De G�nio e Louco...                          Veja 13/12/2000
Nobel chega � 97� premia��o com hist�rico de muitos acertos e algumas gafes terr�veis

Quando Alfred Nobel, o inventor da dinamite, usou sua imensa fortuna para criar um pr�mio internacional para cientistas e escritores, queria que fosse o mais importante de todo o planeta. O Pr�mio Nobel, cuja 97� edi��o ser� entregue em festa de gala neste domingo, tornou-se realmente um s�mbolo ol�mpico do que h� de melhor na produ��o cient�fica do s�culo XX. Concedido a estrelas de primeira grandeza como Albert Einstein, tem respeitabilidade suficiente para transformar em semideuses os laureados. "Os premiados viram automaticamente s�bios universais, s�o convidados a falar sobre pobreza, crime, religi�o, pol�tica ou arte", resume o historiador Burton Feldman no livro Pr�mio Nobel: Uma Hist�ria de G�nios, Controv�rsia e Prest�gio, que acaba de ser lan�ado nos Estados Unidos. Isso funciona muito bem se o agraciado conserva intacto seu prest�gio cient�fico ou se dedica a obras merit�rias. � o caso de Linus Pauling, Nobel de Qu�mica em 1954 e da Paz em 1962 por sua oposi��o � bomba de hidrog�nio. N�o � raro, por�m, o premiado revelar-se um falastr�o ou expor o lado negro de sua personalidade.

A mais importante das medalhas sempre esteve cercada de disputas pouco nobres, controv�rsias e fofocas. Continua prestigiada como nunca, ditando os rumos da ci�ncia moderna. Mas n�o tem como apagar de sua hist�ria que seus organizadores j� honraram cientistas que n�o mereciam, desprezaram outros por puro preconceito e alimentaram vaidades que se tornaram perigosamente danosas � ci�ncia. O Nobel tem o m�rito de destacar o avan�o do conhecimento. Tamb�m serve, contudo, para lembrar que muitas vezes se considerou como supra-sumo da ci�ncia algo que mais tarde seria reputado como bobagem. O portugu�s Antonio Egas Moniz foi premiado por ter inventado a lobotomia, uma t�cnica que mutilou milhares de pessoas e hoje est� totalmente desacreditada. Outro foi premiado por sustentar que a s�filis podia ser tratada infectando-se o paciente com mal�ria, uma asneira. Premiado aos 34 anos pela descoberta da configura��o da mol�cula de DNA, o americano James Watson poucas vezes voltou a um laborat�rio para fazer pesquisa. Mas o Nobel serviu-lhe de plataforma para uma carreira de conferencista, em que exp�e como verdades cient�ficas especula��es exc�ntricas. H� alguns anos, no in�cio do Projeto Genoma Humano, que dirigiu por curto per�odo, disse que o Jap�o deveria ser bombardeado de novo por hesitar em apoiar a colossal pesquisa, conclu�da em junho. Neste ano, se p�s a sustentar, sem nenhuma comprova��o s�lida, que o sol � um potente afrodis�aco. Isso significa, segundo ele, que latinos, por serem mais morenos, s�o mais propensos ao ato sexual que os branquelos anglo-sax�es.

O f�sico americano William Shockley levou a medalha em 1956 por inventar o transistor. Revelou-se ent�o um racista militante. No fim dos anos 60, dedicou-se a provar, por meio de testes, que era poss�vel que os negros fossem menos inteligentes que os brancos. Fundamentava-se numa teoria gen�tica completamente torta: como os negros tinham prole mais numerosa, estariam regredindo do ponto de vista evolutivo. Entre outros absurdos, defendeu que pessoas de QI baixo deveriam ser estimuladas a passar por cirurgias de esteriliza��o para n�o legar burrice �s gera��es futuras. Em 1980, aos 70 anos, voltou ao notici�rio por ter doado s�men a uma cl�nica interessada em vender espermatoz�ides de g�nios para serem usados em insemina��o artificial. Shockley morreu em 1989 e a cl�nica fechou em 1997 sem que nunca se tivesse not�cia de algum beb� que tenha nascido de sua doa��o.

Parte da aura do Nobel se deve ao mist�rio que cerca a escolha, feita por um seleto grupo de acad�micos escandinavos. N�o discutem candidatos em p�blico e suas decis�es uma vez divulgadas s�o irrevog�veis, aconte�a o que acontecer. Na cerim�nia, a medalha de ouro, o diploma e o cheque de quase 1 milh�o de d�lares v�m das m�os do rei da Su�cia, Carlos Gustavo, o que confere um car�ter ainda mais aristocr�tico ao pr�mio. Pelo menos uma vez, o marido da rainha Silvia deu a m�o a um cientista (Daniel Carleton Gajdusek, Nobel de Medicina em 1976) que seria acusado de pedofilia vinte anos depois de re Desde cedo, os acad�micos escandinavos davam seus escorreg�es. Em 1912 preteriram o genial Max Planck, um dos pais da f�sica moderna, para premiar o sueco e an�nimo Nils Dal�n, criador de um novo sistema para far�is de ilumina��o costeira. Corrigiram o erro seis anos depois, em 1918, ao premiar Planck.

Nesse ano, cometeram outra gafe de propor��es colossais. Eles laurearam o qu�mico alem�o Fritz Haber, inventor da bomba de g�s venenoso que matou milhares de pessoas na I Guerra. Haber levou a medalha porque a t�cnica tamb�m era �til para produzir adubos. "Em tempos de paz, o cientista pertence ao mundo; na guerra, � sua na��o", costumava dizer. O constrangimento foi t�o grande que a fam�lia real sueca n�o compareceu � premia��o. Dois anos depois, em sua obsess�o por ajudar a Alemanha a se p�r em p�, Haber tentou arrumar um jeito para tirar ouro do fundo do mar para pagar as repara��es devidas a outros pa�ses. � l�gico que n�o conseguiu nada. Com o ego inflado por um Nobel, acabou se transformando num dos primeiros cientistas a sofrer de frustra��o provocada por um desmedido excesso de autoconfian�a.

 
Daniel Carleton Gajdusek
Medicina, 1976
Quando fez suas pesquisas em virologia na Micron�sia, convidou v�rios meninos para morar nos Estados Unidos. Foi condenado em 1997, acusado de abusar sexualmente de um deles.

Kary Mullis
Qu�mica, 1993
Mullis foi premiado por multiplicar amostras de DNA e criar o m�todo PCR.
Mas perdeu a credibilidade ao endossar a hip�tese de que o HIV n�o provoca a Aids.

James Watson
Medicina, 1962
Aos 72 anos, Watson ainda provoca pol�micas quando abre a boca. J� sugeriu que o Jap�o voltasse a ser bombardeado e que as pessoas tomassem mais sol para melhorar seu desempenho sexual.

William Shockley
F�sica, 1956
Criador do transistor, Shockley assombrou os colegas ao sustentar que os negros tinham QI inferior ao dos brancos e ao propor que as pessoas de menor intelig�ncia fossem esterilizadas.
 
Antonio Egas Moniz
Medicina, 1949
Criou a lobotomia, uma opera��o que mutilava o c�rebro para curar a ansiedade e os problemas de comportamento. Era t�o cruel, controversa e ineficaz que foi abandonada pelos m�dicos.
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