentes inteiros. A agricultura era rudimentar. Para cada gr�o de trigo semeado colhiam-se apenas tr�s. Hoje a propor��o � de at� 1 para 160. As pessoas morriam de fome. "O mundo parecia vazio, mas na pr�tica j� havia excesso de popula��o", escreveu o fil�sofo e historiador franc�s Georges Duby. "Os recursos existentes n�o eram suficientes para todos os habitantes."

O mundo que celebra a chegada de um novo mil�nio est� passando por mudan�as dr�sticas. A globaliza��o da economia, as novas tecnologias, a internet, tudo isso � o pren�ncio de uma sociedade diferente de tudo que conhecemos hoje. � por isso que a virada no calend�rio provoca tanta expectativa, tanta ang�stia e tanto desejo de celebra��o. Cidades do mundo inteiro est�o competindo entre si para ver qual delas promove a maior festa e atrai mais turistas. O Minist�rio de Cultura da Fran�a destinou 12 milh�es de d�lares para os festejos em Paris. As comemora��es incluem a inaugura��o da Torre da Terra, com 240 metros de altura, a reabertura do centro cultural Georges Pompidou, um rel�gio gigante instalado no Jardim das Tulherias e uma ilumina��o especial de 100 monumentos, da qual se destaca a da Torre Eiffel, com 20.000 l�mpadas. Trinta e cinco mil brasileiros devem passar o r�veillon na Fran�a.

Roma, que espera 3 milh�es de visitantes, est� recebendo a mais completa faxina urbana j� realizada ali neste s�culo. Os ingleses destinaram mais de 1 bilh�o de d�lares para a constru��o de obras diversas, que incluem o Millenium Dome, um pavilh�o de 50 metros de altura que abriga mostras sobre diferentes aspectos do desenvolvimento humano. Na Times Square, em Nova York, ser�o instalados tel�es gigantes para que 500.000 pessoas possam assistir �s comemora��es de 24 pontos da Terra, um em cada fuso hor�rio. Sidney, que abrigar� os Jogos Ol�mpicos do ano 2000, oferece uma apresenta��o de Michael Jackson e um show com 10 toneladas de fogos, lan�ados de 25 pontos.

No Brasil, a maior festa deve acontecer no Rio. A ind�stria hoteleira local prev� que o n�mero de turistas estrangeiros neste ano quadruplique. S� a Praia de Copacabana, onde acontece anualmente a queima de 3 toneladas de fogos, vai receber cerca de 2 milh�es de pessoas. Entre elas estar� o presidente Fernando Henrique Cardoso. Como resultado da procura, os pre�os nos hot�is e apartamentos da regi�o dispararam. O Copacabana Palace, que come�ou a fazer reservas para a data h� dez anos, j� tem uma lista de espera com mais de 1.000 nomes. A su�te presidencial foi alugada por 33.000 reais.

Para�so na Tail�ndia � H� gente que empenhou anos e anos de sua vida na prepara��o da festa do mil�nio. � o caso do empres�rio paulista Jos� Roberto Ribeiro do Vale, que em 1978 fundou uma sociedade com outros 21 amigos com o objetivo de juntar fundos e se preparar para o r�veillon deste ano. Durante todo esse tempo, os associados pagaram uma cota mensal de 100 d�lares. Juntaram at� agora mais de meio milh�o de d�lares. H� tr�s anos, o grupo tentou fazer reservas no Copacabana Palace. N�o conseguiu porque o hotel j� estava lotado. Finalmente, no ano passado, Jos� Roberto e os amigos optaram pelo Phuket, um resort paradis�aco na ilha de Maiton, na Tail�ndia. S� de passagem a�rea v�o gastar mais de 200.000 d�lares. Cada associado ter� direito a levar tr�s convidados, num total de 88 pessoas. "Foi uma boa id�ia ter come�ado a me preparar tanto tempo atr�s", avalia o empres�rio. "O meu champanhe est� garantido antes, durante e depois da festa."

Se depender dos fabricantes, champanhe n�o vai faltar, mesmo. Embora a produ��o anual seja de 3,5 bilh�es de garrafas, estima-se que haja um total de 6 bilh�es de garrafas estocadas, o equivalente a uma para cada habitante do planeta. A Mo�t & Chandon, uma das marcas mais famosas, lan�ou uma edi��o especial para a festa. Com o limite de 300 garrafas, o champanhe do mil�nio combina as onze melhores safras do s�culo. O pre�o? 20.000 d�lares a garrafa � pre�o do Classe A da Mercedes.



Como vou entrar no mil�nio
 
Ivo Pitanguy, cirurgi�o pl�stico
"H� dez anos passo o r�veillon na Su��a. Como este ano � especial, vou dar uma festa na minha ilha em Angra dos Reis para ficar perto do mar e dos amigos. Acho um privil�gio chegar ao ano 2000 assim."

Vera Loyola, socialite carioca
"Como gosto de estar perto do povo, optei por Copacabana. Vou observar a queima de fogos da varanda do Copacabana Palace. Ser� uma noite nesquec�vel porque a cada hora o mil�nio estar� chegando em alguma parte do mundo."

Ronaldinho, jogador
"Como o r�veillon acontece bem no meio do Campeonato Italiano, normalmente vou direto da festa para a concentra��o. Neste ano talvez haja um feriado prolongado na It�lia. Se tudo der certo, vou passar no Rio de Janeiro."

Paulo Coelho, escritor
"Vou � Fran�a rezar com minha mulher na gruta de Lourdes. Embora seja inverno, ficaremos do lado de fora at� a meia-noite. Ent�o, entraremos na gruta e brindaremos com um gole de �gua da fonte que corre l� dentro."

Marina de Sabrit, socialite paulista
"Fui convidada para uma comemora��o em Paris que vai durar uma semana. Ser�o jantares di�rios em castelos pr�ximos � cidade. � meia-noite estaremos no restaurante da Torre Eiffel. Falta convencer meus filhos a ir junto."

Narcisa Tamborindeguy, socialite carioca
"Adoro dar festas e vou dar uma para 120 pessoas no meu apartamento de frente para a praia, em Copacabana. Vou filmar as explos�es dos fogos para reprisar v�rias vezes durante a noite."

Amyr Klink, navegador
"Gosto de passar o Ano-Novo no mar ou com migos, numa fazenda perto de Parati. Neste ano, n�o vou fazer nem uma coisa nem outra. Na hora da virada, estarei na maternidade, aguardando meu terceiro filho. Gostaria que fosse um garoto."

Gustavo Kuerten, tenista
"Ainda n�o pensei muito no assunto. Por enquanto, a prioridade � me preparar para os torneios do ano 2000. Como o r�veillon coincide com o in�cio da temporada de t�nis, provavelmente vou passar o Ano-Novo na Austr�lia."

 
Como foi o r�veillon de 1900

O mundo come�ou o s�culo XX com boa dose de pessimismo. Na Inglaterra, o mais poderoso pa�s do mundo na ocasi�o, 500000 soldados estavam envolvidos na guerra colonial dos b�eres, na �frica do Sul. Em Portugal, a cidade do Porto enfrentava uma epidemia de peste bub�nica. Na Ilha de Creta, na Gr�cia, um surto de lepra atingia 3000 pessoas. "O s�culo XIX n�o quer deixar saudade", escreveu um articulista do jornal O Estado de S. Paulo. "Despede-se de n�s com peste, fome e guerra."

Por essas raz�es, as celebra��es do r�veillon foram bem mais discretas que a festan�a programada para a chegada do ano 2000. No Rio de Janeiro, o ent�o presidente Campos Salles recebeu todo o minist�rio no Pal�cio do Catete e anistiou alguns presos militares. � tarde foi a um concerto no Teatro L�rico. A cidade de S�o Paulo tinha cerca de 200.000 habitantes, metade dos quais n�o falava portugu�s. Eram, principalmente, imigrantes italianos e seus descendentes que tinham acabado de chegar ao Brasil. S�o poucas tamb�m as imagens daquela �poca. Foi justamente em 1900 que a Kodak lan�ou sua primeira m�quina fotogr�fica.

Os festejos foram maiores no ano seguinte, 1901, quando o s�culo XX chegou realmente pelo calend�rio oficial. A Inglaterra novamente n�o tinha muito o que comemorar. A Guerra dos B�eres continuava castigando seus soldados e Londres foi assolada por uma violenta tempestade na noite de Ano-Novo. As �guas do T�misa chegaram a subir at� 1 metro em alguns pontos. J� no Rio de Janeiro, sob o calor tropical, o clima era muito mais animado. Bandas de m�sica percorreram o centro da cidade numa festa que teve seu ponto alto � meia-noite, quando desfilou pela Rua do Ouvidor o Club dos Destemidos, "em brilhar de pr�stito" (num grande cortejo), segundo a descri��o dos jornais da �poca. Por ordem do arcebispo, todos os sinos repicaram nesse momento para saudar o novo s�culo. Em S�o Paulo, no dia 1� de janeiro, as igrejas realizaram missas solenes e na ent�o Catedral da S� (a atual come�ou a ser constru�da em 1913) a missa cantada pelo bispo foi acompanhada de uma orquestra. Na noite anterior, grupos de rapazes, a maioria estudante de direito do Largo de S�o Francisco, percorreram a cidade precedidos de uma banda. "V�rias sociedades dan�antes festejaram com magn�ficos saraus a entrada do ano novo", anunciou o Estado. "Todas as locomotivas e m�quinas silvaram seus apitos e sinos repicaram alegremente."
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